“Quero que o Covid termine logo!”

A pandemia ainda não acabou, mas há um sem número de pessoas que aguarda ansiosamente pelo fim. Eu inclusive quero que acabe logo para poder andar sem máscaras e com a janela do carro aberta.

Não há um problema propriamente dito em “sonhar” com isso. Não há um problema desde que não comprometa suas relações ou seu contato com sua realidade.

É de se observar que das pessoas que estão “querendo” que a pandemia acabe, há uma espécie de mistura entre o que é real e o fantasioso. Tem aquele que tenta acreditar que é uma farsa, outros, que é uma conspiração política… e por aí vai… juntam-se com outras “desculpas” para se opor ao isolamento e às precauções mais elementares.

Lidar com a pandemia não é fácil, dado que não é fácil “bater de frente” com a realidade em todos seus aspectos, vindo à tona naturalmente alguns (ou vários) mecanismos de defesa. Então, difícil dizer se alguém que anda se negando a cooperar o faz como forma de “negar” a realidade ou mesmo, se está tentando colocar seu protesto. Ou mesmo, se o protesto faz parte de uma negação… é uma coisa complicada como “o segredo do Tostines”.

Como de costume, não é possível especular com precisão sobre a conduta de uma pessoa sem ter em mãos elementos dados por ela própria. Avaliar alguém indiretamente costuma abrir mais espaço para dúvidas que para esclarecimentos e, os “pontos finais” ora levantados costumam falar mais sobre quem os coloca do que sobre de quem a fala fala.

E para que servem os remédios e a psicoterapia? Qual o melhor?

Realizadas pequenas correções de legibilidade. Removido um link desnecessário, pois no layout atual há melhor navegabilidade e uma lista de assuntos relacionados que funciona também melhor.

Oficina de literatura & PSicanálise

Eventualmente (mas com certa frequência) surgem dúvidas relacionadas a tomar remédios seja para ajudar a dormir, não ficar ansioso, não ter crises de pânico ou, se o melhor é fazer psicoterapia. Há dúvidas até mesmo, se um tratamento é ou não, melhor que o outro.

Os remédios servem para uma série de sintomas e possuem mecanismos que também podem variar. Quando um psiquiatra prescreve, leva em consideração esses aspectos e também, efeitos de combinações entre fármacos (afinal, um mesmo paciente pode precisar de vários psicotrópicos ou, também, tratar outras doenças, como hipertensão ou diabetes). Alguns dos sintomas que podem ser diminuídos com medicações, são a insônia e a ansiedade (incluindo as crises de pânico), o que costuma ajudar a pessoa descansar e recuperar um pouco as energias ou, para retomar sua rotina de uma forma mais suportável; no caso de depressões, os remédios podem servir como certa “injeção de ânimo”…

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“Não sei se me separo de meu namorado…”

Como parte do trabalho de transportar o conteúdo de lucianopsi.com para cá, nesse eu removi alguns links no texto que serviam para explicar do que se tratavam os “contos clínicos” (era uma categoria), e também explicar de onde saíam os nomes dos personagens, que eram todos vinculados ao conto “A pia da Rosa”.

Oficina de literatura & PSicanálise

Ângela era uma mulher independente, que já tinha filhos praticamente criados e namorava há mais ou menos um ano. Era profissional liberal, podia cuidar de suas contas, pagar seu apartamento independentemente da pensão do ex-marido. Seu problema era que há algum tempo seu relacionamento já não era mais o mesmo.

As brigas com seu namorado estavam ficando mais frequentes, mas de alguma forma, sempre faziam as pazes e ela deixava os mal entendidos por isso mesmo, ainda que tomasse alfinetadas vez ou outra… “Ele fica me falando, sabe aquele, dia? Eu lembro, viu? Não esqueci…”

Sua contabilidade e seus cuidados, noutrora brilhantes, já não eram mais os mesmos. “Eu acho que estou ficando velha… você pode ver, olhe como estou acabada hoje… Nem lembro quanto pintei os cabelos ou fiz as unhas da última vez… imagine como ficaria se tivesse mais filhos? Cuidar de adolescente é muito difícil, hein?”

