A marionete

Naquele dia Rosinha* já não tinha nem tempo de pensar se estava ou não cansada. Seu nome era Trabalho e seu sobrenome… Trabalho. Seria Hora Extra se não fosse “a crise econômica”…

Foi naquele plantão. Rosinha* não havia parado para beber água ou para ir ao banheiro. Ou… talvez tivesse. Mas, ocupada o quão estava, nem se lembrava e também não era algo que alguém ali fosse perguntar.

Se aquela pia no posto de enfermagem pudesse fazer mais que ser uma inerte e reluzente liga inoxidável, teria perdido as contas de quantas vezes Rosinha* nela havia lavado as mãos e o quanto de remédio que essa enfermeira já havia preparado. E se não estivesse ali apenas para aparar a água ou parte dos soros que tinham que ser postos no volume correto, poderia questionar a amiga quanto ao número de pacientes, que já era oito.

Caso fossem dadas a sair do lugar e ver – diferentemente da porcelana barata que eram – aquelas pias dos quartos, saberiam que Rosinha* estava fazendo de tudo para medicar, banhar e fazer curativos. Alguns pacientes tinham “perdido” as veias, mas logo a pródiga enfermeira estava lá para “pegar” outra.

Rosinha* podia fazer de tudo ali. Ela e seus colegas de trabalho, três para cuidar de quase trinta. Juntos, conseguiam dar conta de tudo. As coisas não estavam saindo nos horários certos mas, estavam saindo.

Foi quando no meio daquela correria apareceu uma nona paciente para Rosinha*. Tão comprometida com o trabalho que recebeu aquela senhora e deu boa noite carinhosamente. Alguém havia dito para receber o paciente mas, mesmo após fazer vários protestos, a jovem e elétrica enfermeira cedeu e a recebeu.

Curiosamente já havia levantado vários argumentos, dizendo que aquilo não era justo, pois já tinha muitos pacientes complicados, que estava sobrecarregada (tal como os seus colegas de plantão) e, que faltava menos de uma hora para ir embora. Mas alguém por fim argumentou do outro lado da linha:

– É uma senhora de 70 anos, poderia ser a sua mãe!!!

Isso doeu no coração de Rosinha*. Criada pela avó, sentiu todo aquele peso lhe balançar as pernas. Tomada por um quase desespero de quem, sem saber, havia se identificado com uma parte da história, recebeu a tal senhora de 70 anos.

Se a pia pudesse ouvir a conversa pelo telefone, e se pudesse fazer amizades, talvez questionasse a provável amiga, perguntando- lha se não percebia que toda aquela estrutura usava e abusava das pessoas na medida em que aprendia por onde lhes mexer os fios certos.

Rosinha* não conseguia se opor a certos argumentos, pois supostamente deveria fazer isso ou aquilo “pensando” no paciente. Sensível, se comovia com o estado que aquelas pessoas chegavam. Além disso, sempre aparecia alguém dizendo que ela era um anjo para inflar um ego que só nessas horas parecia valer algo… para os outros.

Mas… que anjo ingênuo esse, para jamais perceber que sob os argumentos de ter nascido para a profissão, de ter que se preocupar com o outro, de isso e sabe-se lá o quê, não passava de um brinquedo para aqueles que ficavam só atrás do palco, sem viver as cenas do espetáculo?

Rosinha* não tinha parado para pensar que aquela senhora que ela recebera e acomodava na cama, uma vez além de suas capacidades, ficaria apenas ali no leito. Sem a devida atenção, aquele coração de setenta e poucos padeceria fatalmente em umas duas horas por causa de um ritmo bem esquisito, ao qual ninguém havia prestado a devida atenção, já que o problema daquela “vózinha” supostamente estava numa dor de estômago, e os aparelhos portáteis de “PA” comprados para “agilizar” o serviço não eram capazes de cumprir o que dedos e ouvidos fazem bem… (quando devidamente aparelhados de estetoscópios e esfigmomanômetros).

Não era só Rosinha* que havia se comovido, mas havia muito mais gente que passava pelo mesmo naquele hospital. Talvez se comovessem muito mais se soubessem que eram apenas bonecos presos em fios, dos quais precisavam urgentemente se livrar para justamente evitar, aquilo que tentavam tanto evitar.

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