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Como é o atendimento on-line? 6 lições importantes

Faz parte da prática profissional pensar e repensá-la sempre. Não basta o que se apreende da faculdade, mas é preciso buscar aprender e apreender mais e mais, seja na forma de novos conhecimentos, seja repensando os passos dados.

E essa necessidade veio à tona com o advento do covid-19…

Como tantas outras pessoas, reavaliei minha prática profissional e… o atendimento on-line… novamente. Trabalhando também dentro de um hospital, vendo as informações sobre a doença e desdobramentos, não esperava um cenário de quarentena de curta duração.

Pois bem… Então logo que portas passaram a se fechar, avaliei que meu trabalho no hospital colocaria em risco quem eu atendia presencialmente, então suspendi o trabalho no consultório e montei uma “estação de trabalho”: peguei meu fone de ouvido, o celular, suporte, ajeitei tudo e abri o Whatsapp. Pronto. Agora iria atender on-line por tempo indefinido.

Fiquei com receio no princípio, mas tanto aquela primeira sessão, como as demais que vieram depois, fluíram tão bem quanto às presenciais. Mas isso com certas ressalvas, que são cuidados com os quais aprendi a lidar:


1. Atendimento por mensagens? Pode ser só por escrito? Qual o resultado? Funciona igual ao áudio ou vídeo?

Explorei um pouco esse formato e pude observar que se trata de um modo de atendimento muito problemático:

  • é muito demorado;
  • há pouca exploração do conteúdo;
  • não é nada dinâmico;
  • dá margem para a pessoa escrever e apagar;
  • as frases do emissor e receptor podem se desencontrar;
  • o vazio de uma pessoa se comunicando é preenchido conforme as fantasias do paciente, o que torna extremamente problemático o estabelecimento da transferência.

Então, por conta desses problemas, não atendo por escrito.


2. O primeiro atendimento precisa ser por vídeo?

Tenho a considerado que a chamada de vídeo ou, videochamada, é a forma mais perto de uma sessão presencial. Da mesma forma que num consultório, o começo é de um profissional para seu paciente. Então, há uma importância em manter a coisa face-à-face, até para que os dois tenham consigo uma referência de quem é aquele com quem vos fala. É mais ou menos como dizer que é preciso existir pessoas entre a relação terapêutica (transferencial) que estão ali.

Há a possibilidade sim de um paciente migrar para sessões por áudio, mas isso vai variar de caso para caso, mais ou menos como é feito com a passagem da poltrona para o divã.


3. Como fica a cobrança por esse tipo de sessão?

À exceção do recebimento do pagamento em dinheiro, eu trato cada caso individualmente, conversando nas sessões à esse respeito. Tem quem pague por sessão, tem quem pague mensalmente.

Valor é assunto para ser conversado na sessão. Conversar fora é tratar isso como algo à parte e, convenhamos… uma sessão de psicanálise é para se falar, então, falar de dinheiro também conta.


4. Sai mais barata a sessão on-line?

Não. E nem pode ser algo mais barato, pois é importante que seja firmado um compromisso do paciente com o tratamento de suas questões. Os custos de um atendimento on-line continuam implicados tal qual o de um atendimento presencial, à exceção da locação de sala. Isso não exclui o investimento em equipamentos e até em adequar o ambiente para a prática profissional.


5. Cuidados ético-profissionais

É importante ter uma boa qualidade de conexão de internet, já que é imprescindível uma boa escuta de cada caso. Nesse sentido é que o atendimento on-line é mais complicado, pois os “cortes” numa conversa aqui dificultam tanto compreensão quanto intervenção. Em suma:

  • é importante localizar um ambiente com menos ruídos. Os ruídos podem incomodar tanto ao analista quanto ao analisando e causar quebras na sessão (a resistência vai adorar uma desculpa para deixar aquele assunto importante de lado);
  • encontrar uma localização fixa para manter a qualidade do sinal;
  • o ambiente precisa garantir privacidade, pois uma conversa com um psicanalista está mais perto de uma conversa consigo mesmo que um bate-papo com outra pessoa;
  • os dispositivos usados precisam ter seus dados assegurados através da pratica de hábitos seguros de navegação na internet e, quando for o caso, incluindo uso de anti-vírus.

6. Atendimento on-line não é cômodo e nem está lá para ser.

Uma análise está lá para trazer à tona o que incomoda e que lhe alfineta. Analista algum está no consultório para passar a mão na cabeça ou para passar pano em neurose. O compromisso de tratamento numa análise é para ser encarado com seriedade, não importa se for numa sessão presencial ou numa sessão mediada por meios eletrônicos.

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Isolamento: ele mexe com a cabeça das pessoas?

Como muitas coisas, o isolamento pode ser um estopim para mexer com a cabeça das pessoas.

Em se tratando de isolamentos hospitalares é possível observar aumento de ansiedade e dúvidas diversas, como preocupação com a saúde, prognóstico, sensação de vazio, de exclusão, uma dolorosa solidão, dolorosa saudade dos outros diante da falta de perspectivas claras quanto ao futuro (seja para ver os outros, seja para retornar à vida e à liberdade habitual).

Enquanto uma maioria consegue encarar um isolamento como uma forma alternativa de tratamento, boa parte se tranquiliza quando percebe que a problemática maior implica em não permitir que o que ela (a pessoa doente ou suspeita) tem passe para outras pessoas. Inclusive, como gesto de consideração aos outros, passam a aceitar essa condição e a encarar os desafios envolvidos como uma fase.

Também há aqueles que encaram como uma espécie de sentença de morte, mas geralmente isso se dissipa na medida em que recebem informações adequadas e vão conseguindo absorvê-la. Como costumo dizer, nem sempre as pessoas estão prontas para receber informação, então pode ser necessário repetir, reorientar, explicar a mesma coisa várias vezes, até mesmo, de maneiras diferentes.

Mas…

…também têm aqueles que ficam bravos e até furiosos.

Esses dificultam o tratamento, mas costumam reagir melhor na medida em que recebem os devidos esclarecimentos. Em um hospital é mais fácil a pessoa compreender e cooperar com um isolamento, já que estar lá pressupõe uma avaliação de uma equipe para validá-lo. Fora dali é mais complicado.

No cenário atual é esperado que uma série de questões afetivas venham a eclodir. Há quem pense que é culpa do isolamento, mas isso requer um olhar mais cuidadoso para fazer um diagnóstico correto. O isolamento implica em privação de liberdade, cujo significado muda de uma pessoa para outra. Também envolve a questão do “sentir-se bem” confrontada ao que envolvem as patologias fisiológicas, afinal, para espalhar uma doença não é preciso ter sintomas, basta ter sido contaminado.

Dentro desse cenário de sentir-se bem, de estar privado de liberdade, que ainda envolve questões de sobrevivência (ter um trabalho e receber uma renda), fica mais difícil de manter a mente no lugar sim. E, neste caso, sempre se aplica, buscar formas de ocupar a mente e o corpo, sendo importante em certos casos até um desabafo.

O que não se pode é, diante do risco biológico, pura e simplesmente abrir mão do isolamento social ou da quarentena, seja como queira chamar. Afinal, é algo novo e que está sendo investigado em todos os sentidos (sinais, sintomas, transmissão, prognóstico e tratamento) e isso requer tempo de pesquisa.

Assim como acontece com pacientes isolados no hospital à espera de resultados de novas culturas, essa é hora de esperar no isolamento, ainda que isso paralise vidas de várias formas.

Está bravo? Com medo? Ansioso? Perdido? Procure alguém para conversar.

Se está sentindo o coração bater mais que o normal, dificuldade para respirar, sensação de que o coração vai sair pela boca, pense um pouco e considere a possibilidade de buscar ajuda profissional.

Busque quebrar o isolamento dentro de suas possibilidades. Há recursos para ligações ou videochamadas, videoconferências. Use o que estiver ao seu alcance.

Até!!!

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O quanto preciso saber sobre o corona vírus?

Sejamos breves: se a essa altura da história você entendeu o que é o COVID-19, em se tratando de:

  • sinais e sintomas;
  • transmissão;
  • prevenção.

Então… pronto, você não precisa entender mais nada. Se for profissional da saúde já terá uma ideia aprofundada de cada tópico e com certeza sabe de cor e salteado como proceder.

Incorrer em mais que isso pode ser fomentar neuroses e esse tipo de coisa, inclusive no consultório, às vezes requer um corte, um encerramento deste processo.

Isso se faz necessário para evitar uma paralisia (esquecer da vida em troca de alguma repetição) ou ansiedade (se colocar em expectativas excessivas, por exemplo).

Não vou traçar aqui um manual de sobrevivência no isolamento, mas estarei disponível para conversar pelo Whatsapp nos meus horários vagos. Essa é hora de deslocar energia para outras coisas, mas pode ser hora de rever e de repensar alguma coisa na vida, o que sozinho pode ser angustiante.

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Fúria e folia (um conto de Carnaval ou de lua cheia, quem sabe…)

“Eu não acredito que você fez uma coisa dessas, amiga!!!!” Foi com essa frase colada à mente que Ângela* ficou muda. Diante dela, mas dando as costas enquanto passava a esponja cheia de espuma num prato, Rosinha*, horrorizada.

Pensativa àquela altura da conversa, Ângela* começava a acreditar que tinha mesmo feito besteira. Ou talvez não?… Por fim, e na dúvida, resolveu manter o silêncio, concordar (não que concordasse com tudo) e foi embora, meio sem graça.

Gota à gota, a pia, se pudesse ver alguma coisa ou mesmo se alguma parte do aglomerado de compostos sedimentares que era, pudesse falar ou lembrar de algo com base na experiência que talvez tivesse se pudesse acumular memórias… saberia que Ângela* só tinha aproveitado a noite para ir um pouco além do que normalmente fazia: era moça, queria pura e simplesmente curtir a noite para ficar com vários outros jovens, coisa que já acontecia desde o começo da adolescência mas…

– Nossa, que galinha! – protestou, esbravejando solitariamente a dona da pia.

Com as palavras da amiga e a cena relatada muito viva flechando a consciência repetidamente, Rosinha* não podia admitir que a amiga tinha passado a noite com um desconhecido num motel. Achava isso um verdadeiro absurdo. Não obstante, se a pia pudesse observar as duas um pouco melhor, já que se tivesse olhos eles certamente estariam limpos de tanto sua dona passar-lhe pano… bem… o mármore falso teria visto uma moça muito satisfeita pelo feito (Ângela* sabia o nome do moço, claro) e outra horrorizada num mesmo instante.

– Loucura… fui fazer uma loucura, a-mi-ga-a!! Que loucura o quê?!?

Repetindo a fala da outra desdenhosamente, não havia bastado para Rosinha*, ficar brava e falar um montão de coisas. Ao terminar de arrumar a cozinha, ela ainda reclamou sozinha, xingou novamente e falou mais uma vez com espanto. Ângela* não era inocente mas, parecia que tinha exagerado, não é?

– É claro sim, claro que foi um exagero!!!

No meio daquela conversa coube a Ângela* se justificar e explicar, surpreendida por tamanha reação negativa da amiga. E convenhamos, ela tinha tomado todos os cuidados (e talvez até mais que muita gente): não foi no motel no mesmo carro e ela própria já levava preservativos na bolsa. Aliás, o moço também levava, o que deixava ainda mais óbvia a razão do encontro dos dois. E se a baladeira (que por sinal ainda trabalhava e estudava muito) não sabia se ele era mesmo solteiro ou não, ué… ele não era alguém com quem queria ficar além dessa noite de ontem. E que tinha sido maravilhosa…

– Nossa, que puta!!!… Que tinha que me mandar mensagem dizendo onde estava? Vai te catar!

A lâmpada se apaga e a pia fica entregue à luz da lua assim que Rosinha* sai. Pela porta, caindo na paredes, apenas a sombra da moça passando de um lado pro outro, se arrumando. Mas, ao contrário de outras vezes, ela não voltou nem um pouco cedo… aliás, estava tão irritada que “precisou” tomar um pouco de vinho antes de sair para ver se estaria melhor quando fosse sair com Ângela*.

E, com as horas… aquela noite se passou em silêncio. Aquele silêncio onde nada se escuta e nem se vê nada, de uma casa cujas vidas saíram por aí para retornar somente no dia seguinte…

– Nossa… – foi o que Rosinha* resmungou pondo as mãos na pia para se apoiar; estava um verdadeiro caco quando reapareceu.

Se pudesse, já que não tinha olhos, o mármore de mentira os teria apertado desconfiado, daquele jeito como quem pergunta: “e aí, o que aconteceu?”… Mas era só um granito e não poderia nunca acolher sua dona assustada.

Maquiagem toda borrada, a roupa torta, uma bolsa atravessada no meio do corpo e uma dor de cabeça horrível… Não, Rosinha* não estava conseguindo pensar direito e por fim largou os sapatinhos que carregava na mão, ali no chão da cozinha mesmo. Não era o que costumava fazer mas o fez e se sentou na cadeira ali mesmo, toda largada, alisando os lábios pensativamente.