Aprofundando-se…

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“Estou no terceiro casamento… eles sempre me traem…”

Removidos links e alguns comentários à respeito das ligações do conto com o trabalho feito no plantão psicológico.

Oficina de literatura & PSicanálise

Rosinha é relativamente jovem. Tem 4 filhos, dois do primeiro casamento e os outros dois dos posteriores, sendo que a menina mais nova tem pouco mais de um ano. Se em sua vida tudo ocorresse como gostaria, eis que teríamos uma mulher feliz apesar das preocupações em como cuidar da prole… mas não… entre um olhar e outro para o vazio ou para o chão, os olhos se enchem de lágrimas sem que ela saiba porquê, os sentimentos lhe saltam à razão e brotam e rolam pelo rosto na forma de lágrimas. “Eu acho que o que motiva são meus filhos, que se eles não tiverem eu, a quem vão recorrer? Não posso ficar ruim assim, não…”

Nos relacionamentos anteriores, Rosinha foi traída por seus maridos, resultando em brigas e separações. Se fosse dada a esquecer por conta da “idade”, como dizia e nem tinha, talvez não tivesse ido tão longe…

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Como é o atendimento on-line? 6 lições importantes

Faz parte da prática profissional pensar e repensá-la sempre. Não basta o que se apreende da faculdade, mas é preciso buscar aprender e apreender mais e mais, seja na forma de novos conhecimentos, seja repensando os passos dados.

E essa necessidade veio à tona com o advento do covid-19…

Como tantas outras pessoas, reavaliei minha prática profissional e… o atendimento on-line… novamente. Trabalhando também dentro de um hospital, vendo as informações sobre a doença e desdobramentos, não esperava um cenário de quarentena de curta duração.

Pois bem… Então logo que portas passaram a se fechar, avaliei que meu trabalho no hospital colocaria em risco quem eu atendia presencialmente, então suspendi o trabalho no consultório e montei uma “estação de trabalho”: peguei meu fone de ouvido, o celular, suporte, ajeitei tudo e abri o Whatsapp. Pronto. Agora iria atender on-line por tempo indefinido.

Fiquei com receio no princípio, mas tanto aquela primeira sessão, como as demais que vieram depois, fluíram tão bem quanto às presenciais. Mas isso com certas ressalvas, que são cuidados com os quais aprendi a lidar:


1. Atendimento por mensagens? Pode ser só por escrito? Qual o resultado? Funciona igual ao áudio ou vídeo?

Explorei um pouco esse formato e pude observar que se trata de um modo de atendimento muito problemático:

  • é muito demorado;
  • há pouca exploração do conteúdo;
  • não é nada dinâmico;
  • dá margem para a pessoa escrever e apagar;
  • as frases do emissor e receptor podem se desencontrar;
  • o vazio de uma pessoa se comunicando é preenchido conforme as fantasias do paciente, o que torna extremamente problemático o estabelecimento da transferência.

Então, por conta desses problemas, não atendo por escrito.


2. O primeiro atendimento precisa ser por vídeo?

Tenho a considerado que a chamada de vídeo ou, videochamada, é a forma mais perto de uma sessão presencial. Da mesma forma que num consultório, o começo é de um profissional para seu paciente. Então, há uma importância em manter a coisa face-à-face, até para que os dois tenham consigo uma referência de quem é aquele com quem vos fala. É mais ou menos como dizer que é preciso existir pessoas entre a relação terapêutica (transferencial) que estão ali.

Há a possibilidade sim de um paciente migrar para sessões por áudio, mas isso vai variar de caso para caso, mais ou menos como é feito com a passagem da poltrona para o divã.


