A mãe má

– De novo?… O que ela quer? Agora pouco ela não queria tomar remédio nem nada e agora chama de novo?!?

A enfermeira já havia perdido a paciência com aquela paciente, uma velha chata e insuportável, sobre a qual quais os filhos falavam que aquela “brabeza” e “rudeza” estavam além da conta, perguntando-se sobre velhice e doença, se elas poderiam deixar mesmo as pessoas assim…

– Nossa, ela tá bem pior do que era…

Tremendo de dor, Ângela* acabava cedendo momentaneamente vez ou outra. Era estranho… Sua filha mais nova saía do seu lado, cansada de ouvir tanta reclamação e ia lá fora, no balcão, tentar conversar com outras pessoas, desabafar um pouco.

– O que me deixa preocupada… além desse negócio dos remédios, é que ela não tá nem comendo, sabe?…

A equipe já sabia daquilo tudo e estava evitando o contato para evitar mais atritos. Ângela* não queria saber de nada, era um poço de revolta, absolutamente insatisfeita com qualquer coisa. Havia começado o tratamento, mas agora estava muito relutante.

– Ok, eu posso dar uma olhada nela sim, pelo que está me contando, é importante.

Depois de ouvir sobre a paciente, Misael* ajeitou seu avental e foi até lá atender uma interconsulta. Foi um dia. Depois, outro.  Por fim, foi várias vezes. Conversou com a equipe. Não foi um trabalho fácil.

– É, agora ela aceita alguns remédios, mas não quer comer muito não, só vomita… E fica lá fazendo cara feia pra tudo que eu falo… depois fala que vai parar de tomar remédios de novo… já não sei mais o que fazer… Dá vontade de ir embora para casa e nem voltar mais… deixar ela aí, fazer o que ela quiser.

Rosinha*, ali do outro lado do balcão, um pouco menos enfurecida, se perguntava o que Ângela* tinha afinal?… A equipe e a família sabiam bem do que se tratava, porém, aquela mulher que tinha boca para falar o que fosse a quem quer que fosse, não conseguia nem dizer o nome da doença que tinha e…

– Eu não quero nem saber, não fique me falando disso que eu não gosto e pronto! Ao invés de porem o meu nome aqui em cima da minha cabeça, coloquem para não me falar disso, que droga!!

Diante dos sinais físicos que Ângela* apresentava, estava óbvio que o problema requeria uma intervenção cirúrgica, já discutida à exaustão desde os primeiros exames, mas…

– Eu já sei o que foi que causou isso! Não preciso ficar falando, preciso ir lá e resolver, ora essa. Se eu fosse mais nova queria ver quem é que ia conseguir me segurar aqui dentro.

Àquela altura, a cada bufada e cruzada de braços, já não se sabia muito claramente quando Ângela* estava furiosa ou com dor. O fato é que a cada espasmo, ela olhava lá para fora e após algum tempo mudava sua feição.

– …

Não, ela não conseguia falar do que se tratava e levou algum tempo a conseguir isso. Perto da dor que sentia no corpo, essa outra nem tinha ao que se comparar. Não adiantava virar o rosto, fechar os olhos, virar na cama e nem tomar um “remédinho”, muito menos dormir. A dor era no fundo da alma.

Ângela* estava certa de que sua dor era fruto dos percalços de sua vida. E com isso, estava certa de que sua obrigação agora era reparar seus erros para se sentir melhor e só assim é que obteria a cura.

– Eu sei que sou ruim, mas é como aprendi a ser. Eles não acreditam, mas eu melhorei, eu quero melhorar. Só quero ser uma boa mãe…

Nesse ponto, Ângela* chorou compulsivamente, como talvez nunca tivesse feito na vida toda. Na verdade, nunca tinha olhado para si e àquela altura, revelava-se mais dura do que era.

No fundo, ela era assim consigo mesma e de certa forma, até pior do que com outras pessoas. Permanecer com dor era uma mistura cruel de auto-flagelo com penitência.

– Ela tem esse nome daquela enfermeira ali que fala que eu chamo ela toda hora… Rosa*.

Tratava-se da filha mais velha de Ângela*. Brigadas há muitos anos, não conseguia se achar digna da maternidade dela diante da mulher que a outra havia se tornado. Há anos mal falava com ela.

– Eu só queria pedir desculpas, sabe? Mas não consigo fazer essas coisas, não consigo!

Ângela*. Não se sentia digna da maternidade nem de Rosa* e nem dos outros dois filhos, mesmo diante do sucesso deles.

Algum tempo após ficar às portas de alta à pedido e alta sem cirurgia, o teor de raiva e revolta de Ângela* diminuíram e ela passou a cooperar um pouco. Não fazia sentido ser tão cruel consigo como estava sendo. Sua doença já estava instalada e consumindo seu corpo e, mesmo que se resolvesse com Rosa*, não ficaria fisicamente curada. Já havia um prejuízo de funções orgânicas e ela precisou melhorá-las até ficar em condições de ser operada.

– Não, não precisa chamar. Eu já até infartei nessa vida e saí. Vou lá do meu jeito. Não acredita?!? Só conseguir andar de novo…

Ângela*, que recusou que chamassem Rosa para vê-la, fez o seu tipo para o casal de filhos na manhã da cirurgia. Tomou banho sozinha, calçou e se descalçou sozinha. Tapou a boca sem dentes e, meio curvada, lenta, subindo amparada (um pouco à contragosto…) pelos outros e deitando na maca.

– Não precisam ficar chorando, eu volto logo… Se o médico não ficar enrolando.

Em meio às lágrimas, os filhos e Rosa* sorriram. Ângela* tinha lá um senso de humor no meio daquela cara de vózinha brava. Cobrava de si uma dureza monumental que se desfez assim que as portas da sala pré-anestésica se fecharam, pois tinha um medo: o de não ter mais tempo para consertar aquilo que achava ter feito de errado.

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A mãe má (considerações)

Obrigado e até a próxima!!


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O conceito de sintoma (Scielo)

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Um comentário em “A mãe má

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