Àquela altura, mal conseguia se lembrar da noite. Se a pia lhe perguntasse sobre o que havia bebido, ela não saberia nem dizer do copo de vinho antes de sair de casa. Descabelada, ela tenta ajeitar um pouco os fios, acenando negativamente com a cabeça, sem acreditar que há pouco acordara com um moço estranho bem do seu lado, num motel e atirado nele tudo o que tinha visto pela frente, antes de sair dali num Uber bufando raivosa.

E agora, olhando para o celular, que as delicadas mãos de esmaltes vermelhos afastam, Rosinha* se pergunta sobre o que dizer para a amiga. Mensagens perguntando sobre seu paradeiro e um monte de ligações. Havia uma vaga lembrança de silenciar o aparelho e jogá-lo no fundo da bolsa antes de ir para… onde mesmo?…

Era verdade que Rosinha* se lembrava muito pouco da noite. Sim, isso era verdade. Mas sua maior verdade é que não podia aceitar a chama acesa dentro de seu próprio corpo e aquilo que invejava tanto em Ângela*: o poder de soltar e dominar a própria chama para fazer praticamente tudo o que queria.

Como há de acontecer aos incautos que reprimem sem domar seus ferventes e borbulhantes desejos, o de Rosinha*, escapuliu total, completa e incontrolavelmente das mãos com as quais tanto buscava evitá-lo e mantê-lo quieto.

Se a pia fosse dada a fazer julgamentos como a própria dona, certamente a reprovaria veementemente agora.  Mas, ainda bem que não podia, afinal, Rosinha* já fazia isso tanto por querer quanto sem querer.

Rosinha* tinha aprendido que as coisas não poderiam ser daquela forma súbita e repentina: que seria preciso haver uma conquista, um relacionamento e, para talvez um dia haver algo mais íntimo.

Contudo, tamanha repressão dava as caras nas horas dedicadas a ouvir o quanto Ângela* “aprontava”: sempre queria saber com quem ela havia ficado, quando havia saído, o que tinha acontecido e etc. E ainda estava ali para aconselhar o contrário, assim como fizera ontem.

Era hipocrisia?

A pia, feita de seu indiferente mármore falso, poderia sim fazer uma boa observação, caso fosse dado a esses compostos sedimentares, alguma capacidade de se abster de julgar os humanos, diferentemente de como eles próprios estão tão habituados a fazer. E, livre de julgamento de valores, poderia logo perceber que dentro de uma mesma Rosinha* haviam duas: uma brigando para tentar satisfazer seus desejos mas, reprimida por outra, há anos poderosa e cruel ceifadora.

Mas, diante da primeira vitória da primeira Rosinha*, a segunda faz com que ela se ajoelhe no canto da cozinha e chore envergonhada, já que toda a força repressiva continua ali, tentando satisfazer não a si própria, mas ao que tanto esperavam e esperam dela até hoje.

E é assim, perdida, que Rosinha* se levanta enxugando as lágrimas que não são de uma ou de outra, mas todas dela mesma, mulher composta que sofre sem conseguir ser quem é, seja na repressão, seja na realização do desejo. Ela vira um remédio na boca e bebe a água da torneira mesmo. Estava feito e não tinha muito o que fazer agora a não ser engolir uma tal pílula, tomar um banho gelado e, bem… tentar entender ou esquecer a noite de lua cheia sob a qual havia se transformado.

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Revisado em 21 de fevereiro de 2020.

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Ansiedade

A ansiedade não é um traço de personalidade e sim, um sintoma. Sintoma, por sua vez, diz respeito a algo que uma pessoa sente em relação a algo que acontece seja subjetivamente, organicamente ou, funcionalmente.

Noutras palavras, a ansiedade é um sintoma de que algo está acontecendo com a pessoa, mas que nem sempre ela sabe bem o que é.

Ansiedade pode estar relacionada a questões pontuais e bastante claras, como:

  • vésperas de uma cirurgia;
  • vésperas de provas (final de ano, vestibular, CNH e outras);
  • um encontro importante.

Nesses casos você deve imaginar que a ansiedade não é um problema e, de fato, não é. Contudo, a coisa deve ser encarada com mais cautela (e até como doença) na medida em que os sintomas se agravam, seja em intensidade, duração e reincidência, que por sua vez podem estar associados a outros sintomas como:

  • dificuldade para respirar;
  • batedeira no peito;
  • euforia (vontade de sair correndo desesperadamente, se mexer muito, ter que sair do lugar onde está de qualquer maneira ou de se agitar muito mesmo);
  • medo de morte iminente;
  • preocupação excessiva e muito antecipada a coisas que podem acontecer (preocupação excessiva com algum evento distante semanas à frente, por exemplo);
  • insônia (pode incluir sono ruim com pesadelos);
  • dificuldade de concentração;
  • mal estar inespecífico.

A ansiedade vai ter suas causas e sintomas específicos para cada pessoa. Como consequência, o tratamento também deverá ser específico, à começar do diagnóstico. Essa fase diagnóstica implica no profissional ouvir mais sobre a história do paciente com o objetivo de:

  • estabelecer um vínculo com o paciente;
  • conhecer mais sobre essa ansiedade relatada e como o paciente lida com ela;
  • saber sobre e como essa pessoa lida com a própria vida.
  • estabelecer um diagnóstico sobre o que causa essa ansiedade, bem como um prognóstico;
  • pensar em formas de tratamento possível e discuti-las com o paciente, inclusive podendo haver a necessidade de um diagnóstico diferencial de alguma outra patologia, em alguns casos.

Como digo e reforço, a ansiedade não é traço de personalidade, tem tratamento e cura. Você não precisa conviver com isso pela vida toda e nem com as perdas implicadas, entretanto, é a você que sofre que cabe buscar ajuda. Nem todos os casos de ansiedade são para tomar remédio e o objetivo é que a pessoa que precise, melhore e possa deixar essas medicações gradativamente.

Quanto mais demorada é a procura por tratamento de ansiedade, maior o risco de agravamento, podendo ela evoluir para estados depressivos, colaborar para acentuar ainda mais manias, fobias e também para a síndrome do pânico.

Ou seja:

  • – quanto maior a demora em procurar tratamento para saúde mental, maiores as chances de um problema se associar à ansiedade e vice-versa;
  • – quanto maior a demora em tratar a ansiedade, maior a chance desse tratamento também requerer um suporte psiquiátrico.

Ansiedade e medicação

Como disse, nem todo tratamento de ansiedade implica em medicamentos, ou seja, nem sempre é necessário um acompanhamento psiquiátrico.

O uso de remédios tem por finalidade única e exclusiva amenizar, diminuir os sintomas ao ponto em que consiga minimamente retomar algumas atividade cotidianas. Não é interessante o “desaparecimento completo” dos sintomas, pois isso dificulta o tratamento de tal forma, que a pessoa corre o risco de desenvolver algum outro tipo de sintoma.

Isto é:

Se a pessoa deixar de sentir completamente o que sentia em relação a uma determinada situação, ficará muitíssimo difícil ouvir e trabalhar o que até então estava acontecendo. Isso significa que a pessoa passará por cima de um ponto conflitante ainda mais vezes, o que poderá fazer com o que era um sintoma em um lugar, passe a se manifestar noutro, o que inclui a possibilidade de desenvolver doenças físicas de vários tipos.

Ansiedade requer uma escuta adequada para ser devidamente tratada e isso só pode ser feito através de psicanálise ou de psicoterapias. Só tomar remédios não vai resolver e, lidar com ela como se fosse um traço de personalidade só vai trazer um acúmulo maior de prejuízos.

Aliás, tratar ansiedade como traço de personalidade pode ser se conformar com algo que não é normal e que tem tratamento, um tratamento que implica em você falar, pensar e repensar sua vida em profundidade junto a um profissional habilitado.

Você é ou acha que é ansioso? Venha conversar!!

Conhece alguém que seja? Então indique o meu contato ou compartilhe essa página! As indicações e recomendações são as formas mais eficazes de ajudar essas pessoas!

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Síndrome do pânico

A síndrome do pânico, conforme o CID10, é descrita exatamente como se segue:

F41.0 Transtorno de pânico (ansiedade paroxística episódica)
A característica essencial deste transtorno são os ataques recorrentes de uma ansiedade grave (ataques de pânico), que não ocorrem exclusivamente numa situação ou em circunstâncias determinadas mas de fato são imprevisíveis. Como em outros transtornos ansiosos, os sintomas essenciais comportam a ocorrência brutal de palpitação e dores torácicas, sensações de asfixia, tonturas e sentimentos de irrealidade (despersonalização ou desrrealização). Existe, além disso, freqüentemente um medo secundário de morrer, de perder o autocontrole ou de ficar louco. Não se deve fazer um diagnóstico principal de transtorno de pânico quando o sujeito apresenta um transtorno depressivo no momento da ocorrência de um ataque de pânico, uma vez que os ataques de pânico são provavelmente secundários à depressão neste caso.

Ataque de pânico
Estado de pânico
Síndrome de pânico
Exclui: transtorno de pânico com agorafobia (F40.0)

Fonte: Data SUS <http://www.datasus.gov.br/cid10/V2008/WebHelp/f40_f48.htm> Acesso em 24/11/2019.

Mas diferente do que é descrito aí, as situações ou circunstâncias ditas imprevisíveis, não funcionam exatamente assim na prática clínica. A verdade é que o paciente passa a vida incomodado por uma determinada situação (ou várias), sem se dar conta desse incômodo. Por exemplo, pode acontecer que um sujeito supostamente “calmo” nunca tenha percebido que a razão de ter ataques de pânico antes de ir no trabalho, era para evitar uma briga física com um colega desagradável, pois para ele só a ideia de perder a “calma” é insuportável, então, imagine como alguém assim fica quando lá no fundo tem vontade de “socar alguém”?

A intensidade dos sintomas da síndrome do pânico é demasiadamente sofrível, podendo ou não estar associada ao isolamento devido ao receio de novas crises. Esse isolamento costuma ser progressivo, seja por evitar pessoas, lugares, caminhos, até chegar ao não querer sair de casa. Neste caso, ele está associado ao mencionado no CID 10 sobre agorafobia, que por sua vez é um transtorno no qual a pessoa pode evitar desde pessoas a lugares, à partir de suas questões obsessivas ou depressivas, à vezes chegando a experimentar pouca ansiedade (mas porquê são bem sucedidos em evitar situações fóbicas).

Seja por um caminho, por outro ou, talvez outros que nem mencionei, a síndrome do pânico é uma doença que costuma chegar ao consultório à partir de recomendação psiquiátrica. Geralmente são pacientes que tratam das crises há algum tempo mas, que não conseguem se ver inteiramente livres dos sintomas e muito menos, dos remédios.

É fato: não há cura para síndrome do pânico se não através de psicoterapias ou de psicanálise, salvo em raros casos onde a pessoa se engaja em grandes mudanças na vida. Os medicamentos ajudam sim, mas só servem para amenizar os sintomas e para tentar evitar que novas crises surjam.

O tratamento para a síndrome do pânico requer psicoterapia ou psicanálise, costuma contar com um suporte medicamentoso cuja reavaliação ficará à encargo do psiquiatra, tendo em vista efeitos colaterais tanto no aumento, quanto redução, alteração e interação entre psicotrópicos.

A redução e o desaparecimento das crises leva alguns meses, variando de caso para caso. Entretanto, cabe ressaltar que não necessariamente o encerramento dos sintomas mais graves levará à cura. Aliás, como disse, é raro que isso aconteça dessa forma. Costuma ser através de psicanálise ou de psicoterapia que a pessoa vai rever a própria vida e tomar atitudes frente a ela para aí sim, se encaminhar para a cura daquilo que a levou à síndrome.

Vamos dizer que a síndrome do pânico é uma peça a ser trabalhada para ser removida de uma fileira de dominó, onde você trabalha uma por uma.

Deixar uma doença como a síndrome do pânico como está é deixar a vida se arrastando e acumular todo tipo de perdas.

Você têm síndrome do pânico? Têm ataques? Fobias? Conhece alguém que tenha? Entre em contato comigo ou me indique para essa pessoa!

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TOC – Transtorno Obsessivo-Compulsivo

O transtorno obsessivo compulsivo é conhecido por algumas características mais “famosas”, como:

  • pensamento fixo em alguma coisa;
  • repetições;
  • manias e rituais;
  • fazer coisas sem saber propriamente por qual razão (repetidamente).

