“Psicólogo só conversa?!? Psicoterapia é bate-papo?” – O que se fala no consultório?

Quando se pergunta o que fazemos no consultório, não raras vezes as pessoas pensam que estamos ali somente para ouvir, ficar sentados com cara de paisagem e… pasmem… não dizer nada.

Conversas, bate-papos, e similares estão no cotidiano, assim, é normal que sirvam como referências para outros tipos de “conversas”. Em pleno século XXI, psicologia e psicanálise continuam envoltas num manto de mistério.

Quando uma pessoa vai ao consultório, o profissional que está lá para ouvi-la precisará estar atento tanto ao que ela diz objetivamente quanto ao que diz subjetivamente.

Isso não quer dizer que o profissional esteja lá para dizer o que alguém fez ou deixou de fazer certo ou errado, nem para julgar ou coisas parecidas. O psicólogo ou o psicanalista está lá para ouvir o que você ou algum outro paciente têm a dizer à respeito de uma determinada razão. Pode não parecer tão óbvio num primeiro momento mas, julgar alguém é um instrumento que serve para acabar com qualquer conversa. Mas, não se engane… não julgar não é compactuar com ninguém, já que isso pode facilmente implicar num conluio para fazer parecer que não há nada relevante ocorrendo.

O ser humano é o grande elemento que faz diferença no consultório. Ainda que o profissional esteja ali depois de centenas e até mesmo milhares de paginas lidas, ele não vai ficar fazendo considerações à partir de autores da psicologia ou da psicanálise. E não vai, pois isso só serviria para tomar espaço que é do paciente falar ou, do próprio profissional falar.

O profissional também fala no consultório?!?

Sim, fala, com certeza. Mas, tudo depende de muita coisa. A fala do profissional é uma intervenção e, como a lâmina de um bisturi, cabe ser utilizada com muito critério.

Vamos considerar o primeiro contato de um paciente com um profissional:

  • o paciente foi, conversou com o psicólogo e combinaram um horário.

Ainda que possa parecer pouco relevante, o profissional precisa ter minimamente a consideração de que o paciente não possa vir nesse ou naquele horário por já ter algum outro compromisso prévio. Mas também pode acontecer desse mesmo paciente aceitar qualquer horário.

O psicólogo e o psicanalista precisam “guardar” certas informações que para muitos podem parecer “bobas” mas, que em algum momento vão ter relevância quando se juntarem a outras. Isso acontece porquê há elementos dentro de uma psicoterapia ou de uma psicanálise que só fazem sentido quando observadas em conjunto.

A escuta e a observação das diversas formas de linguagem que uma pessoa emite, são aquilo que o profissional tem para fazer o exame do estado mental. Quando se trata de crianças, são incluídos jogos ou uma caixa de brinquedos, pois é através da brincadeira que elas lidam com suas questões afetivas (ou seja, brincadeira de criança é encarada como coisa séria).

O exame do estado mental está para o exame físico assim como o trabalho dos profissionais de saúde mental está para o trabalho dos profissionais de saúde física.
Diferentemente de um médico, odontologista ou fisioterapeuta que, depois de um pouco de conversa partem para exames físicos, imagens ou laboratoriais, os psicólogos, psiquiatras e psicanalistas têm nas manifestações de seus pacientes o que precisam para examinar. Ou seja, quanto mais é necessário examinar seu paciente, mais é necessário ouvi-los. Por essa razão, às vezes é importante ouvir uma mesma coisa mais de uma vez.

Como uma comparação às investigações que conduzem ao diagnóstico de cálculos renais, vesiculares, tumores e tantas outras coisas, quando se trata da saúde mental das pessoas podemos observar que não é possível:

  • apalpar uma ansiedade;
  • radiografar um estado depressivo;
  • usar contrastes para focalizar melhor uma neurose.

E ainda que no futuro seja possível fazer algo do tipo, doenças mentais se desenvolvem ao longo da vida de uma pessoa, sendo sempre necessário constituir um trabalho específico para cada uma delas, o que implica também no ritmo desse tratamento.

Ou seja:

Cada pessoa tem as suas particularidades, mesmo que possa haver semelhanças no funcionamento psíquico. Ninguém tem a vida igual à outra pessoa, já que não é possível dois ocuparem o mesmo lugar no tempo e no espaço.