3. Como fica a cobrança por esse tipo de sessão?

À exceção do recebimento do pagamento em dinheiro, eu trato cada caso individualmente, conversando nas sessões à esse respeito. Tem quem pague por sessão, tem quem pague mensalmente.

Valor é assunto para ser conversado na sessão. Conversar fora é tratar isso como algo à parte e, convenhamos… uma sessão de psicanálise é para se falar, então, falar de dinheiro também conta.


4. Sai mais barata a sessão on-line?

Não. E nem pode ser algo mais barato, pois é importante que seja firmado um compromisso do paciente com o tratamento de suas questões. Os custos de um atendimento on-line continuam implicados tal qual o de um atendimento presencial, à exceção da locação de sala. Isso não exclui o investimento em equipamentos e até em adequar o ambiente para a prática profissional.


5. Cuidados ético-profissionais

É importante ter uma boa qualidade de conexão de internet, já que é imprescindível uma boa escuta de cada caso. Nesse sentido é que o atendimento on-line é mais complicado, pois os “cortes” numa conversa aqui dificultam tanto compreensão quanto intervenção. Em suma:

  • é importante localizar um ambiente com menos ruídos. Os ruídos podem incomodar tanto ao analista quanto ao analisando e causar quebras na sessão (a resistência vai adorar uma desculpa para deixar aquele assunto importante de lado);
  • encontrar uma localização fixa para manter a qualidade do sinal;
  • o ambiente precisa garantir privacidade, pois uma conversa com um psicanalista está mais perto de uma conversa consigo mesmo que um bate-papo com outra pessoa;
  • os dispositivos usados precisam ter seus dados assegurados através da pratica de hábitos seguros de navegação na internet e, quando for o caso, incluindo uso de anti-vírus.

6. Atendimento on-line não é cômodo e nem está lá para ser.

Uma análise está lá para trazer à tona o que incomoda e que lhe alfineta. Analista algum está no consultório para passar a mão na cabeça ou para passar pano em neurose. O compromisso de tratamento numa análise é para ser encarado com seriedade, não importa se for numa sessão presencial ou numa sessão mediada por meios eletrônicos.

Isolamento: ele mexe com a cabeça das pessoas?

Como muitas coisas, o isolamento pode ser um estopim para mexer com a cabeça das pessoas.

Em se tratando de isolamentos hospitalares é possível observar aumento de ansiedade e dúvidas diversas, como preocupação com a saúde, prognóstico, sensação de vazio, de exclusão, uma dolorosa solidão, dolorosa saudade dos outros diante da falta de perspectivas claras quanto ao futuro (seja para ver os outros, seja para retornar à vida e à liberdade habitual).

Enquanto uma maioria consegue encarar um isolamento como uma forma alternativa de tratamento, boa parte se tranquiliza quando percebe que a problemática maior implica em não permitir que o que ela (a pessoa doente ou suspeita) tem passe para outras pessoas. Inclusive, como gesto de consideração aos outros, passam a aceitar essa condição e a encarar os desafios envolvidos como uma fase.

Também há aqueles que encaram como uma espécie de sentença de morte, mas geralmente isso se dissipa na medida em que recebem informações adequadas e vão conseguindo absorvê-la. Como costumo dizer, nem sempre as pessoas estão prontas para receber informação, então pode ser necessário repetir, reorientar, explicar a mesma coisa várias vezes, até mesmo, de maneiras diferentes.

Mas…

…também têm aqueles que ficam bravos e até furiosos.

Esses dificultam o tratamento, mas costumam reagir melhor na medida em que recebem os devidos esclarecimentos. Em um hospital é mais fácil a pessoa compreender e cooperar com um isolamento, já que estar lá pressupõe uma avaliação de uma equipe para validá-lo. Fora dali é mais complicado.