Mas antes de entrar no assunto propriamente dito, vamos ver também o que diz o CID10:

F42 Transtorno obsessivo-compulsivo
Transtorno caracterizado essencialmente por idéias obsessivas ou por comportamentos compulsivos recorrentes. As idéias obsessivas são pensamentos, representações ou impulsos, que se intrometem na consciência do sujeito de modo repetitivo e estereotipado. Em regra geral, elas perturbam muito o sujeito, o qual tenta, freqüentemente resistir-lhes, mas sem sucesso. O sujeito reconhece, entretanto, que se trata de seus próprios pensamentos, mas estranhos à sua vontade e em geral desprazeirosos. Os comportamentos e os rituais compulsivos são atividades estereotipadas repetitivas. O sujeito não tira prazer direto algum da realização destes atos os quais, por outro lado, não levam à realização de tarefas úteis por si mesmas. O comportamento compulsivo tem por finalidade prevenir algum evento objetivamente improvável, freqüentemente implicando dano ao sujeito ou causado por ele, que ele(a) teme que possa ocorrer. O sujeito reconhece habitualmente o absurdo e a inutilidade de seu comportamento e faz esforços repetidos para resistir-lhes. O transtorno se acompanha quase sempre de ansiedade. Esta ansiedade se agrava quando o sujeito tenta resistir à sua atividade compulsiva.
Inclui:
neurose:
– anancástica
– obsessivo-compulsiva

Fonte: Data SUS <http://www.datasus.gov.br/cid10/V2008/WebHelp/f40_f48.htm> Acesso em 24/11/2019.

O que por sua vez exclui a personalidade ancástica, que é essa descrita aqui:

F60.5 Personalidade anancástica
Transtorno da personalidade caracterizado por um sentimento de dúvida, perfeccionismo, escrupulosidade, verificações, e preocupação com pormenores, obstinação, prudência e rigidez excessivas. O transtorno pode se acompanhar de pensamentos ou de impulsos repetitivos e intrusivos não atingindo a gravidade de um transtorno obsessivo-compulsivo.
Personalidade (transtorno da):
– compulsiva
– obsessiva
– obsessiva-compulsiva

Exclui:
transtorno obsessivo-compulsivo (F42.-)

Fonte: Data SUS <http://www.datasus.gov.br/cid10/V2008/WebHelp/f60_f69.htm#F60> Acesso em 24/11/2019.

Como é mencionado aí em cima, há ideias e comportamentos recorrentes ou, também pode haver os dois juntos. Essas manias, repetições e compulsões em fazer coisas sem saber direito porquê, têm um significado que vai variar de uma pessoa para pessoa.

A coisa é mais complexa do que costuma parecer. Como o significado de cada ação é único para cada pessoa, a investigação (psicodiagnóstico) ou psicanálise de cada caso, seguirá uma direção em particular. É necessário conversar sobre muitas coisas, inclusive, pode ser necessário voltar ao mesmo assunto mais de uma vez para explorá-lo mais e mais à fundo.

O agravamento de um transtorno obsessivo (ou neurose obsessiva) pode implicar em timidez excessiva, isolamento, ansiedade em graus insuportáveis e, muitas vezes, comportamentos que podem “enlouquecer” quem está ali por perto.

Nos dias atuais, como há muitos grupos sociais, é natural que muitos obsessivos se juntem e terminem por fomentar ainda mais as próprias neuroses como se fossem coisas naturais e normais. À partir disso, a coisa pode piorar na medida em que fazem os outros (que estão fora de seu grupo) acreditarem que eles são mesmo normais (afinal, estão juntos aos montes).

Ou seja:

À partir desse exemplo você pode observar que neuróticos obsessivos podem ser extremamente convincentes com relação aos seus infindáveis argumentos em relação a determinado assunto. Da mesma forma, podem não se cansar de argumentar ou, ainda, se enrolar extraordinariamente em uma situação bastante simples sob os mais infindáveis pretextos.

Isso acontece pois é importante para eles a “conservação” da própria doença. Isso não significa que eles simplesmente queiram ser do jeito que são, mas o fato é que não é fácil lidar com a mudança e nem romper com aquilo que incomoda.

Conservar a “neurose” têm um custo alto: trata-se de viver uma vida cheia de preocupações (não raras vezes insanas) e com várias (se não uma infinidade) de privações, que vão desde a de poder viver tranquilamente, as de se aproximar e se relacionar mais à fundo com as pessoas.

O tratamento tende a ser longo, mas depende muito da disponibilidade em encarar a si mesmo e a encarar todos os desafios para mudar. Não se trata de resumir a coisa toda ao aprender coisas novas e sim, em mudar como lidar com a própria vida. A associação medicamentosa pode existir, mas serve mais para o tratamento de sintomas secundários, como ansiedade e depressão.

Você se identifica com esse transtorno ou com essa personalidade? Sente que manias, repetições e outras coisas o incomodam? Então entre em contato e venha conversar comigo!

Conhece alguém que pode estar nessa condição, cheio de manias, repetindo coisas sem parar, se enrolando com toda vida? Faça uma indicação ou recomendação!! Pessoas conhecidas e suas recomendações podem levar tempo para fazer efeito, mas são sempre importantes!!

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Depressão

A depressão se transformou em algo muito falado hoje em dia, entretanto, seu significado só está começando a ser difundido por aí. Como outras doenças mentais, não é um assunto simples.

Compreender e tratar a depressão leva algum tempo. Como o assunto é complexo, para muitas pessoas é melhor encerrar o assunto com alguma fala do tipo:

“antes não tinha dessas coisas”

“isso aí é frescura”

“isso é falta de ocupar a cabeça”

Há tantos exemplos que chega a ser desnecessário mencionar mais, não é? Mas, vamos por partes.

A via pela qual muitas pessoas ficam conhecendo a depressão é a psiquiátrica. Como falar de doenças costuma remeter aos médicos, convém citar o CID 10, antes de nos aprofundarmos no assunto da maneira que ele merece:

F32 Episódios depressivos
Nos episódios típicos de cada um dos três graus de depressão: leve, moderado ou grave, o paciente apresenta um rebaixamento do humor, redução da energia e diminuição da atividade. Existe alteração da capacidade de experimentar o prazer, perda de interesse, diminuição da capacidade de concentração, associadas em geral à fadiga importante, mesmo após um esforço mínimo. Observam-se em geral problemas do sono e diminuição do apetite. Existe quase sempre uma diminuição da auto-estima e da autoconfiança e freqüentemente idéias de culpabilidade e ou de indignidade, mesmo nas formas leves. O humor depressivo varia pouco de dia para dia ou segundo as circunstâncias e pode se acompanhar de sintomas ditos “somáticos”, por exemplo perda de interesse ou prazer, despertar matinal precoce, várias horas antes da hora habitual de despertar, agravamento matinal da depressão, lentidão psicomotora importante, agitação, perda de apetite, perda de peso e perda da libido. O número e a gravidade dos sintomas permitem determinar três graus de um episódio depressivo: leve, moderado e grave.
Inclui:
episódios isolados de (um) (uma):
– depressão;
– psicogênica;
– reativa;
– reação depressiva.

Exclui:
quando associados com transtornos de conduta em F91.- (F92.0)
transtornos (de):
– adaptação (F43.2)
– depressivo recorrente (F33.-)

F32.0 Episódio depressivo leve
Geralmente estão presentes ao menos dois ou três dos sintomas citados anteriormente. O paciente usualmente sofre com a presença destes sintomas mas provavelmente será capaz de desempenhar a maior parte das atividades.

F32.1 Episódio depressivo moderado
Geralmente estão presentes quatro ou mais dos sintomas citados anteriormente e o paciente aparentemente tem muita dificuldade para continuar a desempenhar as atividades de rotina.

F32.2 Episódio depressivo grave sem sintomas psicóticos
Episódio depressivo onde vários dos sintomas são marcantes e angustiantes, tipicamente a perda da auto-estima e idéias de desvalia ou culpa. As idéias e os atos suicidas são comuns e observa-se em geral uma série de sintomas “somáticos”.
Depressão:
– agitada 
– maior
– vital

Fonte: Data SUS <http://www.datasus.gov.br/cid10/V2008/WebHelp/f30_f39.htm> Acesso em 24/11/2019 

Pois bem. Há muitos sinais e sintomas para definir o que é uma depressão dentro do CID10, não é? Mas ainda assim, essa compilação de códigos não é de longe o suficiente.

Por exemplo, existe o luto. Ele pode se parecer com a depressão, mas tem algumas diferenças que depois explico um pouco.

O luto é uma espécie de entristecimento causado por alguma perda, podendo ser marcado por desinteresse, angústia, pensamento recorrente no que foi perdido, além de lamentações nesse mesmo sentido. Não está necessariamente ligado a uma perda física, mas se aplica a outras, como a de perder um objeto ou bem querido, término de relacionamento ou quebras de vínculos (como mudança de escola, emprego ou profissão).

Lidar com uma perda implica em um gasto de energia para elaborar, entender, absorver e passar a lidar com a realidade de outra forma, se direcionando para outra coisa. Então, não será do dia para a noite que as pessoas deixarão de ficar enlutadas.

A elaboração do luto pode levar uns dois anos. Entretanto, como noutros casos em saúde mental, a intensidade dos sintomas pode requerer um suporte profissional para observar e escutar melhor o que está se passando, não sendo necessário esperar sozinho que tudo passe por si só. Aliás, o luto só é elaborado quando há um espaço para isso, o que pode acontecer falando à respeito, por exemplo.

Agora voltemos à depressão propriamente dita.

Na psicanálise, Freud a definiu como melancolia para diferenciá-la do luto. Isso aconteceu pois ao ouvir os pacientes, percebeu-se que ainda que alguns sinais e sintomas sejam parecidos, a forma como surgem e como se desenrolam são diferentes estruturalmente.

No caso do luto, a perda é de algo de fora. No caso da depressão (ou melancolia), é como se a pessoa tivesse lamentando a perda de um pedaço dela própria, como se sua personalidade estivesse mutilada e sofrendo por isso; isso tem uma implicação bem importante na auto-estima.

A coisa parece que está se complicando, não?

Sim, é um bocado complexa. A prática clínica mostra que a depressão pode estar associada a questões de formação de personalidade, o que fica bastante complicado de explicar aqui, o que me faria fugir da proposta da página.

Em relação ao diagnóstico e ao tratamento da depressão, eles podem demorar, já que implicam no tocar em lembranças doloridas. Isso requer cuidados, pois o sofrimento do paciente pode agravar os sintomas, mas precisa estar dentro do suportável para ele. Ou seja, não se pode escavar as memórias e sentimentos de alguém de qualquer jeito, pois isso pode acabar fazendo bastante mal.

Em relação a associação medicamentosa, é mais frequente as pessoas irem ao psiquiatra, receberem medicação e perceberem que só com comprimidos elas não voltam a ser como eram. Nessa fase alguns abandonam tratamento ou buscam outro psiquiatra. Entretanto, o ideal é a pessoa ir atrás de psicoterapia ou de psicanálise mantendo o tratamento prévio, tendo em vista que é importantíssimo ser ouvido o que está relacionado ao que trouxe e ao que se liga essa depressão.

Como disse, o CID10 fala dos sinais e sintomas da depressão mas, deixa muita coisa importante de fora que precisa ser avaliada e tratada pelos profissionais de saúde mental.

Você pode chegar ao consultório com um diagnóstico CID10, dizendo qual tipo de depressão que tem, com lista de remédios e carta de encaminhamento nas mãos. Só que essas coisas não falam sobre a sua história de vida e não vão servir por si só, para explicar como é que você adoeceu. O adoecimento é como um ponto que está ligado a outros pontos, mas que também vai formar outros pontos na medida em que ocorrerem recaídas e os altos e baixos da vida.

Difícil, não é?

É difícil sim. E por isso mesmo requer tanto do paciente quanto de seu terapeuta ou analista, empenho e comprometimento. O trabalho no consultório é feito de descobertas, redescobertas, lembranças, relembranças e escritos e reescritos. O ritmo deve ser adequado de caso para caso, pois como disse, é natural que cada pessoa tenha o seu limite para suportar sofrimento na medida em que tenta sair de onde está. Mas o tratamento é importante e pode sim conduzir à cura, o que naturalmente deverá implicar numa disposição do paciente em repensar coisas em sua vida.

E quanto às recaídas?

As recaídas podem se dar, por exemplo, na medida em que o deprimido consegue chamar atenção para a sua condição. Com isso, ele muda o ambiente ao redor, muitas vezes apenas temporariamente. Na medida em que melhora, seus arredores voltam ao que era antes e aí há o risco tanto da recaída, como dela não ter o mesmo efeito nos outros. À partir daí, as formas de tentar “chamar atenção para o sofrimento”, podem piorar.

Querer chamar a atenção não envolve um “querer consciente” na maioria dos casos. Essa é uma razão pela qual tanto pode fazer se após uma crise a pessoa ouve xingamentos ou recebe abraços. Se for questão de receber algo, isso vai satisfazê-la em relação ao inconsciente dela.

Não adianta muita coisa ficar se perguntando o que essa pessoa que está sofrendo quer e tentar oferecer isso. É preciso que ela tenha como dizer o que quer e para alguém que possa ouvi-la de uma forma mais apropriada.

