Sobre a suposta agressão à idosa na UTI em São Paulo

 

Quando li a primeira reportagem à respeito¹, confesso que me senti inclinado a acreditar na hipótese de agressão. E não sem justificativa. É uma possibilidade horrível, mas real, a de um sujeito dedicado ao cuidado partir para o oposto. E razões muitas vezes não faltam, como cargas de trabalho extenuantes, dificuldade em cuidar da saúde física e mental, ter que arcar com a cobrança social de “jamais, nem nunca” poder cometer falhas e etc. Só que…

Há elementos que contribuem isolada ou coletivamente para a instalação de quadros confusionais, inclusive já toquei nesse assunto anteriormente²: má oxigenação de sangue, alterações metabólicas, privação de sono, quadros neurotóxicos por efeitos de medicações ou como resultado de outras doenças.

E como detectar isso? É preciso um trabalho em equipe (através de formas de investigação dentro do alcance de cada profissional, preferencialmente, discutindo o caso à dois ou com mais membros). Avaliação do estado mental nestes casos é o básico na coisa toda: é bem simples, fácil de executar, mas é preciso muita cautela, pois há pessoas que conseguem responder adequadamente quase tudo (identidade, idade, data, profissão), mas vão pecar ao lhe responder acerca de ONDE estão.

Acha isso pouca coisa?

Pois bem, imagine um sujeito sem condições físicas de sair da cama, tentando se levantar para ir “ao hospital” por estar com dor? Vamos complicar um pouco esse sujeito e imaginá-lo com uma sutura recente atravessando sua barriga do esterno (osso que segura suas costelas, aí no meio do peito) até abaixo do umbigo uns quatro dedos.

Imaginou?… estou certo de que em alguns causou até arrepio…

Pois bem, querer ir ao hospital (estando em um), levantar pra trabalhar, fazer comida ou qualquer coisa incoerente com o contexto é o suficiente para a ocorrência de um acidente. Camas hospitalares não costumam ter a mesma altura de camas residenciais, elas são altas para que a equipe multidisciplinar consiga executar cuidados e procedimentos com ergonomia (e assim, continuar a prestar assistência preservando o corpo). Além disso, um dos pontos altos de nossa discussão está no elemento que serve para assegurar boa relação custo e benefício entre segurança do paciente e cuidados: as grades.

Mas… as grades não podem ser 100% eficientes…

E aí que está mais um problema. Há pacientes que se esgueiram das formas mais mirabolantes para sair de uma cama, de forma muitíssimo parecida com a que crianças fazem para sair do berço. E às vezes conseguem.

Há os que saem pelos corredores tentando fugir da enfermagem, os que arrancam roupas e até curativos e dispositivos dedicados à manutenção do estado clínico ou monitorização de sinais. Há alguns que de fato vão embora (e pasmem, suas famílias ainda poderão ligar no hospital perguntando se fulano teve alta!)…

Além desses tipos, há também os que caem e se machucam. Essa é uma das razões para que sejam aplicadas medidas de contenção química ou mesmo física. Esta é caracterizada pelo uso de faixas nos punhos, podendo ser aplicada também nas pernas ou mesmo no tronco. Aquela é marcada pelo uso de remédios (ditos “sossega-leão”), que são usados com cautela em decorrência dos efeitos colaterais (piora no quadro respiratório, entorpecimento, dificuldade para se alimentar ou para cumprir com atividades essenciais em seu pós-operatório, por exemplo).

Enfim… não acho que houve agressão. Inclusive já vi paciente em pior estado por conta de uma queda da cama (uma queda de uma cama pode criar uma série de pequenas rupturas em capilares, causando um efeito horrível que se espalha por camadas inferiores da pele, criando “manchas” muito maiores que o ponto lesionado inicialmente).

Mais que isso, espero que essa suposta agressão possa ser descartada a luz de investigações, uma vez que sua comprovação só irá assinalar o quão trágico podem ser as relações humanas dentro de um hospital³.

Obrigado pela leitura!


¹ há duas reportagens do Estadão a respeito:
<http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,enfermeiro-e-afastado-apos-suspeita-de-agressao-contra-idosa-de-78-anos-em-sp,70001742722>
<http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,morre-idosa-que-teria-sido-agredida-por-enfermeiro-em-hospital-municipal-de-sp,70001759484>

² Falei dessa questão em:
“Hoje é 19 de abril de 1983…”: O paciente não fala coisa com coisa, e agora?

³ Sobre relações humanas no hospital:
Combates na linha de frente do hospital e o desastre nas relações humanas


 

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