No cenário atual é esperado que uma série de questões afetivas venham a eclodir. Há quem pense que é culpa do isolamento, mas isso requer um olhar mais cuidadoso para fazer um diagnóstico correto. O isolamento implica em privação de liberdade, cujo significado muda de uma pessoa para outra. Também envolve a questão do “sentir-se bem” confrontada ao que envolvem as patologias fisiológicas, afinal, para espalhar uma doença não é preciso ter sintomas, basta ter sido contaminado.

Dentro desse cenário de sentir-se bem, de estar privado de liberdade, que ainda envolve questões de sobrevivência (ter um trabalho e receber uma renda), fica mais difícil de manter a mente no lugar sim. E, neste caso, sempre se aplica, buscar formas de ocupar a mente e o corpo, sendo importante em certos casos até um desabafo.

O que não se pode é, diante do risco biológico, pura e simplesmente abrir mão do isolamento social ou da quarentena, seja como queira chamar. Afinal, é algo novo e que está sendo investigado em todos os sentidos (sinais, sintomas, transmissão, prognóstico e tratamento) e isso requer tempo de pesquisa.

Assim como acontece com pacientes isolados no hospital à espera de resultados de novas culturas, essa é hora de esperar no isolamento, ainda que isso paralise vidas de várias formas.

Está bravo? Com medo? Ansioso? Perdido? Procure alguém para conversar.

Se está sentindo o coração bater mais que o normal, dificuldade para respirar, sensação de que o coração vai sair pela boca, pense um pouco e considere a possibilidade de buscar ajuda profissional.

Busque quebrar o isolamento dentro de suas possibilidades. Há recursos para ligações ou videochamadas, videoconferências. Use o que estiver ao seu alcance.

Até!!!

O quanto preciso saber sobre o corona vírus?

Sejamos breves: se a essa altura da história você entendeu o que é o COVID-19, em se tratando de:

  • sinais e sintomas;
  • transmissão;
  • prevenção.

Então… pronto, você não precisa entender mais nada. Se for profissional da saúde já terá uma ideia aprofundada de cada tópico e com certeza sabe de cor e salteado como proceder.

Incorrer em mais que isso pode ser fomentar neuroses e esse tipo de coisa, inclusive no consultório, às vezes requer um corte, um encerramento deste processo.

Isso se faz necessário para evitar uma paralisia (esquecer da vida em troca de alguma repetição) ou ansiedade (se colocar em expectativas excessivas, por exemplo).

Não vou traçar aqui um manual de sobrevivência no isolamento, mas estarei disponível para conversar pelo Whatsapp nos meus horários vagos. Essa é hora de deslocar energia para outras coisas, mas pode ser hora de rever e de repensar alguma coisa na vida, o que sozinho pode ser angustiante.

Fúria e folia (um conto de Carnaval ou de lua cheia, quem sabe…)

“Eu não acredito que você fez uma coisa dessas, amiga!!!!” Foi com essa frase colada à mente que Ângela* ficou muda. Diante dela, mas dando as costas enquanto passava a esponja cheia de espuma num prato, Rosinha*, horrorizada.

Pensativa àquela altura da conversa, Ângela* começava a acreditar que tinha mesmo feito besteira. Ou talvez não?… Por fim, e na dúvida, resolveu manter o silêncio, concordar (não que concordasse com tudo) e foi embora, meio sem graça.

Gota à gota, a pia, se pudesse ver alguma coisa ou mesmo se alguma parte do aglomerado de compostos sedimentares que era, pudesse falar ou lembrar de algo com base na experiência que talvez tivesse se pudesse acumular memórias… saberia que Ângela* só tinha aproveitado a noite para ir um pouco além do que normalmente fazia: era moça, queria pura e simplesmente curtir a noite para ficar com vários outros jovens, coisa que já acontecia desde o começo da adolescência mas…

– Nossa, que galinha! – protestou, esbravejando solitariamente a dona da pia.