Outra forma de recaída no tratamento da depressão é quando a pessoa tenta fazer algo diferente e isso não dá certo. Ou, quando ela se vê de cara com um acontecimento sofrível (afinal, no meio do tratamento podem acontecer imprevistos ou outros eventos traumáticos, como acidentes e lutos). Por isso é importante tanto o tratamento quanto sua continuidade: para amortecer e para ajudar a lidar com esses outros momentos delicados sem deixar as questões principais de lado.

Associações da depressão com outras doenças

A depressão pode ser uma doença secundária a outras de saúde mental, como em alguns obsessivos, portadores de histeria e em ansiedades má tratadas. Seja como for, a depressão sempre merece uma escuta e um tratamento cuidadosos. O tempo para a cura vai variar muito de caso para caso, não necessariamente requerendo o tratamento psiquiátrico, muito embora a maioria costume vir por esta via.

Mas como disse, a depressão pode ser uma doença secundária. Assim, muito embora ela possa ser curada, isso não quer dizer que o que a trouxe foi. Portanto, o tratamento da depressão pode não ser o fim de um tratamento e, caso essa questão não seja considerada com a devida atenção, pode ser um fator que implique em recaídas ainda mais sérias no futuro.

E quanto ao suicídio, as tentativas de suicídio e o auto-flagelo?

Elas estão associadas a quadros mais graves de depressão, mas não é regra geral que elas sejam formas de tentar chamar a atenção. Aliás, é uma observação um bocado superficial que se popularizou por aí.

Suicídio, tentativas de suicídio e auto-flagelo podem estar associados a:

  • tentativa de lidar com algo insuportável e conflitante: vamos dizer que em alguns casos a pessoa faz mal a si para causar culpa no outro, mas também pode fazer a mesma coisa para evitar causar mal ao outro, seja direta ou indiretamente;
  • se sentir insignificante e tratar a si próprio também com insignificância;
  • punir a si próprio por algum desejo proibitivo, ou por algum fracasso ou mesmo, sucesso.

Seja qual for a razão que fez a pessoa ficar deprimida, para sair da doença será preciso mudar alguma coisa na própria vida, nem que seja começando sozinha ao estender a mão ao telefone para buscar alguém para ouvi-la profissionalmente.

Você suspeita ou tem depressão? Faz tratamento? Está na dúvida sobre o que fazer? Entre em contato, vamos conversar sobre isso!

Conhece alguém que tenha? Faça uma indicação! Muitas queixas em saúde mental são direcionadas através de indicações! Faça a sua, elas podem demorar a fazer efeito, mas sempre são importantes!!

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Quanto tempo demora para ficar curado?

Pois bem. Se uma doença mental é construída ao longo de uma vida, isso significa que a vida dessa pessoa dificilmente levará pouco tempo para mudar. Mudanças bruscas não são impossíveis, mas são raras.

Para a pessoa ser o que é, significa que ela passou a ser como é no decorrer de uma vida até o momento presente. Mudar isso envolve entender como ela chegou até aqui e é preciso que o trabalho no consultório faça um caminho “inverso” ao do tempo.

Como Freud ilustrou bem há muito tempo atrás, o trabalho do psicanalista tem uma similaridade com o de um arqueólogo, requerendo cuidado para juntar vários fragmentos do passado para entender do que se tratam aqueles pedaços.

Por exemplo, se alguém tem dificuldade de falar em público, não há propriedade em falar que ela “deve se soltar”, a não ser que seu objetivo seja “motivá-la”. Um paciente em análise precisa de mais que isso. É preciso explorar do que é feita essa dificuldade.

__ Se o trabalho for apenas para “motivar”, não estará excluído o risco de a pessoa repetir a mesma dificuldade noutros momentos __

Dado o passo rumo à descoberta, caberá ao paciente refletir sobre o que fazer com aquilo que aparecer. E, sabendo quem é e do que suas dificuldades são feitas, deverá refletir sobre que caminho tomar e como construí-lo.

Noutras palavras, não se iluda com promessas ou perspectivas de curas com o estalar de dedos. Não existem palavras mágicas no consultório nem em livro nenhum. As questões de cada pessoa possuem ingredientes diferentes e cada mistura é única. O caminho para entender e trabalhá-las, é pelas psicoterapias, o que inclui a psicanálise.

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Psicoterapia pra quê?!?

Vamos direto ao ponto.

Psicoterapia serve para tratar da:

Há uma porção de definições, pois o significado do que é importante varia de uma pessoa para outra. Psicoterapias podem servir também para o tratamento de:

Esse tipo de tratamento serve para compreender o momento atual e como foi que as coisas chegaram até aqui. Como estamos todos repletos de mecanismos de defesa para evitar o próprio sofrimento, então é muito difícil que alguém consiga parar para refletir e ver onde é que as coisas não estão funcionando bem. Se você já conseguiu ou está conseguindo isso, merece os parabéns. Entretanto, esse não é um passo fácil de lidar e muitas pessoas requerem auxílio para tal.

Cada pessoa tem anos de história, então, ainda que ela possa se parecer com a de outra pessoa, ela é uma só. Ou seja, não é necessário e nem adianta comparar sua vida com a de outra pessoa, pois o tratamento de cada uma será único.

Caso queira conversar mais sobre esse assunto, envie sua mensagem!!!

Se quer saber mais sobre as minhas formas de atendimento, clique nesse outro link.

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Quanto custa a sua saúde mental?

Pode ser uma insônia. Talvez um aumento na pressão arterial ou na glicemia, talvez súbitos e repentinos, talvez abruptos e assustadores! Um outro pode ter uma dermatite. Ou bruxismo? Aquela outra pessoa ali pode se ver presa a um ciclo de acontecimentos que sempre se repete e ela já desconfia que a coisa toda não é bem culpa do “destino” como costumam lhe dizer…

Pois bem. A saúde mental causa um impacto na vida das pessoas sem que possam perceber com clareza; é assim com muita gente. Uma preocupação com contas ou, com um “amor”, já costumam ser razões claras para associá-las com insônia, sendo bastante comum ouvir frases do tipo “essas contas estão me tirando o sono” ou, “esse fulano me tira o sono”…

Então… se é assim com contas e etc., não se surpreenda: há uma série de outras “preocupações” também podem levar à insônia; aliás, não se surpreenda se a resposta aqui for parecida com a do endividado àqueles que lhe mandam “resolver logo as dívidas”, que questiona de qual fonte pode tirar recursos financeiros extras. Saúde mental não se resolve num estalar de dedos.

Uma pessoa que dorme mal, por exemplo, irá perder em desempenho noutras atividades. Aliás, pessoas preocupadas podem se distrair com seus problemas e deixar o trabalho parcial ou totalmente de lado. Inclusive, podem perder de minutos a horas de trabalho tentando lidar com preocupações sem perceber.

Mas, a coisa não para por aí.

Há aqueles que deixam de tomar decisões importantes ou que “tomam decisões erradas” e mergulham em verdadeiros “infernos”. Será que é porque são tolas ou ignorantes? Não. Fazem o que fazem, por não conhecerem verdadeiramente a razão de suas ações.

Errar é humano? E quanto a repetir o erro? Se tem curiosidade à repeito, leia um pouquinho aqui, abre outra página em seu navegador.

E aí podemos ter aqueles que trabalham em coisas que não gostam, que não são felizes em seus relacionamentos ou aqueles que nunca encontraram nada, ninguém ou coisa alguma importante.

É um bocado difícil pensar em o quanto custa um emprego que não era aquele que a pessoa gostaria ou, o quanto custa viver anos em um relacionamento que nem é sombra do que um dia talvez tenha sido desejado.

Ulisses* é um exemplo de pessoa que tem toda uma dificuldade para viver a vida em decorrência de questões afetivas sérias. Ele é um personagem fictício com uma história também fictícia, cujo drama pode estar por aí, na pele de outras pessoas. Se interessou, pode ler nesse link (abre outra página)

Esqueça os nomes complicados, os códigos internacionais e os cifrões. A saúde mental possui um custo por si mesma por se tratar da vida do sujeito, portanto, considerá-la e tentar cercá-la de definições e moedas pode ser como colocar num quintal um leão não domesticado e continuar a alimentá-lo, para não dizer que é mais uma forma de perder tempo e agregar mais perdas à vida.

Tempo, aliás, é bastante diferente da correria à qual estamos sujeitos no dia-à-dia. Para compreender, mudar e seguir noutro rumo, o ritmo é outro, ditado por como cada um consegue ou não se construir e reconstruir. Mas, é um assunto para uma próxima.

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E para que servem os remédios e a psicoterapia? Qual o melhor?

Eventualmente (mas com certa frequência) surgem dúvidas relacionadas a tomar remédios seja para ajudar a dormir, não ficar ansioso, não ter crises de pânico ou, se o melhor é fazer psicoterapia. Há dúvidas até mesmo, se um tratamento é ou não, melhor que o outro.

Os remédios servem para uma série de sintomas e possuem mecanismos que também podem variar. Quando um psiquiatra prescreve, leva em consideração esses aspectos e também, efeitos de combinações entre fármacos (afinal, um mesmo paciente pode precisar de vários psicotrópicos ou, também, tratar outras doenças, como hipertensão ou diabetes). Alguns dos sintomas que podem ser diminuídos com medicações, são a insônia e a ansiedade (incluindo as crises de pânico), o que costuma ajudar a pessoa descansar e recuperar um pouco as energias ou, para retomar sua rotina de uma forma mais suportável; no caso de depressões, os remédios podem servir como certa “injeção de ânimo” para retomar algumas atividades.

Mas melhorar sintomas não quer dizer que as coisas dentro da mente terão se resolvido. O tempo de cada pessoa para lidar e se “resolver” com uma situação varia bastante. Ainda que a pessoa tome remédios, isso não quer dizer que ela se livrou das “dores da alma” (ou psiquê, como queira). Esse tipo de dor, combinada a aspectos fisiológicos (como aumento de tolerância a alguns fármacos), pode reaparecer cedo ou tarde, inclusive, inviabilizando algum remédio ou medida que a pessoa adota para evitar o que a incomoda.

Vamos dizer assim, que aquilo que perturba a cabeça das pessoas, fica ali num modo stand-by, parecido com quando você desliga seu celular. Ainda que esteja desligado, algumas funções do aparelho continuam. Nesse caso, o reaparecimento de sintomas ruins do estado mental é mais ou menos parecido com seu celular ligar sozinho depois de um esbarrão em alguma coisa ou outra, talvez sem que você perceba claramente como e quando foi.

A psicoterapia e o tratamento psiquiátrico caminham paralelamente. Há quem não precise de remédio (e muitas pessoas, diga-se de passagem), mas quando elas precisam, também não podem deixar de lado que as causas do mal-estar precisam ser ouvidas com todo um cuidado. Isso pode aumentar a sensibilidade, trazer à tona coisas supostamente “esquecidas” mas, que na verdade, só estão pedindo para sair do lugar onde estão.

Entre tratamento psicológico e psiquiátrico, não há um melhor. Há indicações para cada caso a serem pensadas e repensadas em cada encontro com os profissionais, com a participação óbvia e necessária do próprio paciente.

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Se errar é humano… e quanto a repetir o erro?

Diz um velho ditado que “errar é humano, errar duas vezes é burrice”. Entretanto, em psicologia e em psicanálise a coisa é vista de outra forma.

Aos olhos do “senso comum” ou do “saber popular”, todas as atitudes das pessoas soam como “conscientes”, como algo “planejado”, “pensado”, “calculado”. Mas a realidade é bem diferente disso.

Sem entrar em grandes detalhes acerca das instâncias ou das estruturas psíquicas, boa parte do que se faz não é propriamente “pensado”, o que acaba levando a uma infinidade de repetições, incluindo “erros”.

A repetição é algo que mantém o sujeito numa determinada situação, muitas vezes, impedindo que ele dê passos importantes na sua vida. Pelas mais diversificadas e complexas razões, alguém pode ficar preso em repetições pela vida inteira, seja se mantendo ou rescindindo em relacionamentos problemáticos (ou abusivos), seja conservando “manias”.

Na medida em que coisas acontecem e acontecem novamente, antes de julgar moralmente a pessoa, é importante questionar o que ela ganha ou perde dentro de determinada situação. O julgamento moral (muitas vezes já pesado para o próprio sujeito) só serve para enclausurá-lo anda mais, principalmente através de raiva e de vergonha, não servindo portanto, de engrenagem para ajudá-lo a buscar uma mudança.

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Considerações sobre o atentado de 11/12 na Igreja em Campinas

Notas breves:
– esse artigo não é um posicionamento sobre desarmamento;
– não se trata de defender o crime;
– não é um artigo favorável aos manicômios ou exclusão.

Quando comecei a escrever esse artigo estive pensando em meus amigos, conhecidos, familiares, na minha profissão, em pacientes e tantas outras coisas. Afinal… algumas das vítimas eram da minha vizinhança onde cresci boa parte da infância e juventude, o que me deixa muito próximo de pessoas que estão sentindo a dor da perda.

