Combates na linha de frente do hospital e o desastre nas relações humanas.

Falar de linha de frente pode ser recordar daqueles filmes de guerra onde os soldados saíam para lutar diretamente com seus inimigos, fosse com seus fuzis, carabinas ou baionetas. Munidos das armas que tinham em mãos, o que podiam fazer era atacar ou se defender. Mas, era guerra.

No hospital as coisas acontecem de forma parecida, assim, vamos imaginar aqui um sujeito fictício chamado Carlos.

Carlos trabalha por 44 horas semanais, sempre à noite. Também trabalha sem folgas, alternando plantões entre dias pares e ímpares. Coberturas de horário lhe servem tão só e somente como compensação de horas, à gosto de sua chefia. Suas férias estão vencidas e o pagamento atrasou novamente. Sem muitos recursos além dos mínimos para sua sobrevivência, não pode clamar por seus direitos legais, restando-lhe o tal “voto”. Assim, ano a ano ele deposita sua “fé” nos “salvadores” engravatados, “marketados”, simpáticos e companhia. Entretanto, esse mesmo Carlos já está perdendo a paciência.

Não fosse pela esposa e pelos filhos, Carlos já teria dispensado socos e pontapés no chefe e talvez em alguns colegas de serviço.  Não fosse por aqueles que ele precisa sustentar, já teria perdido a cabeça há muito tempo. Talvez tivesse até mesmo apedrejado a prefeitura junto aos Black Blocks, mas em sua função, não poderia estar à margem da lei, muito menos próximo a tais incógnitos.

Amanheceu o dia e Carlos trabalhou.

Aliás… tentou trabalhar…

… Tentou até onde pôde, mas uma cólica de vesícula (aquela “dorzinha chata que logo passava”…), passou a ser uma constante no seu dia à dia.  Hoje Carlos ultrapassou seus limites: sem conseguir executar seus afazeres, pediu uma dispensa na hora do almoço e foi ao hospital, certo de que, ainda que fosse seu direito, teria que pagar essas horas em questão em outro momento.

No hospital, Carlos entrou na fila conforme lhe pediram, sem compreender por qual razão.  Estava com muita dor e via pessoas entrando umas atrás das outras por um corredor e sendo atendidas.  Sentiu naquele momento, em que curvado estava na cadeira, com as mãos encolhidas sobre a barriga inchada, que estava sendo passado para trás mais uma vez e voltou à recepção.

Dora tentou argumentar que àquilo não era problema dela e Carlos, atropelado tantas e tantas vezes no curso de sua vida e cansado de ser pisoteado sem poder ao menos reivindicar seus direitos, resolveu fazê-lo ali mesmo.  Berrou, gritou alto, bateu no balcão, com raiva de todas injustiças.

Ok, Carlos conseguiu de alguma forma se manifestar. Mas Dora, certa de que o problema era com ela, afinal ninguém nunca entendia as dificuldades dela em lidar com o tal “sistema informatizado”, que há muito criava uma confusão enorme em sua cabeça, e então, ela tomou para si as dores, afinal, sempre havia alguém do trabalho implicando que ela.

Cansada de questionarem sua competência diante de sua idade avançada, Dora resolveu responder à altura do moço ali na frente, como se ele estivesse fazendo o mesmo, quando na verdade, se um conhecesse a história do outro, jamais teriam discutido.

Mas, isso não ocorreu, afinal, Dora e Carlos eram desconhecidos um para o outro. Ela gritou também e chamou os seguranças.  Falaram palavrões e terminaram o dia numa delegacia, com nervos à flor da pele, pressão alta, taquicardia e uma vontade desesperadora de nunca mais voltar para o hospital ou para qualquer lugar onde tivessem que aturar “gente”.

Pois bem.  Tal como numa guerra entre duas nações, quem vai ao campo para lutar são os soldados.  São representantes e ponto. Talvez nem tenham sequer visto um “inimigo” fora do campo de batalha, mas vão até eles com ideias na cabeça, assim como aconteceu na Segunda Guerra entre muitos ingleses e alemães, principalmente no alto mar.

No hospital a coisa é bem parecida. As pessoas chegam ao “serviço público” não raramente carregando um cabedal de estereótipos e pré-conceitos. Por outro lado, nesse mesmo serviço (e como em toda profissão), há o desenvolvimento e a existência de culturas locais sobre estereótipos e pré-conceitos sobre os “pacientes” (e também com relação às pessoas que entram na equipe).

Como se não bastassem estereótipos e pré-conceitos de ambos os lados, há um ingrediente extra muito importante:  a história de cada sujeito.

Assim, temos Carlos, o homem insatisfeito, frustrado e revoltado com toda a sorte de agressões aos seus direitos por parte de seu governo, ou seja, um homem que além de todos seus problemas, está furioso com os governantes. Mas, é um sujeito que, pode representar um cobrador quando vai ao balcão reclamar direitos.

Do outro lado, está Dora, uma mulher que optou pela sua profissão de recepcionista para poder direcionar os pedidos das pessoas, buscando concentrar em si tudo o que trazem para ela, de forma tal que, age como uma esponja, absorvendo as demandas alheias, tentando resolver tudo que é possível e impossível até o limite de sua paciência. E além disso, ela pode funcionar como representante do governo, pura e simplesmente por ocupar cargo público.

Não convém julgar quem é mais ou menos problemático.  A situação é explosiva em decorrência da combinação de fatores.

Quando alguém como Carlos surge a protestar, pode ser que ele esteja tentando se direcionar ao problema em si e ao seu causador, como talvez a estrutura do SUS, ou ao governo, ainda que agir dessa forma seja bastante improdutivo.

É aí que a demanda (a vontade de brigar) de nosso personagem recai sobre Dora, que à princípio não tinha nada a ver com o problema, exceto por ocupar um posto público.

Nesse ponto é que a problemática pode ou não se estreitar. Quando Dora reage e toma para si as dores como se fosse um ataque pessoal, ela assume ser o “alvo” de Carlos. Caso ela tivesse recusado esse papel, os ataques subsequentes talvez tivessem cessado ou não se elevado de tom.

Uma vez formado um par entre agressor e alvo assumido, é como se criássemos um campo de guerra para tratar ali mesmo, de resolver diferenças.  O resultado é trágico, pois sem uma razão direta, duas pessoas entram em conflito por motivos não comuns em princípio.

Em situações como essa, costumo dizer que nem toda demanda apresentada precisa ser respondida, seja indiretamente ou não. Às vezes é melhor que nem mesmo mereça resposta, justamente para evitar abrir espaço para discussão, principalmente quando ela é desnecessária.

 

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