Pensamentos: indesejados e desnecessários? Uma odisséia de Ulisses. (Reflexões sobre o conto)

Esse post é uma reflexão sobre o conto com mesmo título.

Recapitulando, Ulisses estava envolvido em suas questões afetivas de uma forma bastante complicada e que, dado o tempo de permanência, já havia se tornado aquilo que muitas vezes as pessoas denominam como “hábito”, “costume” e até “jeito” ou mesmo, “manias”.

No caso de nosso pseudoherói, a pequena ilustração de sua pacata vida, nos mostra coisas que você só conseguirá observar basicamente das seguintes formas:

  • num conto, numa história ou num relato de caso clínico;
  • através de uma terapia ou de uma análise, dentro da qual o paciente poderá lhe revelar o que sente, o que pensa e o que faz;
  • vivendo a própria história e, com mais profundidade, a conhecendo através de um trabalho terapêutico.

Como acredito que tenha ficado claro, Ulisses é um homem tomado por vários comportamentos bizarros aos quais ele e as pessoas à sua volta já se acostumaram. Inclusive, pessoas como ele não raras vezes chegam ao consultório sem perceber o que acontece (indicadas por alguém) e, quando percebem, não têm a menor ideia do porquê ou o quê fazerem com isso e aquilo. Inclusive, há quem relate uma série de pensamentos indesejados associados com tais comportamentos.

Vamos imaginar que os pensamentos indesejados de Ulisses que o levavam a fazer uma série de coisas absurdas, passassem a ganhar uma dimensão mais estranha ainda. Que ele passasse do fazer portões e acompanhá-los por uma semana para ver se estão funcionando direito, para uma vontade irresistível de ir até lá e cuidar pessoalmente de abrí-los e fechá-los para ter absoluta certeza de que não ficou nenhum problema mesmo.

Absurdo? Sim, claro. Talvez até Ulisses percebesse isso e não se deixasse levar por tal coisa. Entretanto, isso não quer dizer que seus pensamentos lhe deixariam de importunar. O fato é que esses pensamentos estão ali por alguma razão que vai além do efeito mais prático, que é atolá-lo em sua vida e fazê-lo perder tempo. Como é óbvio, isso também serve para dizer que há alguma coisa errada, mas não com o portão e sim, com o próprio sujeito.

Para ilustrar metaforicamente, podemos pensar na doença física combatida com remédios, considerando o fato que nem toda pode ser tratada dessa forma. Inclusive, algumas podem ser mascaradas por analgésicos, anti-térmicos e anti-inflamatórios. O resultado dessa postergação, procrastinação ou enrolação pode servir apenas para agravar a doença de base, o que pode inclusive, levar ao comprometimento fatal da vida do sujeito.

Em saúde mental, não pense que a coisa que a coisa é diferente.

Uma possibilidade bastante similar ao exemplo anterior, é a postergação do tratamento psicológico levar ao agravamento do problema de base (aquele de onde sai uma árvore de sintomas). E isso é bastante perigoso, só observar o desenvolver dos casos de síndrome do pânico, onde tantas coisas já se remontaram que o sujeito nem sabe mais o que lhe incomoda, sendo imprescindível estar acompanhado por um psicoterapeuta para se aprofundar no que costuma ser um verdadeiro iceberg.

Do ponto de vista físico, o corpo humano “deixa” sair pus por alguma estrutura ou fica febril pra dizer que há alguma coisa muito errada (mesmo sem uma dor condizente). Em se tratando de mente humana ou de saúde mental, pode-se dizer que um sintoma “atropelado” por negligência aos próprios afetos ou, morto pelo cessar de sintomas por conta de excesso de remédios, poderá dar lugar a outro e até a outra via para se mostrar. Num exemplo bastante simples, é como uma pessoa deixar o medo de entrar no elevador e passar a ter um bizarro medo de entrar numa piscina ou mesmo, ter uma inexplicável (do ponto de vista fisiológico) paralisia das pernas.

No caso específico de deslocamento de sintomas psíquicos para sintomas físicos, a problemática tende a ser ampliada, sendo necessário um acompanhamento médico para tratar aquilo que está se manifestando no corpo, sendo imprescindível a psicoterapia para tratar o problema de base. Noutras palavras: se há uma manifestação física de um problema psíquico, tratar somente o psíquico pode não garantir a cura.

Em suma, é importante considerar que a eliminação de pensamentos pode ser uma aposta perigosa para ver onde é que novos sintomas vão aparecer e, deixá-los como estão pode ser padecer em mais do mesmo, o que é a mesma coisa que estar deixando de viver uma parte da própria vida (como um zumbi) a troco de coisa nenhuma, alheio inclusive, a que coisa é essa. Por outro lado, cabe levar em consideração a singularidade de psicoses graves e outros estados que requerem medicações pesadas, muitas vezes associadas a questões nas quais é preciso proteger o sujeito dele mesmo ou dos outros e que requer uma série de observações à parte.

Eliminar totalmente um sintoma pode ser uma forma de eliminar justamente aquilo que está dizendo que há algo errado aqui, nesse exato momento.

Obrigado pela leitura e até a próxima.

Um comentário em “Pensamentos: indesejados e desnecessários? Uma odisséia de Ulisses. (Reflexões sobre o conto)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s