Com as palavras da amiga e a cena relatada muito viva flechando a consciência repetidamente, Rosinha* não podia admitir que a amiga tinha passado a noite com um desconhecido num motel. Achava isso um verdadeiro absurdo. Não obstante, se a pia pudesse observar as duas um pouco melhor, já que se tivesse olhos eles certamente estariam limpos de tanto sua dona passar-lhe pano… bem… o mármore falso teria visto uma moça muito satisfeita pelo feito (Ângela* sabia o nome do moço, claro) e outra horrorizada num mesmo instante.

– Loucura… fui fazer uma loucura, a-mi-ga-a!! Que loucura o quê?!?

Repetindo a fala da outra desdenhosamente, não havia bastado para Rosinha*, ficar brava e falar um montão de coisas. Ao terminar de arrumar a cozinha, ela ainda reclamou sozinha, xingou novamente e falou mais uma vez com espanto. Ângela* não era inocente mas, parecia que tinha exagerado, não é?

– É claro sim, claro que foi um exagero!!!

No meio daquela conversa coube a Ângela* se justificar e explicar, surpreendida por tamanha reação negativa da amiga. E convenhamos, ela tinha tomado todos os cuidados (e talvez até mais que muita gente): não foi no motel no mesmo carro e ela própria já levava preservativos na bolsa. Aliás, o moço também levava, o que deixava ainda mais óbvia a razão do encontro dos dois. E se a baladeira (que por sinal ainda trabalhava e estudava muito) não sabia se ele era mesmo solteiro ou não, ué… ele não era alguém com quem queria ficar além dessa noite de ontem. E que tinha sido maravilhosa…

– Nossa, que puta!!!… Que tinha que me mandar mensagem dizendo onde estava? Vai te catar!

A lâmpada se apaga e a pia fica entregue à luz da lua assim que Rosinha* sai. Pela porta, caindo na paredes, apenas a sombra da moça passando de um lado pro outro, se arrumando. Mas, ao contrário de outras vezes, ela não voltou nem um pouco cedo… aliás, estava tão irritada que “precisou” tomar um pouco de vinho antes de sair para ver se estaria melhor quando fosse sair com Ângela*.

E, com as horas… aquela noite se passou em silêncio. Aquele silêncio onde nada se escuta e nem se vê nada, de uma casa cujas vidas saíram por aí para retornar somente no dia seguinte…

– Nossa… – foi o que Rosinha* resmungou pondo as mãos na pia para se apoiar; estava um verdadeiro caco quando reapareceu.

Se pudesse, já que não tinha olhos, o mármore de mentira os teria apertado desconfiado, daquele jeito como quem pergunta: “e aí, o que aconteceu?”… Mas era só um granito e não poderia nunca acolher sua dona assustada.

Maquiagem toda borrada, a roupa torta, uma bolsa atravessada no meio do corpo e uma dor de cabeça horrível… Não, Rosinha* não estava conseguindo pensar direito e por fim largou os sapatinhos que carregava na mão, ali no chão da cozinha mesmo. Não era o que costumava fazer mas o fez e se sentou na cadeira ali mesmo, toda largada, alisando os lábios pensativamente.

Àquela altura, mal conseguia se lembrar da noite. Se a pia lhe perguntasse sobre o que havia bebido, ela não saberia nem dizer do copo de vinho antes de sair de casa. Descabelada, ela tenta ajeitar um pouco os fios, acenando negativamente com a cabeça, sem acreditar que há pouco acordara com um moço estranho bem do seu lado, num motel e atirado nele tudo o que tinha visto pela frente, antes de sair dali num Uber bufando raivosa.