Pois bem, assim que abri as primeiras linhas, me deparei com a pergunta “como alguém pode cometer tamanha brutalidade?”, mas, a apaguei por se tratar de um termo que não convém e nem serve para ilustrar a dimensão de tudo o que ocorreu. Quanto a explicar, estou certo que uma parte dessa história jamais terá uma explicação.

A mídia tem levantado bastante informações junto às declarações da investigação do caso, já havendo o bastante para refletir sobre o que levou o sujeito a um atentado, a um crime.

Apenas para deixar bastante claro, não se trata de defender um crime, afinal, se vivemos numa sociedade de direitos, é preciso sim arcar com as penalidades àqueles que a violam. Entretanto, cabe refletir e buscar explicações sobre o que aconteceu e é o que estou propondo aqui.

Eu não sei se há estatísticas sobre o que acontece com as pessoas que não são atendidas pelo SUS, mas quando são pessoas fisicamente doentes que vão a um hospital e elas não são atendidas (ou não atendidas adequadamente), sabemos que elas sofrem com agravos, às vezes culminando em suas mortes. Cabe considerar ainda que alguém doente, menos esclarecido ou mais humilde (ou tudo isso junto), como a maioria do público dependente desse sistema de saúde, não vai fazer outra coisa se não se preocupar com a própria saúde. A pessoa doente tende a ficar com recursos financeiros ainda mais escassos, então não espere “movimentos dos doentes” pipocarem algum dia por aí, essas pessoas querem melhorar para voltar a trabalhar para terem o que comer!

Pois bem. Quando o problema é mental a coisa acaba se desenrolando de uma forma muito peculiar, a começar da realidade dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que é bastante dura. Para quem não sabe do que se trata, eles são dedicados a prestar assistência em saúde mental mais ou menos como as unidades básicas de saúde fazem pelo bem estar físico (isso bem resumidamente, mas para facilitar a compreensão).

Ainda em relação aos CAPS, muitos dos pacientes que começam a fazer acompanhamento, vão ficar lá em acompanhamento contínuo enquanto morarem naquela vizinhança, seja através de consultas, avaliações psicológicas, psiquiátricas, pegando seus remédios ou etc. Isso significa que eles não receberão alta e que não serão abertas vagas a todas as pessoas carentes de atenção em saúde mental.

E o que acontece então?

Sempre há grande chance de agravamento do quadro, salvo quando o sujeito consegue um acompanhamento em clínicas-escola (que só funcionam em período letivo, o que não é bom para casos mais graves) ou paga um tratamento.

Quando não há opção nenhuma, há toda a sorte de desdobramentos possíveis:

  • portadores de depressão podem se matar e se matar junto com alguém;
  • neuróticos graves podem se isolar por conta de seu comportamento e até “consumir” a sanidade mental das pessoas que com ele convivem;
  • agressão: ela pode ser um soco aleatório em alguém na rua, inclusive em policiais, uma facada em algum parente, um atirar de objetos nas pessoas ou balear alguém, como no caso recente. O que significa que qualquer coisa ao alcance de uma pessoa “surtada”, incluindo os próprios punhos e até dentes, pode servir para atacar outra pessoa e até ela mesma.

Eu poderia facilmente ampliar esse leque de complicações possíveis para doenças mentais, mas não é necessário. O ponto mais importante é:

o agravamento de uma doença mental pode não apenas piorar a condição de vida do doente, como ter consequências para as pessoas ao seu redor a curto, médio ou longo prazo.

E isso pode se dar de algumas várias formas, como:

  • uma espécie de naturalização da doença, que é quando as pessoas consideram normal uma “esquisitice” e passam a assumir isso como traço de personalidade do sujeito, tal como algo que jamais mudará. Nessa condição, as pessoas ao redor não conseguem perceber a piora do quadro, sendo surpreendidas por alguma ação “sem sentido aparente”.
  • as ações da pessoa doente começam a afetar as pessoas em volta por conta de inadequação ao contexto, como andar sem roupas, ignorar os carros numa avenida, gastar ou guardar coisas de forma bizarra.

Levantar essas informações também é pouco e não é minha intenção que as pessoas por aí tentem virar psicólogos ou psiquiatras (não são de cinco anos para cima por pouca coisa) mas, cabe questionar não apenas aquilo que é exacerbadamente estranho, como também cabe questionar e cobrar do Estado uma atitude frente a saúde mental enquanto cobramos mais de políticas públicas.

A vida das pessoas que dependem desse tipo de serviço não costuma ser fácil. As clínicas escolas estão sempre abarrotadas de pacientes nos plantões psicológicos e com outros em fila de espera, não por acaso. Há muita gente precisando de assistência ficando de fora e são problemas que, mesmo inciando como individuais, podem ter sérias consequências para muitos outros.

No caso do atentado, arrisco-me a dizer que ali não houve nem surto e talvez nunca tenha havido depressão. As pessoas ficam tristes com perdas de pessoas próximas e isso ocorre também em quem padece de alguma doença mental. Chorar e ficar recluso por causa de uma perda é normal.

O que acontece e que muitas pessoas não sabem, é que uma pessoa que tem alucinações visuais ou auditivas (vê e ouve coisas) se recolhe para evitar ter ainda mais alucinações. Ou seja, isolamento também não é algo a ser considerado como depressão. Aliás, tem muita gente com depressão, esquizofrenia ou transtorno bipolar que está por aí trabalhando e que talvez você nunca perceba, mesmo cruzando e interagindo com algumas delas.

Quanto ao “surtar”, recuso-me veementemente a acreditar que foi algo súbito e repentino. Como as informações sugerem, o sujeito se armou e agiu dentro da sua “normalidade” sem que nada indicasse nada de diferente. E aí sim, arrisco a dizer que nessa condição, ele já estava “surtado” há tempos, mas ninguém conseguiu ver ou tomar atitude em relação a isso à tempo, o que permitiu tal estado muito mais sério.

Em um estado delirante um sujeito surtado pode planejar com base em seus próprios delírios e, para piorar, justificar tudo isso com outra ideia também delirante. Noutras palavras, as suas ações têm sentido para ele apenas e para ninguém mais, já que estão calcadas no próprio pensamento e não na realidade.

Não, identificar sinais e sintomas de doenças mentais não é um trabalho fácil. Conversar com alguém surtado às vezes é impossível sem uma intervenção medicamentosa e até contenção mecânica por algum tempo (que pode ir de horas à dias). Às vezes nem conseguir adesão do paciente é fácil. Mas, se em nossa sociedade olhássemos um pouco mais um para o outro e se parássemos um pouco mais para ouvir sem julgar ou rir daquilo que o outro tem a dizer, inclusive aquilo que vai se mostrar sem sentido algum, nosso presente poderia ser diferente: teríamos uma rede de atenção à saúde mental mais ampla, com maior capacidade de acolhimento e, estou muito certo disso, viveríamos muito melhor.

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Qual tratamento é indicado para mim?

Quando as pessoas vão ao médico elas já tem mais ou menos uma ideia do que fazer e esperar: falam o que têm, são examinadas e recebem tanto um diagnóstico quanto uma prescrição. Assim, é normal que pensem que com algumas palavras o psicólogo ou outro profissional de saúde mental também vá fazer o mesmo.

Mas a coisa é diferente aqui.

A sua dúvida é importante para mim e certamente é também para você. É um ponto de partida possível para que eu possa saber mais acerca de quem você é, como é sua vida, o que já fez e o que pretende fazer.

Isso acontece naturalmente na medida em que você fala e eu vou pontuando suas colocações ou lhe instigando a continuar por um caminho ou outro. É por essa via de diálogo/escuta também se constrói uma indicação adequada de tratamento, que acaba surgindo desse trabalho conjunto, considerando tanto sua condição, quanto suas possibilidades e disposição no momento.

Fazer diferente disso pode ser colocá-lo num tratamento formatado que pode acabar não sendo o mais adequado para você.

 

Tem dúvidas? Entre em contato. Podemos conversar.

Até!

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Tristeza e falta de vontade. Isso é importante?

Quando as pessoas se sentem ou percebem alguém próximo triste ou sem vontade para quase nada ou para coisa nenhuma, já associam isso à depressão. Há reações das mais diversas, umas que falam que é caso de psiquiatra, que tem que procurar psicólogo, que é frescura, que é algo para tirar da cabeça e por aí vai. Mas vamos por partes.

Nem toda tristeza e falta de vontade é causada por depressão. Depressão tem suas particularidades e merece um capítulo à parte que você pode acessar clicando aqui.

Pois bem, a pessoa reagir com tristeza ou ficar sem vontade com frequência é algo a ser observado com todo um cuidado especial, pois podem estar associadas a coisas que aconteceram e que continuam a passar desapercebidamente ao longo de anos, como por exemplo, uma mágoa, um rancor, uma falta.

Em algumas situações que são superadas com relativa tranquilidade em um grupo de pessoas, pode acontecer que para alguém a coisa não ocorra dessa forma. Entretanto, esse “sentir diferente” pode ser colocado de lado, numa tentativa de esquecer (às vezes “bem sucedida”), e fazer parecer que o importante não era nada. Nesses casos, o tempo e uma escuta adequada podem mostrar que sim, que aquilo era mesmo importante: quando isso ocorre, não importa o que outros digam; se foi importante para essa pessoa incomodada, sim, é algo a se considerar como tal.

O fato de você sentir algo em relação ao seu passado de uma forma demasiadamente emotiva e viva tal como quando se tivesse acabado de acontecer, em especial se isso é capaz de lhe emocionar novamente, há grande chance disso ainda mexer com você. Quando é assim, é válido considerar procurar um psicólogo para refletir um pouco sobre sua vida e ver se não é o caso de se engajar em um tratamento.

Tratar uma questão afetiva pode não ser nenhum bicho de sete cabeças, mas quando não tratadas e perdurando ao longo de muitos anos, ela pode ser a razão de uma série de tropeços, evitações, mal-estares ou até síndrome do pânico ou doenças no corpo.

Considere o que sente, valioso. É seu e fala sobre você. Leve isso para um profissional que possa lhe ajudar a olhar para tal.

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Ansiedade – Isso é traço de personalidade?

Ansiedade não é um traço de personalidade. O que costuma acontecer é a existência de mecanismos que acabam validando esse sintoma como tal. Muitas vezes a pessoa convive há tanto tempo com ela que de certa forma “se acostuma”, sendo mais grave ainda quando há uma série de outras pessoas dentro da mesma família com o mesmo problema.

Basicamente, a ansiedade está ligada a expectativa da realização de algo, incluindo a não realização. Por mais estranho e bizarro que possa parecer, sim, às vezes é importante a “não-realização” de alguma coisa, como por exemplo, na síndrome do pânico. Esta síndrome, por sua vez, tão logo o paciente comece a falar dela, mostra-se como um quadro complexo de questões afetivas colocadas umas sobre as outras repetidamente e por um tempo muito além do suportável.

Nos casos onde há um comprometimento de atividades, como dificuldade de concentração acentuada, insônia, irritabilidade, angústia, ejaculação precoce, bulimia, cabe sim consideração a avaliação psiquiátrica. Entretanto, ainda que por via medicamentosa possa haver uma melhora dos sintomas, a problemática que a origina continuará lá até que a pessoa mude coisas na vida, algo que muitas vezes irá requerer assistência psicológica.

Ansiedade tem uma coisa em comum com a febre: você não escolhe ter mas, pode tratar. Há meios para isso, consulte um profissional de saúde mental.

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Psicólogo lê pensamentos?

Pois bem… em certa medida, é possível “ler” intenções, sentimentos e afetos de uma pessoa. Para isso é preciso ter estudado um bocado, mas é importante fazê-lo também à luz de uma série de considerações éticas e profissionais. E não, não há mágica nenhuma.

Veja bem, eu mencionei várias coisas mas não pensamentos. O mais simples para compreender como compreender alguém é considerar que intenções, sentimentos e afetos são aquilo que está nas “entrelinhas” do que foi dito ou manifesto.

Ou seja, quero dizer é que há formas de saber como a pessoa se sente em relação a uma determinada questão ou como se sente em um determinado momento dessa vida. Quando ela vai ao consultório ou recebe um psicólogo na beira de seu leito ela pode, ao falar de si ou de uma situação, abrir espaço para revelar em linhas e entrelinhas como se sente naquele instante. De forma parecida, ao fazer um conjunto de desenhos ou linhas nestes ou noutros contextos reservados para testes psicológicos, ela também tem a oportunidade de mostrar traços de sua personalidade naquele momento.

Exemplos como esses não devem ser tão estranhos para a maioria de vocês, afinal, entrevistas psicológicas, psicoterapias e testes, estão todos por aí. Entretanto, cada um possui fins específicos e que precisa ser visto a luz de contextos também específicos. Não há mágica, mas é preciso respeito profissional acerca do que se vê em determinada pessoa, não cabendo espaço para tal em assuntos de rodinhas de conversa ou qualquer coisa que implique em exposição pública.

Em outras palavras, um trabalho bem feito implica em proteger e guardar muito bem guardado o que cada paciente conta.

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Quando procurar ajuda?

