Considerações sobre o atentado de 11/12 na Igreja em Campinas

Notas breves:
– esse artigo não é um posicionamento sobre desarmamento;
– não se trata de defender o crime;
– não é um artigo favorável aos manicômios ou exclusão.

Quando comecei a escrever esse artigo estive pensando em meus amigos, conhecidos, familiares, na minha profissão, em pacientes e tantas outras coisas. Afinal… algumas das vítimas eram da minha vizinhança onde cresci boa parte da infância e juventude, o que me deixa muito próximo de pessoas que estão sentindo a dor da perda.

Pois bem, assim que abri as primeiras linhas, me deparei com a pergunta “como alguém pode cometer tamanha brutalidade?”, mas, a apaguei por se tratar de um termo que não convém e nem serve para ilustrar a dimensão de tudo o que ocorreu. Quanto a explicar, estou certo que uma parte dessa história jamais terá uma explicação.

A mídia tem levantado bastante informações junto às declarações da investigação do caso, já havendo o bastante para refletir sobre o que levou o sujeito a um atentado, a um crime.

Apenas para deixar bastante claro, não se trata de defender um crime, afinal, se vivemos numa sociedade de direitos, é preciso sim arcar com as penalidades àqueles que a violam. Entretanto, cabe refletir e buscar explicações sobre o que aconteceu e é o que estou propondo aqui.

Eu não sei se há estatísticas sobre o que acontece com as pessoas que não são atendidas pelo SUS, mas quando são pessoas fisicamente doentes que vão a um hospital e elas não são atendidas (ou não atendidas adequadamente), sabemos que elas sofrem com agravos, às vezes culminando em suas mortes. Cabe considerar ainda que alguém doente, menos esclarecido ou mais humilde (ou tudo isso junto), como a maioria do público dependente desse sistema de saúde, não vai fazer outra coisa se não se preocupar com a própria saúde. A pessoa doente tende a ficar com recursos financeiros ainda mais escassos, então não espere “movimentos dos doentes” pipocarem algum dia por aí, essas pessoas querem melhorar para voltar a trabalhar para terem o que comer!

Pois bem. Quando o problema é mental a coisa acaba se desenrolando de uma forma muito peculiar, a começar da realidade dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que é bastante dura. Para quem não sabe do que se trata, eles são dedicados a prestar assistência em saúde mental mais ou menos como as unidades básicas de saúde fazem pelo bem estar físico (isso bem resumidamente, mas para facilitar a compreensão).

Ainda em relação aos CAPS, muitos dos pacientes que começam a fazer acompanhamento, vão ficar lá em acompanhamento contínuo enquanto morarem naquela vizinhança, seja através de consultas, avaliações psicológicas, psiquiátricas, pegando seus remédios ou etc. Isso significa que eles não receberão alta e que não serão abertas vagas a todas as pessoas carentes de atenção em saúde mental.

E o que acontece então?

Sempre há grande chance de agravamento do quadro, salvo quando o sujeito consegue um acompanhamento em clínicas-escola (que só funcionam em período letivo, o que não é bom para casos mais graves) ou paga um tratamento.

Quando não há opção nenhuma, há toda a sorte de desdobramentos possíveis:

  • portadores de depressão podem se matar e se matar junto com alguém;
  • neuróticos graves podem se isolar por conta de seu comportamento e até “consumir” a sanidade mental das pessoas que com ele convivem;
  • agressão: ela pode ser um soco aleatório em alguém na rua, inclusive em policiais, uma facada em algum parente, um atirar de objetos nas pessoas ou balear alguém, como no caso recente. O que significa que qualquer coisa ao alcance de uma pessoa “surtada”, incluindo os próprios punhos e até dentes, pode servir para atacar outra pessoa e até ela mesma.

Eu poderia facilmente ampliar esse leque de complicações possíveis para doenças mentais, mas não é necessário. O ponto mais importante é:

o agravamento de uma doença mental pode não apenas piorar a condição de vida do doente, como ter consequências para as pessoas ao seu redor a curto, médio ou longo prazo.