E agora, olhando para o celular, que as delicadas mãos de esmaltes vermelhos afastam, Rosinha* se pergunta sobre o que dizer para a amiga. Mensagens perguntando sobre seu paradeiro e um monte de ligações. Havia uma vaga lembrança de silenciar o aparelho e jogá-lo no fundo da bolsa antes de ir para… onde mesmo?…

Era verdade que Rosinha* se lembrava muito pouco da noite. Sim, isso era verdade. Mas sua maior verdade é que não podia aceitar a chama acesa dentro de seu próprio corpo e aquilo que invejava tanto em Ângela*: o poder de soltar e dominar a própria chama para fazer praticamente tudo o que queria.

Como há de acontecer aos incautos que reprimem sem domar seus ferventes e borbulhantes desejos, o de Rosinha*, escapuliu total, completa e incontrolavelmente das mãos com as quais tanto buscava evitá-lo e mantê-lo quieto.

Se a pia fosse dada a fazer julgamentos como a própria dona, certamente a reprovaria veementemente agora.  Mas, ainda bem que não podia, afinal, Rosinha* já fazia isso tanto por querer quanto sem querer.

Rosinha* tinha aprendido que as coisas não poderiam ser daquela forma súbita e repentina: que seria preciso haver uma conquista, um relacionamento e, para talvez um dia haver algo mais íntimo.

Contudo, tamanha repressão dava as caras nas horas dedicadas a ouvir o quanto Ângela* “aprontava”: sempre queria saber com quem ela havia ficado, quando havia saído, o que tinha acontecido e etc. E ainda estava ali para aconselhar o contrário, assim como fizera ontem.

Era hipocrisia?

A pia, feita de seu indiferente mármore falso, poderia sim fazer uma boa observação, caso fosse dado a esses compostos sedimentares, alguma capacidade de se abster de julgar os humanos, diferentemente de como eles próprios estão tão habituados a fazer. E, livre de julgamento de valores, poderia logo perceber que dentro de uma mesma Rosinha* haviam duas: uma brigando para tentar satisfazer seus desejos mas, reprimida por outra, há anos poderosa e cruel ceifadora.

Mas, diante da primeira vitória da primeira Rosinha*, a segunda faz com que ela se ajoelhe no canto da cozinha e chore envergonhada, já que toda a força repressiva continua ali, tentando satisfazer não a si própria, mas ao que tanto esperavam e esperam dela até hoje.

E é assim, perdida, que Rosinha* se levanta enxugando as lágrimas que não são de uma ou de outra, mas todas dela mesma, mulher composta que sofre sem conseguir ser quem é, seja na repressão, seja na realização do desejo. Ela vira um remédio na boca e bebe a água da torneira mesmo. Estava feito e não tinha muito o que fazer agora a não ser engolir uma tal pílula, tomar um banho gelado e, bem… tentar entender ou esquecer a noite de lua cheia sob a qual havia se transformado.

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Revisado em 21 de fevereiro de 2020.

Ansiedade

A ansiedade não é um traço de personalidade e sim, um sintoma. Sintoma, por sua vez, diz respeito a algo que uma pessoa sente em relação a algo que acontece seja subjetivamente, organicamente ou, funcionalmente.

Noutras palavras, a ansiedade é um sintoma de que algo está acontecendo com a pessoa, mas que nem sempre ela sabe bem o que é.

Ansiedade pode estar relacionada a questões pontuais e bastante claras, como:

  • vésperas de uma cirurgia;
  • vésperas de provas (final de ano, vestibular, CNH e outras);
  • um encontro importante.

Nesses casos você deve imaginar que a ansiedade não é um problema e, de fato, não é. Contudo, a coisa deve ser encarada com mais cautela (e até como doença) na medida em que os sintomas se agravam, seja em intensidade, duração e reincidência, que por sua vez podem estar associados a outros sintomas como:

  • dificuldade para respirar;
  • batedeira no peito;
  • euforia (vontade de sair correndo desesperadamente, se mexer muito, ter que sair do lugar onde está de qualquer maneira ou de se agitar muito mesmo);
  • medo de morte iminente;
  • preocupação excessiva e muito antecipada a coisas que podem acontecer (preocupação excessiva com algum evento distante semanas à frente, por exemplo);
  • insônia (pode incluir sono ruim com pesadelos);
  • dificuldade de concentração;
  • mal estar inespecífico.