Entrar em contato com um psicólogo não é uma decisão simples para a maioria das pessoas, principalmente quando elas nunca tiveram contato ou não conhecem alguém que tenha precisado de um. A coisa é ainda mais difícil quando elas se depararam com profissionais que não as ouviram bem.

Choro sem razão aparente, insônia prolongada, pesadelos constantes, ansiedade frequente ou permanente, mal-estar inespecífico. Queixas como essas são motivos suficientes para se pensar em procurar um profissional de saúde mental para conversar um pouco.

Mas… e por quê?

Como costumo dizer, da mesma forma que evitamos a dor física, também evitamos a dor “mental” (há mecanismos complexos para isso). Só evitar a dor é uma medida paliativa para reduzir o sofrimento, mas não serve para resolver o que está lá. Inclusive, evitar a dor costuma ser uma medida temporária que, com o tempo tende a falhar e se mostrar como outras formas de dor, tais como:

  • ansiedade sem razão aparente (lembrando que ansiedade não é traço de personalidade, é um estado);
  • depressão;
  • síndrome de pânico;
  • alterações no sistema imunológico, incluindo problemas autoimunes como queda de cabelo e problemas de pele, dentre vários outros.

E onde entra o profissional de saúde mental?

A função de um profissional em saúde mental, como um psicólogo, é atuar junto ao paciente estudando seu funcionamento psíquico, seja ouvindo sua história, seja buscando observar, estudar e intervir na forma de funcionamento mental deste. Inclusive eles estão habilitados a encaminhar para outros profissionais caso seja necessário algum diagnóstico diferencial ou acompanhamento conjunto.

Destaque

O psicólogo

Quem é o psicólogo afinal?

É aquela pessoa que por alguma razão dela resolve tentar entender as razões dos outros. Guardado nas entranhas de seu pensamento, é aquele que movido por um desejo de compreender, estudar, ouvir (e sabe-se lá quantos mais substantivos), na direção de um caminho não menos complexo e que nunca tem um fim.

Na calada da noite ou talvez durante o dia, talvez até mesmo andando à toa pela rua ou “viajando na maionese”, ele decide que quer fazer isso. E é lá na universidade que descobre que “isso” era difícil entender até para ele mesmo, justificando-se ao longo de cinco anos, para quê tantos estudos.

O psicólogo é aquele que estuda durante 5 anos e quando sai da universidade logo descobre: ainda é preciso mais. Seja para se aprofundar no sujeito diante dele no consultório, seja para se aprofundar nos estudos sobre os grupos e outras instituições, ele tem que estudar ainda mais.

O que ele faz e para o que se dedica, vale à pena desde que ele tenha decidido por caminhar por uma trilha difícil e por vezes, desanimadora.

Olhar para o outro passa a ser mais difícil e logo aquelas falas dos professores tornam e retornam a fazer sentido. Eis que surge o supervisor, esse outro tão importante e bem ali, passos adiante (tanto fisica, quanto simbolicamente) ao qual a ignorância agradece num sucumbir desfeita. É também ao supervisor que remete-se um sorriso grato quando percebe-se estar vendo aquilo que há pouco não via.

Mas… há as pedras no meio do caminho… Ah, essas pedras de que tanto falam…

Para aqueles que não seguiram as recomendações básicas, seja por ignorância, prepotência, ou desculpas postas e expostas diante de si, elas irão se mostrar. O psicólogo vê e se não vê, alguém o vê e atua, seja na crítica, seja culpa, abandono ou desdém.

E depois, depois do trilhar dos primeiros passos, aqueles que decidiram caminhar e enfrentar os obstáculos, eis que surge como recompensa silenciosa, histórias atrás de histórias, tão únicas como uma estante repleta de livros novos e inéditos diante uns dos outros. E mais que isso, farão parte de cada uma delas, na medida em que seu sutil posicionamento serve para ajudar a virar páginas e mais páginas, abrindo espaço para novos capítulos.

 

Dedicado aos meus amigos e colegas de profissão, bem como aos meus professores, supervisores e meu analista. Feliz dia do psicólogo à todos.

Destaque

A mãe má (considerações sobre o artigo anterior)

A associação entre doenças físicas (incluindo as relacionadas ao sistema imunológico) e questões psicológicas é estudada há anos. Pode-se até mesmo dizer que questões acumuladas ao longo do tempo podem se transformar em sintomas físicos, como uma forma da “mente” tentar avisar que alguma coisa está errada. Na medida em que a pessoa não dá “bola” para isso ou, não consegue se resolver com aquilo de problemático que aflige sua vida ou, foca apenas no tratamento de sintomas, há um risco desse sintoma “mudar de cara”.

Quanto ao sintoma, uma doença física, ainda que possa ser enquadrada como sintoma da problemática psíquica, não pode ser simplesmente tratada como mero sintoma. A dor pode estar instalada, uma vulnerabilidade ou hipersensibilidade fora do normal, tudo está lá de forma perturbadora.

A intervenção psicológica serve para tratar a raiz do problema, porém, se a questão é cortar uma árvore grande, convenhamos… não é nada sensato tentar arrancá-la pela raiz sem fazer uma poda.

Assim, é importante considerar que um tratamento psicológico não se propõe a excluir outros e imprudentes são aqueles que acreditam que isso possa ser feito sem uma avaliação adequada. Há doenças que precisam ser tratadas diretamente e nem é preciso mencionar nomes de algumas delas.

 

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(Minha opção por desmembrar essas considerações do artigo é para facilitar a leitura)


Sugestão de leitura

Caso tenha se interessado pelo assunto, aqui vão mais alguns artigos:

Sintoma

O conceito de sintoma (Scielo)

BBC Brasil – Raiva e Irritação: os sintomas da depressão que muitas vezes ignoramos.

 

Destaque

A mãe má

– De novo?… O que ela quer? Agora pouco ela não queria tomar remédio nem nada e agora chama de novo?!?

A enfermeira já havia perdido a paciência com aquela paciente, uma velha chata e insuportável, sobre a qual quais os filhos falavam que aquela “brabeza” e “rudeza” estavam além da conta, perguntando-se sobre velhice e doença, se elas poderiam deixar mesmo as pessoas assim…

– Nossa, ela tá bem pior do que era…

Tremendo de dor, Ângela* acabava cedendo momentaneamente vez ou outra. Era estranho… Sua filha mais nova saía do seu lado, cansada de ouvir tanta reclamação e ia lá fora, no balcão, tentar conversar com outras pessoas, desabafar um pouco.

– O que me deixa preocupada… além desse negócio dos remédios, é que ela não tá nem comendo, sabe?…

A equipe já sabia daquilo tudo e estava evitando o contato para evitar mais atritos. Ângela* não queria saber de nada, era um poço de revolta, absolutamente insatisfeita com qualquer coisa. Havia começado o tratamento, mas agora estava muito relutante.

– Ok, eu posso dar uma olhada nela sim, pelo que está me contando, é importante.

Depois de ouvir sobre a paciente, Misael* ajeitou seu avental e foi até lá atender uma interconsulta. Foi um dia. Depois, outro.  Por fim, foi várias vezes. Conversou com a equipe. Não foi um trabalho fácil.

– É, agora ela aceita alguns remédios, mas não quer comer muito não, só vomita… E fica lá fazendo cara feia pra tudo que eu falo… depois fala que vai parar de tomar remédios de novo… já não sei mais o que fazer… Dá vontade de ir embora para casa e nem voltar mais… deixar ela aí, fazer o que ela quiser.

Rosinha*, ali do outro lado do balcão, um pouco menos enfurecida, se perguntava o que Ângela* tinha afinal?… A equipe e a família sabiam bem do que se tratava, porém, aquela mulher que tinha boca para falar o que fosse a quem quer que fosse, não conseguia nem dizer o nome da doença que tinha e…

– Eu não quero nem saber, não fique me falando disso que eu não gosto e pronto! Ao invés de porem o meu nome aqui em cima da minha cabeça, coloquem para não me falar disso, que droga!!

Diante dos sinais físicos que Ângela* apresentava, estava óbvio que o problema requeria uma intervenção cirúrgica, já discutida à exaustão desde os primeiros exames, mas…

– Eu já sei o que foi que causou isso! Não preciso ficar falando, preciso ir lá e resolver, ora essa. Se eu fosse mais nova queria ver quem é que ia conseguir me segurar aqui dentro.

Àquela altura, a cada bufada e cruzada de braços, já não se sabia muito claramente quando Ângela* estava furiosa ou com dor. O fato é que a cada espasmo, ela olhava lá para fora e após algum tempo mudava sua feição.

– …

Não, ela não conseguia falar do que se tratava e levou algum tempo a conseguir isso. Perto da dor que sentia no corpo, essa outra nem tinha ao que se comparar. Não adiantava virar o rosto, fechar os olhos, virar na cama e nem tomar um “remédinho”, muito menos dormir. A dor era no fundo da alma.

Ângela* estava certa de que sua dor era fruto dos percalços de sua vida. E com isso, estava certa de que sua obrigação agora era reparar seus erros para se sentir melhor e só assim é que obteria a cura.

– Eu sei que sou ruim, mas é como aprendi a ser. Eles não acreditam, mas eu melhorei, eu quero melhorar. Só quero ser uma boa mãe…

Nesse ponto, Ângela* chorou compulsivamente, como talvez nunca tivesse feito na vida toda. Na verdade, nunca tinha olhado para si e àquela altura, revelava-se mais dura do que era.

No fundo, ela era assim consigo mesma e de certa forma, até pior do que com outras pessoas. Permanecer com dor era uma mistura cruel de auto-flagelo com penitência.

– Ela tem esse nome daquela enfermeira ali que fala que eu chamo ela toda hora… Rosa*.

Tratava-se da filha mais velha de Ângela*. Brigadas há muitos anos, não conseguia se achar digna da maternidade dela diante da mulher que a outra havia se tornado. Há anos mal falava com ela.

– Eu só queria pedir desculpas, sabe? Mas não consigo fazer essas coisas, não consigo!

Ângela*. Não se sentia digna da maternidade nem de Rosa* e nem dos outros dois filhos, mesmo diante do sucesso deles.

Algum tempo após ficar às portas de alta à pedido e alta sem cirurgia, o teor de raiva e revolta de Ângela* diminuíram e ela passou a cooperar um pouco. Não fazia sentido ser tão cruel consigo como estava sendo. Sua doença já estava instalada e consumindo seu corpo e, mesmo que se resolvesse com Rosa*, não ficaria fisicamente curada. Já havia um prejuízo de funções orgânicas e ela precisou melhorá-las até ficar em condições de ser operada.

– Não, não precisa chamar. Eu já até infartei nessa vida e saí. Vou lá do meu jeito. Não acredita?!? Só conseguir andar de novo…

Ângela*, que recusou que chamassem Rosa para vê-la, fez o seu tipo para o casal de filhos na manhã da cirurgia. Tomou banho sozinha, calçou e se descalçou sozinha. Tapou a boca sem dentes e, meio curvada, lenta, subindo amparada (um pouco à contragosto…) pelos outros e deitando na maca.

– Não precisam ficar chorando, eu volto logo… Se o médico não ficar enrolando.

Em meio às lágrimas, os filhos e Rosa* sorriram. Ângela* tinha lá um senso de humor no meio daquela cara de vózinha brava. Cobrava de si uma dureza monumental que se desfez assim que as portas da sala pré-anestésica se fecharam, pois tinha um medo: o de não ter mais tempo para consertar aquilo que achava ter feito de errado.

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Ah, leia também o próximo artigo, diretamente relacionado ao assunto abordado aqui!!!

A mãe má (considerações)

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Sugestões de leitura

Caso tenha se interessado pelo assunto, aqui vão mais alguns artigos:

Sintoma

O conceito de sintoma (Scielo)

BBC Brasil – Raiva e Irritação: os sintomas da depressão que muitas vezes ignoramos.

Destaque

Nem gregos e nem troianos

Ulisses* continuava a fazer seus portões. Era assim há muito tempo e diziam que continuaria por bem mais que isso. Se aqueles amontoados de ferros e pingos de solda fossem mais que o que eram e tivessem a oportunidade ímpar de acompanhar seu genitor, entenderiam o porquê.

– Falei tinta cinza, cinza, moleque!!

Rude, Ulisses* juntava os dedos da mão repetindo a mesma frase várias vezes. Queria todos seus portões com fundo cinza. Ninguém sabia qual a razão, mas o seu ajudante anterior conformara-se que tinha que ser dessa forma e pronto.

– É cinza!!! Isso aqui é cinza, olhe bem pra isso!!!

Ok, tinha que ser cinza. Na verdade não havia uma explicação razoável, já que outras tintas, mais novas e modernas, serviriam como uma melhor base para dar um acabamento ao trabalho.

O sobrinho de Ulisses*, lá com seus diminutos dez anos de idade, não compreendia nada daquela exigência mas, não ousava questionar. Ajeitou os chinelos nos pés, voltou à loja e tentou devolver a lata de tinta preta que havia comprado. Não conseguiu, é claro.