E isso pode se dar de algumas várias formas, como:

  • uma espécie de naturalização da doença, que é quando as pessoas consideram normal uma “esquisitice” e passam a assumir isso como traço de personalidade do sujeito, tal como algo que jamais mudará. Nessa condição, as pessoas ao redor não conseguem perceber a piora do quadro, sendo surpreendidas por alguma ação “sem sentido aparente”.
  • as ações da pessoa doente começam a afetar as pessoas em volta por conta de inadequação ao contexto, como andar sem roupas, ignorar os carros numa avenida, gastar ou guardar coisas de forma bizarra.

Levantar essas informações também é pouco e não é minha intenção que as pessoas por aí tentem virar psicólogos ou psiquiatras (não são de cinco anos para cima por pouca coisa) mas, cabe questionar não apenas aquilo que é exacerbadamente estranho, como também cabe questionar e cobrar do Estado uma atitude frente a saúde mental enquanto cobramos mais de políticas públicas.

A vida das pessoas que dependem desse tipo de serviço não costuma ser fácil. As clínicas escolas estão sempre abarrotadas de pacientes nos plantões psicológicos e com outros em fila de espera, não por acaso. Há muita gente precisando de assistência ficando de fora e são problemas que, mesmo inciando como individuais, podem ter sérias consequências para muitos outros.

No caso do atentado, arrisco-me a dizer que ali não houve nem surto e talvez nunca tenha havido depressão. As pessoas ficam tristes com perdas de pessoas próximas e isso ocorre também em quem padece de alguma doença mental. Chorar e ficar recluso por causa de uma perda é normal.

O que acontece e que muitas pessoas não sabem, é que uma pessoa que tem alucinações visuais ou auditivas (vê e ouve coisas) se recolhe para evitar ter ainda mais alucinações. Ou seja, isolamento também não é algo a ser considerado como depressão. Aliás, tem muita gente com depressão, esquizofrenia ou transtorno bipolar que está por aí trabalhando e que talvez você nunca perceba, mesmo cruzando e interagindo com algumas delas.

Quanto ao “surtar”, recuso-me veementemente a acreditar que foi algo súbito e repentino. Como as informações sugerem, o sujeito se armou e agiu dentro da sua “normalidade” sem que nada indicasse nada de diferente. E aí sim, arrisco a dizer que nessa condição, ele já estava “surtado” há tempos, mas ninguém conseguiu ver ou tomar atitude em relação a isso à tempo, o que permitiu tal estado muito mais sério.

Em um estado delirante um sujeito surtado pode planejar com base em seus próprios delírios e, para piorar, justificar tudo isso com outra ideia também delirante. Noutras palavras, as suas ações têm sentido para ele apenas e para ninguém mais, já que estão calcadas no próprio pensamento e não na realidade.

Não, identificar sinais e sintomas de doenças mentais não é um trabalho fácil. Conversar com alguém surtado às vezes é impossível sem uma intervenção medicamentosa e até contenção mecânica por algum tempo (que pode ir de horas à dias). Às vezes nem conseguir adesão do paciente é fácil. Mas, se em nossa sociedade olhássemos um pouco mais um para o outro e se parássemos um pouco mais para ouvir sem julgar ou rir daquilo que o outro tem a dizer, inclusive aquilo que vai se mostrar sem sentido algum, nosso presente poderia ser diferente: teríamos uma rede de atenção à saúde mental mais ampla, com maior capacidade de acolhimento e, estou muito certo disso, viveríamos muito melhor.

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2 comentários em “Considerações sobre o atentado de 11/12 na Igreja em Campinas

  1. Boa noite, parece que vc está descrevendo o que está acontecendo comigo. Moro em sumare e não consegui atendimento em lugar nenhum. E ainda fui orienta, na rede pública, a pagar consulta, situado lamentável.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Bom dia! Essa situação é mesmo lamentável. Mas há serviços à preços simbólicos ou gratuitos oferecidos por recém formados e por ONGs (há um Plantão Psicológico em Campinas que vai até dia 19 no centro). Vale à pena verificar essas outras possibilidades.

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