“Quando volto pra minha casa, eu fico muito triste…”

Rosinha já tinha quase 70 anos. De alguns anos para cá passou a receber acompanhamento psiquiátrico no centro de saúde, até aceitar a recomendação de passar por psicoterapia. No consultório, mostrou-se uma pessoa amena, delicada, mas com algumas contradições: “Só quando eu era muito pequena, eu saía com meus irmãos pra matar ratos, cobras, sabe? (risos) Olha que coisa doida, eu menina, caçando cobra pra matar… (risos) Mas aí um dia meu pai me bateu, que falou que era perigoso. (silêncio e ela se encolheu na poltrona) Minha mãe já tinha falado, mas aquele dia eu apanhei muito…”. Era casada com Ulisses, tinha vivido uma vida difícil criando com 5 filhos, mas, dizia viver com um homem que não amava há muito tempo. “Apanhei a vida toda. Vivi isso tudo por conta dos meus filhos, mas agora eles já cresceram, né?”

Ela não parecia cogitar a separação, mas a distância do marido parecia fazê-la feliz: “Olha, vou te contar, pelo menos eu não tenho que cozinhar pra ele, sabe?”.  Curiosamente, a desgraça do marido tinha um efeito parecido… o que se revelava nos sorrisos ao contar que ele tinha caído ou ficado doente. “Nossa, naquele dia que ele caiu da escada na minha frente, eu fiquei olhando ele caído ali no chão assim… (ela arregalou os olhos) e ele gritando pra mim socorrer ele… Juro que eu não sabia o que fazer na hora, sabe? (risos) E olha que eu sou enfermeira… (risos) Eu em pé aqui assim e ele ali com a perna toda dobrada desse jeito assim se arrastando que nem cobra, sabe? (risos) Deu vontade de falar pra ele, não foi você quem não me deixou trabalhar de enfermeira? Agora você quer uma, né? (ela fez uma cara feia, mas riu depois novamente)”. Entristecida Rosinha ficava ao retornar para o mesmo teto que ele: “Geralmente eu tenho ido só com minhas filhas, mas sempre que volto do interior, eu fico triste… Aqui é melhor de viver, mas eu fico muito triste…”.

No fundo, Rosinha queria ver o marido muito bem morto e não era preciso olhar muito à fundo para perceber isso. Entretanto, diante da história de vida que havia apresentado, cheia de ódio reprimido até então, seria muito perigoso (e imprudente) deixar às claras de qualquer forma o que ela desejava de verdade (e que estava reprimido). Isso poderia transformá-la numa homicida de verdade. O companheiro dela estava velho, dependente e se arrastando, enquanto ela, ainda que necessitasse de uma bengala, podia fazer muita coisa.

Um comentário em ““Quando volto pra minha casa, eu fico muito triste…”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s