– Mocinho, não dá pra aceitar um negócio desses… Seu tio já abriu a lata… Agora ele vai ter que usar…

O menino não gostou mas, colocou a lata debaixo do braço, e caminhou até chegar perto do centro da cidade, passando de loja em loja até encontrar onde havia a tal tinta cinza, onde lamentou:

– Nossa, moço, mas eu não tenho esse dinheiro todo…

Certo de que seu tio ficaria muito bravo se não tivesse o raio da tinta cinza da marca X, ele tirou um pouco do que recebera (que era pouco) e inteirou o valor necessário para a compra. Já não tinha muito e recebia quase nada, então ficou ainda mais pobre. O dia já estava terminando e logo poderia ir para casa.

– Nossa, mas demorou, hein? Eu aqui com o portão parado e você estava fazendo o quê? Fosse de ônibus, ora essa. Só enrola… Da hora do almoço até agora pra isso? E essa lata preta? O que vou fazer com isso? Agora fica pra você, ora, cacete!

Negro, o menino não tinha como ficar vermelho. Entretanto, se aquele portão pudesse perceber alguma coisa teria visto o garoto franzir a testa e apertar as mãos antes de lhe mandarem beber água, já que pelo tanto quanto havia suado, devia estar desidratado.

– Não vai mais pintar?

– Não, agora eu não vou pintar. São quatro e meia. Eu não trabalho depois das cinco.

– Por quê?

– Porque eu não trabalho depois das cinco, ué. Depois das cinco é hora de varrer a sujeira e organizar essa tralha toda.

Ulisses* estava sentado e ficou ali meia hora olhando o portão todo, vendo solda por solda, matutando. Seu sobrinho, de mesmo nome, nada compreendia mas, ficou ali aguardando até as cinco sem fazer nada, já que varrer não podia pois não era hora para aquilo. Nada daquilo parecia fazer sentido e quanto mais tentava entender, mais voltas a sua cabeça dava, até começar a doer.

– Quando chegar amanhã, bate no portão cinco pras oito. Antes disso eu estou escovando os dentes, oras.

O pequeno Ulisses* chegou em casa cansado e mais pobre do que já era. Tomou uma bronca por andar pela cidade inteira e não pegar um Uber. Para sua mãe, o irmão dela era assim mesmo e tinham que aceitá-lo como era e ajudar, afinal, o avô era assim também.

– Tá bom…

– E o que está fazendo com essa lata de tinta agora? Amanhã você entrega pro seu tio.

– Mas…

– Mandei entregar pro seu tio! Você não vai ficar com tinta aqui em casa.

Suado e cansado, o menino Ulisses* esqueceu a lição de casa. Emprestou o pouco dinheiro que tinha para o irmão mais velho, também esquecendo que estava querendo comprar alguma coisa que… por sinal… também já não se lembrava a essa hora…

Ao deitar naquela caminha velha, o garoto que tentava crescer se mexia tanto que dormiu bem mal. Aquele mal de alguém para quem não havia sobrado nada, a não ser uma pilha de coisas sem o menor sentido, exceto para aqueles aos quais restavam infinitas justificativas. E no afã de tentar resolver todas as coisas (loucas) dos outros, o pequeno Ulisses* experimentava nessa noite apenas sua primeira insônia.

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Acompanhe também essas sugestões de leitura:



Ulisses tinha várias manias, mas ninguém sabia dos pensamentos que povoavam sua cabeça. Assim que viu na televisão uma forma de eliminá-los, resolveu que iria até a farmácia dar um jeito.

Pensamentos: indesejados e desnecessários? Uma odisséia de Ulisses* (Parte 1 de 2)

Rosinha*, uma senhora, tenta entender por qual razão a sua vida é mais triste em casa:

“Quando volto pra minha casa, eu fico muito triste…” – E então, o que se fala em um consultório? (2/2) – Exemplos clínicos

Naquele dia Rosinha* já não tinha nem tempo de pensar se estava ou não cansada.  Ela não sabia, mas fazia parte de um complexo jogo, no qual acabava sendo apenas mais uma peça.

A marionete

Destaque

Dá pra escolher um psicoterapeuta?

Dá sim e para algumas pessoas isso acaba sendo necessário.

Como já mencionei em outros artigos, há certa frequência em ouvir dos pacientes e de outras pessoas, casos, pérolas e até aberrações acerca da atuação de alguns profissionais de saúde mental. Não vou criar um dez passos pra selecionar seu psicoterapeuta, psicanalista ou psiquiatra ou seja lá o que for, pois isso seria absurdo também, então vou me limitar a tentar ajudar a pensar em alguns pontos acerca dessa escolha. Há, de fato, algumas coisas bastante simples que podem facilitar.

O primeiro passo, é se dispor a encontrar alguém para lhe ouvir. Ouvir é bem diferente de concordar com aquilo que você diz. O profissional poderá lhe pedir para esclarecer uma contradição que você nunca percebeu que existia, por exemplo, o que pode resultar em algum embaraço para algumas pessoas.

Você não está procurando um juiz, então, considere que não está lá para ser julgado. Mas, considere, avalie também se você está mesmo sendo julgado ou se não está tentando se defender de algo sem saber a razão.

O tempo da conversa precisa ser minimamente suficiente. Não consigo imaginar uma consulta de cinco minutos servindo para diagnosticar aquilo que é sintoma de uma vida inteira. É mais ou menos como querer falar de um rio inteiro só pela amostra colhida onde ele desemboca. E convenhamos… uns minutos de conversa sempre serão pouco diante do tempo que você já viveu sua vida.

O diagnóstico pode facilitar algumas direções e alguns passos para alguns tipos de tratamento mas nunca irá dizer tudo sobre você e às vezes pode dizer nada. Tratamento em saúde mental não tem como seguir um padrão de procedimentos como o de consertar um carro, fazer uma reforma ou uma cirurgia, pois se trata de lidar com a história de um sujeito.

Em suma, o tempo precisa ser suficiente pra você e a conversa lhe dar alguma sensação de conforto e acolhimento, são alguns pontos breves para saber se encontrou um profissional adequado para você. Na dúvida, leve primeiramente o incômodo ao profissional que lhe atende. Você pode tentar encontrar outro profissional para conversar, se informar melhor, talvez até tirar alguma dúvida. Às vezes é preciso procurar mais de uma vez para encontrar onde dar certo.

 

Todavia, um outro alerta. Nem todo desencontro é por culpa dos profissionais. Há casos com os quais um bom psicoterapeuta ou psiquiatra não poderão compactuar, parecendo para seus pacientes, pessoas ruins, quando na verdade estão fazendo “males” necessários. Sempre há singularidades em cada um dos casos, inclusive a possibilidade de um paciente querer encontrar alguém que lá no fundo, se disponha a um acordo silencioso de não tocar na ferida para fazer um tratamento (falso) em banho maria.

 

Bem, por enquanto é isso. Caso queira ler mais sobre o assunto, há alguns links linhas abaixo. E se gostou da leitura, não se esqueça de curtir e compartilhar. Poste também sua mensagem, pois curtir, compartilhar e comentar ajudam a delimitar os assuntos para serem trabalhados aqui.

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Sugestões para leitura:

Reeditado em 19 de novembro de 2017 às 15h45

Destaque

Pensamentos: indesejados e desnecessários? Uma odisséia de Ulisses. (Reflexões sobre o conto)

Esse post é uma reflexão sobre o conto com mesmo título.

Recapitulando, Ulisses estava envolvido em suas questões afetivas de uma forma bastante complicada e que, dado o tempo de permanência, já havia se tornado aquilo que muitas vezes as pessoas denominam como “hábito”, “costume” e até “jeito” ou mesmo, “manias”.

No caso de nosso pseudoherói, a pequena ilustração de sua pacata vida, nos mostra coisas que você só conseguirá observar basicamente das seguintes formas:

  • num conto, numa história ou num relato de caso clínico;
  • através de uma terapia ou de uma análise, dentro da qual o paciente poderá lhe revelar o que sente, o que pensa e o que faz;
  • vivendo a própria história e, com mais profundidade, a conhecendo através de um trabalho terapêutico.

Como acredito que tenha ficado claro, Ulisses é um homem tomado por vários comportamentos bizarros aos quais ele e as pessoas à sua volta já se acostumaram. Inclusive, pessoas como ele não raras vezes chegam ao consultório sem perceber o que acontece (indicadas por alguém) e, quando percebem, não têm a menor ideia do porquê ou o quê fazerem com isso e aquilo. Inclusive, há quem relate uma série de pensamentos indesejados associados com tais comportamentos.

Vamos imaginar que os pensamentos indesejados de Ulisses que o levavam a fazer uma série de coisas absurdas, passassem a ganhar uma dimensão mais estranha ainda. Que ele passasse do fazer portões e acompanhá-los por uma semana para ver se estão funcionando direito, para uma vontade irresistível de ir até lá e cuidar pessoalmente de abrí-los e fechá-los para ter absoluta certeza de que não ficou nenhum problema mesmo.

Absurdo? Sim, claro. Talvez até Ulisses percebesse isso e não se deixasse levar por tal coisa. Entretanto, isso não quer dizer que seus pensamentos lhe deixariam de importunar. O fato é que esses pensamentos estão ali por alguma razão que vai além do efeito mais prático, que é atolá-lo em sua vida e fazê-lo perder tempo. Como é óbvio, isso também serve para dizer que há alguma coisa errada, mas não com o portão e sim, com o próprio sujeito.

Para ilustrar metaforicamente, podemos pensar na doença física combatida com remédios, considerando o fato que nem toda pode ser tratada dessa forma. Inclusive, algumas podem ser mascaradas por analgésicos, anti-térmicos e anti-inflamatórios. O resultado dessa postergação, procrastinação ou enrolação pode servir apenas para agravar a doença de base, o que pode inclusive, levar ao comprometimento fatal da vida do sujeito.

Em saúde mental, não pense que a coisa que a coisa é diferente.

Uma possibilidade bastante similar ao exemplo anterior, é a postergação do tratamento psicológico levar ao agravamento do problema de base (aquele de onde sai uma árvore de sintomas). E isso é bastante perigoso, só observar o desenvolver dos casos de síndrome do pânico, onde tantas coisas já se remontaram que o sujeito nem sabe mais o que lhe incomoda, sendo imprescindível estar acompanhado por um psicoterapeuta para se aprofundar no que costuma ser um verdadeiro iceberg.

Do ponto de vista físico, o corpo humano “deixa” sair pus por alguma estrutura ou fica febril pra dizer que há alguma coisa muito errada (mesmo sem uma dor condizente). Em se tratando de mente humana ou de saúde mental, pode-se dizer que um sintoma “atropelado” por negligência aos próprios afetos ou, morto pelo cessar de sintomas por conta de excesso de remédios, poderá dar lugar a outro e até a outra via para se mostrar. Num exemplo bastante simples, é como uma pessoa deixar o medo de entrar no elevador e passar a ter um bizarro medo de entrar numa piscina ou mesmo, ter uma inexplicável (do ponto de vista fisiológico) paralisia das pernas.

No caso específico de deslocamento de sintomas psíquicos para sintomas físicos, a problemática tende a ser ampliada, sendo necessário um acompanhamento médico para tratar aquilo que está se manifestando no corpo, sendo imprescindível a psicoterapia para tratar o problema de base. Noutras palavras: se há uma manifestação física de um problema psíquico, tratar somente o psíquico pode não garantir a cura.

Em suma, é importante considerar que a eliminação de pensamentos pode ser uma aposta perigosa para ver onde é que novos sintomas vão aparecer e, deixá-los como estão pode ser padecer em mais do mesmo, o que é a mesma coisa que estar deixando de viver uma parte da própria vida (como um zumbi) a troco de coisa nenhuma, alheio inclusive, a que coisa é essa. Por outro lado, cabe levar em consideração a singularidade de psicoses graves e outros estados que requerem medicações pesadas, muitas vezes associadas a questões nas quais é preciso proteger o sujeito dele mesmo ou dos outros e que requer uma série de observações à parte.

Eliminar totalmente um sintoma pode ser uma forma de eliminar justamente aquilo que está dizendo que há algo errado aqui, nesse exato momento.

Obrigado pela leitura e até a próxima.

Destaque

Pensamentos: indesejados e desnecessários? Uma odisséia de Ulisses

Ulisses tinha aqueles pensamentos perturbadores todos os dias. Ao terminar o trabalho, punha a máscara protetora para cima e olhava o serviço de solda, para checar se estava bem feito. Depois fazia o acabamento, pintava sempre com o mesmo fundo cinza e instalava para o cliente. Mas não conseguia deixar de ficar preocupado até ver seu produto em funcionamento por algum tempo.

Até aí tudo bem, se por acaso Ulisses se contentasse em deixar a vida seguir seu curso e, eventualmente contar com a possibilidade de alguém lhe ligar para reclamar de algum serviço, como muitas pessoas fazem normalmente.

