“Não sei se me separo de meu namorado…”

Ângela era uma mulher independente, que já tinha filhos praticamente criados e namorava há mais ou menos um ano. Profissional liberal, podia cuidar das contas e pagar o apartamento independente da pensão do ex-marido. O único problema que relatava era estar num relacionamento que já não era mais o mesmo.

As brigas com o namorado estavam ficando mais frequentes, mas de alguma forma, sempre fazia as pazes e deixava os mal entendidos por isso mesmo, ainda que tomasse alfinetadas vez ou outra… “Ele fica me falando, sabe aquele, dia? Eu lembro, viu? Não esqueci…”

Contabilidade e cuidados, noutrora brilhantes, já não eram mais os mesmos. “Eu acho que estou ficando velha… você pode ver, olhe como estou acabada hoje… Nem lembro quanto pintei os cabelos ou fiz as unhas da última vez… imagine como ficaria se tivesse mais filhos? Cuidar de adolescente é muito difícil, hein?”

Aprofundando-se em suas questões, Ângela acabou observando que estava se desgastando muito com os filhos adolescentes e que sentia falta de quando eles eram pequenos. À partir disso, percebeu também que já estava há algum tempo se dedicando a cuidar dos mimos do namorado. “Olha, noutro tempo eu já teria dado na cara dele algumas vezes… Ou sei lá, mandado ele à… nossa… (risos) … já falei tanto palavrão quando era moça…  agora que não tenho que prestar contas, não consigo… (suspiro)Tem alguma coisa errada comigo, mas ainda não sei o que é. Falta de homem não é… casei duas vezes, não me lembro de ter sentido grande falta quando larguei.”

Não bastando isso, ainda que tendo criado os filhos para serem independentes, estava tentando mimá-los e protegê-los além do que sabia ser o necessário. Ao se dar conta disso, compreendeu que estava deixando de cuidar de si mesma gradativamente.

Ângela não iria deixar os filhos e protestou consigo mesma: “Eu sou mãe, não posso deixá-los.” Por outro lado, concluiu que seria importante deixá-los mais por conta, para que eles pudessem aprender também por si mesmos, os limites. “Acho que consigo fazer, isso… Sabe, sempre falei para eles que era importante saberem se virar nessa vida…”

Além disso, Ângela decidiu terminar com seu namoro. “Eu acho que estou fazendo isso há meses… Sério.  Eu tento não tratar ele como filho, mas ele fica tão comportado, me pede tantas desculpas, que eu acho que no fundo fico mais é com dó… Imagine, eu Ângela … com dó de um homão daqueles? Aff… Eu não quero casar com meu filho, me poupe… (ela fez uma cara séria).”

Ângela obteve uma melhora significativa em poucas semanas.  Arrumou-se melhor para sua última sessão e disse que voltaria caso futuramente se visse em dificuldades novamente. Sentia-se melhor e mais bem localizada em seu espaço.

Um comentário em ““Não sei se me separo de meu namorado…”

  1. Republicou isso em Oficina de literatura & PSicanálisee comentado:

    Como parte do trabalho de transportar o conteúdo de lucianopsi.com para cá, nesse eu removi alguns links no texto que serviam para explicar do que se tratavam os “contos clínicos” (era uma categoria), e também explicar de onde saíam os nomes dos personagens, que eram todos vinculados ao conto “A pia da Rosa”.

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