Nem gregos e nem troianos

Ulisses* continuava a fazer seus portões. Era assim há muito tempo e diziam que continuaria por bem mais que isso. Se aqueles amontoados de ferros e pingos de solda fossem mais que o que eram e tivessem a oportunidade ímpar de acompanhar seu genitor, entenderiam o porquê.

– Falei tinta cinza, cinza, moleque!!

Rude, Ulisses* juntava os dedos da mão repetindo a mesma frase várias vezes. Queria todos seus portões com fundo cinza. Ninguém sabia qual a razão, mas o seu ajudante anterior conformara-se que tinha que ser dessa forma e pronto.

– É cinza!!! Isso aqui é cinza, olhe bem pra isso!!!

Ok, tinha que ser cinza. Na verdade não havia uma explicação razoável, já que outras tintas, mais novas e modernas, serviriam como uma melhor base para dar um acabamento ao trabalho.

O sobrinho de Ulisses*, lá com seus diminutos dez anos de idade, não compreendia nada daquela exigência mas, não ousava questionar. Ajeitou os chinelos nos pés, voltou à loja e tentou devolver a lata de tinta preta que havia comprado. Não conseguiu, é claro.

– Mocinho, não dá pra aceitar um negócio desses… Seu tio já abriu a lata… Agora ele vai ter que usar…

O menino não gostou mas, colocou a lata debaixo do braço, e caminhou até chegar perto do centro da cidade, passando de loja em loja até encontrar onde havia a tal tinta cinza, onde lamentou:

– Nossa, moço, mas eu não tenho esse dinheiro todo…

Certo de que seu tio ficaria muito bravo se não tivesse o raio da tinta cinza da marca X, ele tirou um pouco do que recebera (que era pouco) e inteirou o valor necessário para a compra. Já não tinha muito e recebia quase nada, então ficou ainda mais pobre. O dia já estava terminando e logo poderia ir para casa.

– Nossa, mas demorou, hein? Eu aqui com o portão parado e você estava fazendo o quê? Fosse de ônibus, ora essa. Só enrola… Da hora do almoço até agora pra isso? E essa lata preta? O que vou fazer com isso? Agora fica pra você, ora, cacete!

Negro, o menino não tinha como ficar vermelho. Entretanto, se aquele portão pudesse perceber alguma coisa teria visto o garoto franzir a testa e apertar as mãos antes de lhe mandarem beber água, já que pelo tanto quanto havia suado, devia estar desidratado.

– Não vai mais pintar?

– Não, agora eu não vou pintar. São quatro e meia. Eu não trabalho depois das cinco.

– Por quê?

– Porque eu não trabalho depois das cinco, ué. Depois das cinco é hora de varrer a sujeira e organizar essa tralha toda.

Ulisses* estava sentado e ficou ali meia hora olhando o portão todo, vendo solda por solda, matutando. Seu sobrinho, de mesmo nome, nada compreendia mas, ficou ali aguardando até as cinco sem fazer nada, já que varrer não podia pois não era hora para aquilo. Nada daquilo parecia fazer sentido e quanto mais tentava entender, mais voltas a sua cabeça dava, até começar a doer.

– Quando chegar amanhã, bate no portão cinco pras oito. Antes disso eu estou escovando os dentes, oras.

O pequeno Ulisses* chegou em casa cansado e mais pobre do que já era. Tomou uma bronca por andar pela cidade inteira e não pegar um Uber. Para sua mãe, o irmão dela era assim mesmo e tinham que aceitá-lo como era e ajudar, afinal, o avô era assim também.

– Tá bom…

– E o que está fazendo com essa lata de tinta agora? Amanhã você entrega pro seu tio.

– Mas…

– Mandei entregar pro seu tio! Você não vai ficar com tinta aqui em casa.

Suado e cansado, o menino Ulisses* esqueceu a lição de casa. Emprestou o pouco dinheiro que tinha para o irmão mais velho, também esquecendo que estava querendo comprar alguma coisa que… por sinal… também já não se lembrava a essa hora…

Ao deitar naquela caminha velha, o garoto que tentava crescer se mexia tanto que dormiu bem mal. Aquele mal de alguém para quem não havia sobrado nada, a não ser uma pilha de coisas sem o menor sentido, exceto para aqueles aos quais restavam infinitas justificativas. E no afã de tentar resolver todas as coisas (loucas) dos outros, o pequeno Ulisses* experimentava nessa noite apenas sua primeira insônia.

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A marionete

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