A ansiedade vai ter suas causas e sintomas específicos para cada pessoa. Como consequência, o tratamento também deverá ser específico, à começar do diagnóstico. Essa fase diagnóstica implica no profissional ouvir mais sobre a história do paciente com o objetivo de:

  • estabelecer um vínculo com o paciente;
  • conhecer mais sobre essa ansiedade relatada e como o paciente lida com ela;
  • saber sobre e como essa pessoa lida com a própria vida.
  • estabelecer um diagnóstico sobre o que causa essa ansiedade, bem como um prognóstico;
  • pensar em formas de tratamento possível e discuti-las com o paciente, inclusive podendo haver a necessidade de um diagnóstico diferencial de alguma outra patologia, em alguns casos.

Como digo e reforço, a ansiedade não é traço de personalidade, tem tratamento e cura. Você não precisa conviver com isso pela vida toda e nem com as perdas implicadas, entretanto, é a você que sofre que cabe buscar ajuda. Nem todos os casos de ansiedade são para tomar remédio e o objetivo é que a pessoa que precise, melhore e possa deixar essas medicações gradativamente.

Quanto mais demorada é a procura por tratamento de ansiedade, maior o risco de agravamento, podendo ela evoluir para estados depressivos, colaborar para acentuar ainda mais manias, fobias e também para a síndrome do pânico.

Ou seja:

  • – quanto maior a demora em procurar tratamento para saúde mental, maiores as chances de um problema se associar à ansiedade e vice-versa;
  • – quanto maior a demora em tratar a ansiedade, maior a chance desse tratamento também requerer um suporte psiquiátrico.

Ansiedade e medicação

Como disse, nem todo tratamento de ansiedade implica em medicamentos, ou seja, nem sempre é necessário um acompanhamento psiquiátrico.

O uso de remédios tem por finalidade única e exclusiva amenizar, diminuir os sintomas ao ponto em que consiga minimamente retomar algumas atividade cotidianas. Não é interessante o “desaparecimento completo” dos sintomas, pois isso dificulta o tratamento de tal forma, que a pessoa corre o risco de desenvolver algum outro tipo de sintoma.

Isto é:

Se a pessoa deixar de sentir completamente o que sentia em relação a uma determinada situação, ficará muitíssimo difícil ouvir e trabalhar o que até então estava acontecendo. Isso significa que a pessoa passará por cima de um ponto conflitante ainda mais vezes, o que poderá fazer com o que era um sintoma em um lugar, passe a se manifestar noutro, o que inclui a possibilidade de desenvolver doenças físicas de vários tipos.

Ansiedade requer uma escuta adequada para ser devidamente tratada e isso só pode ser feito através de psicanálise ou de psicoterapias. Só tomar remédios não vai resolver e, lidar com ela como se fosse um traço de personalidade só vai trazer um acúmulo maior de prejuízos.

Aliás, tratar ansiedade como traço de personalidade pode ser se conformar com algo que não é normal e que tem tratamento, um tratamento que implica em você falar, pensar e repensar sua vida em profundidade junto a um profissional habilitado.

Você é ou acha que é ansioso? Venha conversar!!

Conhece alguém que seja? Então indique o meu contato ou compartilhe essa página! As indicações e recomendações são as formas mais eficazes de ajudar essas pessoas!

