Pensamentos: indesejados e desnecessários? Uma odisséia de Ulisses

Ulisses tinha aqueles pensamentos perturbadores todos os dias. Ao terminar o trabalho, punha a máscara protetora para cima e olhava o serviço de solda, para checar se estava bem feito. Depois fazia o acabamento, pintava sempre com o mesmo fundo cinza e instalava para o cliente. Mas não conseguia deixar de ficar preocupado até ver seu produto em funcionamento por algum tempo.

Até aí tudo bem, se por acaso Ulisses se contentasse em deixar a vida seguir seu curso e, eventualmente contar com a possibilidade de alguém lhe ligar para reclamar de algum serviço, como muitas pessoas fazem normalmente.

No caso de Ulisses, o trabalho ficava tanto tempo na cabeça junto à expectativa de alguém reclamar, que no final de contas, ele acabava pegando a bicicleta velha (e com soldas trincadas) para passar na frente da casa dos clientes algumas vezes. Quando não trombava “ao acaso” com eles, acabava chamando para perguntar se o portão estava direito. Justificava-se dizendo que era sua forma de “fazer controle de qualidade”…

Às vezes, parado todo sujo ao lado da máquina de solda ou sobre a bicicleta, Ulisses passava o antebraço na testa suada. Normalmente achava que era esse o seu “normal” – ainda que clientes reclamando fossem uma coisa extremamente rara – de forma tal que insistia e continuava perdendo horrores de tempo com checagens e novas checagens.

Para piorar, apesar de toda polidez com o trabalho, Ulisses não conseguia conversar muito bem. Era breve nas palavras e quando parecia se soltar, logo gaguejava e dava um jeito de encerrar a conversa. “Tinha” que medir as palavras para não falar todos os palavrões que vinham na cabeça e para não assustar ninguém.

Ulisses melhorava quando bebia… ao menos era o que acreditava. Rosinha que o dissesse… Seu homem era um sujeito bastante difícil e que não aceitava jamais mudar nada. Não que ele não fosse capaz de lavar uma colher, nada disso… Ele só não considerava aceitável fazer o papel de uma mulher em casa, então, nem uma colher ele lavava.

A verdade é que Ulisses estava tomado por uma porção de pensamentos indesejados, sobre como é que faria se alguém reclamasse sobre a solda dos portões ou, o que achariam dele se passasse a lavar louças em casa ou, ainda, se ele deixasse de cuidar da fala e soltasse um palavrão diante de um cliente “tipo doutor”.

Certo dia, quando viu uma reportagem falando em eliminar pensamentos indesejados pensou em correr até uma farmácia. Mas… pensou… pensou mesmo um bocado e por fim… acabou passando reto com a bicicleta, correndo em seguida como diabo fugindo da cruz, tomado por uma preocupação terrível em saber que raios de pensamentos indesejados ele gostaria de eliminar. Teria que falar sobre isso com o farmacêutico? Claro!! Mas muita gente tomava remédio com aquele homem, não é?…

E para falar a verdade, esse era apenas mais um pensamento tomando forma, tendo como efeito o mesmo de todos os anteriores sem que Ulisses notasse: desse dia em diante, evitaria a rua da farmácia e faria um caminho mais longo só pra ninguém achar que ele poderia estar pensando em comprar algum remédio pra cabeça. Do herói mitológico, ali nada restava. Apenas pensamentos vagavam, uma estratégia singular e eficaz para fixar âncoras em qualquer lugar, nem que fosse para perder algum tempo caso não impossibilitasse fazer alguma coisa.

No caso de Ulisses, tal qual no caso de tantas outras pessoas, já não era tão simples identificar a origem de tantos pensamentos mas, o efeito produzido era claro: era parar a vida do sujeito.

Se Ulisses por acaso parasse com seus “pensamentos indesejados” e “manias” com a mesma facilidade de estourar um balão, ainda ficaria sem saber por qual razão estava paralisando sua vida. Mas, ele e muitos outros achavam que “esse” era Ulisses.

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