Pois bem…

Então… além da conversa servir para exame e tratamento, ainda tem o agravante de cada pessoa ser única?

Sim! E com isso toda uma necessidade do profissional olhar para cada pessoa como única, diagnosticar com base nessas peculiaridades e, planejar um atendimento único para ela!

Por exemplo, algumas pessoas já começam a falar mais livremente dos seus problemas, enquanto outras precisam de mais daquelas conversas de “quebrar o gelo” no começo. Em ambos os casos, não dosar bem o teor da conversa pode ser desastroso, já que um poderia perder interesse ao conversar futilidades e o outro, fugir assustado com uma conversa mais aprofundada sobre algo mais íntimo.

Assim, pode ser necessário para alguns pacientes que o ritmo das primeiras sessões seja mais lento, mais suave, cabendo até mesmo alguma conversa “mais banal”. A “quebra de gelo” pode ajudar a criar um clima mais confortável para que surjam questões mais importantes.

Em contrapartida, alguns dos pacientes mais “soltos” podem tentar falar muito e de muitas coisas para que não haja espaço para o profissional que o examina, dizer muita coisa. Naturalmente, isso implica em outras formas de intervenção.

Depois que os primeiros momentos de uma psicoterapia deram certo, é interessante que a pessoa vá ficando mais à vontade para “se mostrar” afetivamente. Chegar a esse ponto pode levar bastante tempo, já que pode carregar tanta tensão quanto é para algumas pessoas, o ato de “tirar a roupa” para ser examinada pelo médico.

Conforme a pessoa vá entrando nesse caminho para se descobrir, redescobrir, pensar, repensar coisas que estão presentes e até mesmo outras, que ela pensava já estarem resolvidas, é natural que o profissional passe a lidar com mais e mais “mecanismos de defesa”. Esses mecanismos funcionam basicamente para evitemos sofrimento psíquico, de forma mais ou menos parecida com que se evita sofrimento físico, o que pode incluir manifestações de sintomas como:

  • esquecimentos totais ou parciais de momentos importantes;
  • dores inespecíficas;
  • doenças psicossomáticas.

Quando o profissional se depara com “defesas” é de primordial importância que a conversa de consultório não caminhe como uma conversa comum. São em momentos que o paciente gagueja, fala alguma coisa fora do contexto, diz que esqueceu ou muda de assunto sem terminar o anterior que requerem mais atenção.

Os atos falhos, lapsos de memória, dores inespecíficas (incluindo não raramente dores de cabeça e reações auto-imunes), costumam ter conexões com questões psíquicas bastante importantes mas… são coisas que o paciente não percebe ou, na melhor das hipóteses, tem alguma ideia delas.

E aí é que se segue outra parte desse trabalho, surgindo interrogações sobre o que causou tais manifestações dos mecanismos de defesa e, ao mesmo tempo, a necessidade ou de manter um assunto em pauta ou, de explorar a própria manifestação da “defesa”. E tudo isso, dentro dos limites do suportável para seu paciente (afinal, se ele não percebe algo, é porquê há razões para isso).

Muito provavelmente você deve estar percebendo que o trabalho de consultório não é apenas uma conversa. Aqui eu coloquei de forma ilustrativa um cenário que se pode ter no divã ou na poltrona mas, não coloquei uma problemática específica, pois isso tornaria tudo mais complicado para entender.

Em plenos século XXI ainda há quem tente desqualificar o trabalho dos profissionais de saúde mental, mas é algo que normalmente é possível encarar como sintoma, já que esse tipo de coisa costuma funcionar através de uma via “defensiva” (que também inclui atacar ao outro para defender uma espécie de “paz” interior, que no fundo costuma ser uma grande mentira).

Em suma:

O assunto no consultório tem que ser algo importante para o paciente e que possa ser sentido por ele desta forma.

*(artigo editado em 14 de julho de 2018 – Julguei melhor rever algumas colocações, deixar o texto mais leve e acessível. Inclusive, condensei algumas ideias e eliminei a terceira parte dessa série, para não ficar com texto redundante.)

**(na revisão de 24 de outubro de 2019 – revi novamente as colocações e lancei mais luzes ao que estava obscuro.)

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