Síndrome do pânico

A síndrome do pânico, conforme o CID10, é descrita exatamente como se segue:

F41.0 Transtorno de pânico (ansiedade paroxística episódica)
A característica essencial deste transtorno são os ataques recorrentes de uma ansiedade grave (ataques de pânico), que não ocorrem exclusivamente numa situação ou em circunstâncias determinadas mas de fato são imprevisíveis. Como em outros transtornos ansiosos, os sintomas essenciais comportam a ocorrência brutal de palpitação e dores torácicas, sensações de asfixia, tonturas e sentimentos de irrealidade (despersonalização ou desrrealização). Existe, além disso, freqüentemente um medo secundário de morrer, de perder o autocontrole ou de ficar louco. Não se deve fazer um diagnóstico principal de transtorno de pânico quando o sujeito apresenta um transtorno depressivo no momento da ocorrência de um ataque de pânico, uma vez que os ataques de pânico são provavelmente secundários à depressão neste caso.

Ataque de pânico
Estado de pânico
Síndrome de pânico
Exclui: transtorno de pânico com agorafobia (F40.0)

Fonte: Data SUS <http://www.datasus.gov.br/cid10/V2008/WebHelp/f40_f48.htm> Acesso em 24/11/2019.

Mas diferente do que é descrito aí, as situações ou circunstâncias ditas imprevisíveis, não funcionam exatamente assim na prática clínica. A verdade é que o paciente passa a vida incomodado por uma determinada situação (ou várias), sem se dar conta desse incômodo. Por exemplo, pode acontecer que um sujeito supostamente “calmo” nunca tenha percebido que a razão de ter ataques de pânico antes de ir no trabalho, era para evitar uma briga física com um colega desagradável, pois para ele só a ideia de perder a “calma” é insuportável, então, imagine como alguém assim fica quando lá no fundo tem vontade de “socar alguém”?

A intensidade dos sintomas da síndrome do pânico é demasiadamente sofrível, podendo ou não estar associada ao isolamento devido ao receio de novas crises. Esse isolamento costuma ser progressivo, seja por evitar pessoas, lugares, caminhos, até chegar ao não querer sair de casa. Neste caso, ele está associado ao mencionado no CID 10 sobre agorafobia, que por sua vez é um transtorno no qual a pessoa pode evitar desde pessoas a lugares, à partir de suas questões obsessivas ou depressivas, à vezes chegando a experimentar pouca ansiedade (mas porquê são bem sucedidos em evitar situações fóbicas).

Seja por um caminho, por outro ou, talvez outros que nem mencionei, a síndrome do pânico é uma doença que costuma chegar ao consultório à partir de recomendação psiquiátrica. Geralmente são pacientes que tratam das crises há algum tempo mas, que não conseguem se ver inteiramente livres dos sintomas e muito menos, dos remédios.

É fato: não há cura para síndrome do pânico se não através de psicoterapias ou de psicanálise, salvo em raros casos onde a pessoa se engaja em grandes mudanças na vida. Os medicamentos ajudam sim, mas só servem para amenizar os sintomas e para tentar evitar que novas crises surjam.

O tratamento para a síndrome do pânico requer psicoterapia ou psicanálise, costuma contar com um suporte medicamentoso cuja reavaliação ficará à encargo do psiquiatra, tendo em vista efeitos colaterais tanto no aumento, quanto redução, alteração e interação entre psicotrópicos.

A redução e o desaparecimento das crises leva alguns meses, variando de caso para caso. Entretanto, cabe ressaltar que não necessariamente o encerramento dos sintomas mais graves levará à cura. Aliás, como disse, é raro que isso aconteça dessa forma. Costuma ser através de psicanálise ou de psicoterapia que a pessoa vai rever a própria vida e tomar atitudes frente a ela para aí sim, se encaminhar para a cura daquilo que a levou à síndrome.

Vamos dizer que a síndrome do pânico é uma peça a ser trabalhada para ser removida de uma fileira de dominó, onde você trabalha uma por uma.

Deixar uma doença como a síndrome do pânico como está é deixar a vida se arrastando e acumular todo tipo de perdas.

Você têm síndrome do pânico? Têm ataques? Fobias? Conhece alguém que tenha? Entre em contato comigo ou me indique para essa pessoa!