No caso de Ulisses, o trabalho ficava tanto tempo na cabeça junto à expectativa de alguém reclamar, que no final de contas, ele acabava pegando a bicicleta velha (e com soldas trincadas) para passar na frente da casa dos clientes algumas vezes. Quando não trombava “ao acaso” com eles, acabava chamando para perguntar se o portão estava direito. Justificava-se dizendo que era sua forma de “fazer controle de qualidade”…

Às vezes, parado todo sujo ao lado da máquina de solda ou sobre a bicicleta, Ulisses passava o antebraço na testa suada. Normalmente achava que era esse o seu “normal” – ainda que clientes reclamando fossem uma coisa extremamente rara – de forma tal que insistia e continuava perdendo horrores de tempo com checagens e novas checagens.

Para piorar, apesar de toda polidez com o trabalho, Ulisses não conseguia conversar muito bem. Era breve nas palavras e quando parecia se soltar, logo gaguejava e dava um jeito de encerrar a conversa. “Tinha” que medir as palavras para não falar todos os palavrões que vinham na cabeça e para não assustar ninguém.

Ulisses melhorava quando bebia… ao menos era o que acreditava. Rosinha que o dissesse… Seu homem era um sujeito bastante difícil e que não aceitava jamais mudar nada. Não que ele não fosse capaz de lavar uma colher, nada disso… Ele só não considerava aceitável fazer o papel de uma mulher em casa, então, nem uma colher ele lavava.

A verdade é que Ulisses estava tomado por uma porção de pensamentos indesejados, sobre como é que faria se alguém reclamasse sobre a solda dos portões ou, o que achariam dele se passasse a lavar louças em casa ou, ainda, se ele deixasse de cuidar da fala e soltasse um palavrão diante de um cliente “tipo doutor”.

Certo dia, quando viu uma reportagem falando em eliminar pensamentos indesejados pensou em correr até uma farmácia. Mas… pensou… pensou mesmo um bocado e por fim… acabou passando reto com a bicicleta, correndo em seguida como diabo fugindo da cruz, tomado por uma preocupação terrível em saber que raios de pensamentos indesejados ele gostaria de eliminar. Teria que falar sobre isso com o farmacêutico? Claro!! Mas muita gente tomava remédio com aquele homem, não é?…

E para falar a verdade, esse era apenas mais um pensamento tomando forma, tendo como efeito o mesmo de todos os anteriores sem que Ulisses notasse: desse dia em diante, evitaria a rua da farmácia e faria um caminho mais longo só pra ninguém achar que ele poderia estar pensando em comprar algum remédio pra cabeça. Do herói mitológico, ali nada restava. Apenas pensamentos vagavam, uma estratégia singular e eficaz para fixar âncoras em qualquer lugar, nem que fosse para perder algum tempo caso não impossibilitasse fazer alguma coisa.

No caso de Ulisses, tal qual no caso de tantas outras pessoas, já não era tão simples identificar a origem de tantos pensamentos mas, o efeito produzido era claro: era parar a vida do sujeito.

Se Ulisses por acaso parasse com seus “pensamentos indesejados” e “manias” com a mesma facilidade de estourar um balão, ainda ficaria sem saber por qual razão estava paralisando sua vida. Mas, ele e muitos outros achavam que “esse” era Ulisses.

Destaque

A marionete

Naquele dia Rosinha* já não tinha nem tempo de pensar se estava ou não cansada. Seu nome era Trabalho e seu sobrenome… Trabalho. Seria Hora Extra se não fosse “a crise econômica”…

Foi naquele plantão. Rosinha* não havia parado para beber água ou para ir ao banheiro. Ou… talvez tivesse. Mas, ocupada o quão estava, nem se lembrava e também não era algo que alguém ali fosse perguntar.

Se aquela pia no posto de enfermagem pudesse fazer mais que ser uma inerte e reluzente liga inoxidável, teria perdido as contas de quantas vezes Rosinha* nela havia lavado as mãos e o quanto de remédio que essa enfermeira já havia preparado. E se não estivesse ali apenas para aparar a água ou parte dos soros que tinham que ser postos no volume correto, poderia questionar a amiga quanto ao número de pacientes, que já era oito.

Caso fossem dadas a sair do lugar e ver – diferentemente da porcelana barata que eram – aquelas pias dos quartos, saberiam que Rosinha* estava fazendo de tudo para medicar, banhar e fazer curativos. Alguns pacientes tinham “perdido” as veias, mas logo a pródiga enfermeira estava lá para “pegar” outra.

Rosinha* podia fazer de tudo ali. Ela e seus colegas de trabalho, três para cuidar de quase trinta. Juntos, conseguiam dar conta de tudo. As coisas não estavam saindo nos horários certos mas, estavam saindo.

Foi quando no meio daquela correria apareceu uma nona paciente para Rosinha*. Tão comprometida com o trabalho que recebeu aquela senhora e deu boa noite carinhosamente. Alguém havia dito para receber o paciente mas, mesmo após fazer vários protestos, a jovem e elétrica enfermeira cedeu e a recebeu.

Curiosamente já havia levantado vários argumentos, dizendo que aquilo não era justo, pois já tinha muitos pacientes complicados, que estava sobrecarregada (tal como os seus colegas de plantão) e, que faltava menos de uma hora para ir embora. Mas alguém por fim argumentou do outro lado da linha:

– É uma senhora de 70 anos, poderia ser a sua mãe!!!

Isso doeu no coração de Rosinha*. Criada pela avó, sentiu todo aquele peso lhe balançar as pernas. Tomada por um quase desespero de quem, sem saber, havia se identificado com uma parte da história, recebeu a tal senhora de 70 anos.

Se a pia pudesse ouvir a conversa pelo telefone, e se pudesse fazer amizades, talvez questionasse a provável amiga, perguntando- lha se não percebia que toda aquela estrutura usava e abusava das pessoas na medida em que aprendia por onde lhes mexer os fios certos.

Rosinha* não conseguia se opor a certos argumentos, pois supostamente deveria fazer isso ou aquilo “pensando” no paciente. Sensível, se comovia com o estado que aquelas pessoas chegavam. Além disso, sempre aparecia alguém dizendo que ela era um anjo para inflar um ego que só nessas horas parecia valer algo… para os outros.

Mas… que anjo ingênuo esse, para jamais perceber que sob os argumentos de ter nascido para a profissão, de ter que se preocupar com o outro, de isso e sabe-se lá o quê, não passava de um brinquedo para aqueles que ficavam só atrás do palco, sem viver as cenas do espetáculo?

Rosinha* não tinha parado para pensar que aquela senhora que ela recebera e acomodava na cama, uma vez além de suas capacidades, ficaria apenas ali no leito. Sem a devida atenção, aquele coração de setenta e poucos padeceria fatalmente em umas duas horas por causa de um ritmo bem esquisito, ao qual ninguém havia prestado a devida atenção, já que o problema daquela “vózinha” supostamente estava numa dor de estômago, e os aparelhos portáteis de “PA” comprados para “agilizar” o serviço não eram capazes de cumprir o que dedos e ouvidos fazem bem… (quando devidamente aparelhados de estetoscópios e esfigmomanômetros).

Não era só Rosinha* que havia se comovido, mas havia muito mais gente que passava pelo mesmo naquele hospital. Talvez se comovessem muito mais se soubessem que eram apenas bonecos presos em fios, dos quais precisavam urgentemente se livrar para justamente evitar, aquilo que tentavam tanto evitar.

Destaque

Briga no hospital e na Saúde

As pessoas se estressam no hospital, sejam elas os pacientes, acompanhantes, visitantes ou os profissionais da equipe multidisciplinar. Nervos de aço e nem sangue de barata não existem e quando as pessoas pensam que isso tudo está lá, não subestime o inconsciente, pois os afetos irão aparecer.

Basta olhar pra esse caso recente em que um profissional do Samu briga com um solicitante por telefone. Há uma situação de tensão que requer uma investigação, afinal, não é sábio deslocar uma equipe com todo um arsenal de equipamentos para uma ocorrência que requeira menos. O inverso também é verdade. Há pessoas e mais pessoas podendo requerer socorro, então é preciso mandar um grupo certo pro local certo.

Por outro lado, não cabe se não aos profissionais de saúde saberem disso. Rotina de socorro, assistência e cia. ficam a encargo da equipe multidisciplinar. E seria interessante se a leitura do que ocorre além da rotina, ocorrências e intercorrências, fosse melhorado.

Como assim? Na hora da emergência você quer que fique explicando pro paciente o que está acontecendo?

Às vezes, isso é necessário, especialmente quando o nível de consciência possibilita. O desespero pode estar nos olhos de quem não “é da área” e às vezes requer muita pouca coisa, como um aviso de que estão ali vendo o que está acontecendo e que vão tomar providências.

E mandar ficar calmo?!?

Até mesmo pedir calma pode ser útil e nem pelo pedido em si, afinal, ansiedade e tensão são estados e não escolhas pessoais. Nesse caso, o que funciona é acolher esse estado e às vezes uma palavra bem colocada basta.

E se a pessoa estiver atrapalhando?

Dependendo do caso, também cabe ser mais rígido e pedir pras pessoas se afastarem sim.

 

De forma geral, o importante muitas vezes é, de alguma forma reconhecer a existência da tensão do outro para que ele próprio lide com ela e não a transfira para a equipe, como por exemplo:

Olhe, sei que você está preocupado. Então é por isso que preciso que você me faça tal coisa.

Muita gente que nunca colocou uniforme pro trabalho em saúde acha que é preciso se descabelar, arrastar médicos, enfermeiros, muita gente e muito equipamento pra resolver as coisas, desconhecendo que levantar informações já é parte do trabalho deles e que esse passo é crucial pra fazer as coisas certas. E mais que isso, após estudar, treinar e praticar, já não é mais necessário ficar de cabelos em pé, bastando cumprir passos na forma e velocidade adequada, o que ainda garante segurança (não pense você que é fácil lidar com monitores, massagens, tempo entre remédios e mais e mais remédios, além de exames e mais exames, vai e vem de equipamentos, e outras coisas mais, tudo isso ao mesmo tempo).

Uma emergência implica em tensão para todos e a pior coisa que se pode fazer, é tentar depositar tensão sobre o outro. É como uma corda, uma hora ela poderá arrebentar e aí teremos um desastre com ela se arrebentando em várias partes, como o recém noticiado. E se as pessoas estiverem cara-a-cara, como é óbvio, um confronto físico é uma possibilidade real e concreta.

 

Não se trata aqui de defender  um lado ou outro e sim, pensar que há outras formas de lidar com as situações. Além disso, se olharmos mais à fundo, ainda há outros problemas embutidos, como por exemplo, número reduzido de profissionais e um espaço ridículo (que muitas vezes beira ou se confunde com a nulidade) para a elaboração de questões subjetivas, que incluem a tensão de não poder errar, a de ter que arcar com demanda afetiva alheia e até mesmo a de ter que dar conta de pedidos objetivos ou subjetivos que não são sequer, humanamente possíveis.



Sobre a notícia em questão, ela foi publicada pelo G1 em 03/10/2017 pode ser visualizada aqui:

Gravação registra palavrões e insultos de médico do Samu em ligação de pedido de socorro; ouça

 


Obrigado pela leitura e até a próxima!

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Homem com homem e mulher com mulher na terapia?

Quando se sentou na cadeira e olhou para aquela moça com cara e jeito de patricinha, Misael*, um senhor de mais de 50, achou que aquilo jamais daria certo. Ao falar com Rosa*, estava certo de que somente um homem de meia idade como ele poderia compreender o drama pelo qual passava. No entanto, aquela jovem ouvia com tanta atenção que ele acabou retornando algumas vezes, até mesmo lhe passando pela cabeça que ela estivesse interessada nele.

– Ah, que bobagem… tenho idade pra ser pai dessa moleca, o que estou pensando…

Sua relação com a esposa melhorava e aos poucos percebia as “ideia” se organizando melhor na sua cabeça. Existiam coisas sobre as quais nunca havia se debruçado para pensar um pouco mais: passou a falar de “coisas de homem” sem pensar e quando viu, já estava no caminho para casa:

– Ô loco! Falei isso mesmo!

Curioso… homem que era, dado a carregar carne sobre o lombo o dia todo e falando aquele “papo de homem” com seus companheiros, Misael* acabara de falar daquilo tudo com aquela moça e nem percebera sua conversa se estender numa direção que nunca tivera visto.

– Nossa… Ainda bem que ela entende dessas coisas…

Pois é… levou algum tempo a perceber, mas, Misael* acabou concluindo que não precisava de um “homem” para ouví-lo. Só precisava de “alguém” que o ouvisse.

– Pois é…

E assim, ajeitou a carteira e os passes no bolso, deu sinal para o ônibus e foi embora novamente para sua casa.

Pois bem. Ao contrário do que muitas pessoas costumam pensar, para ouvir o outro não é preciso ter passado pela mesma experiência de vida. Não é preciso ser pai para ouvir um pai falar de seus filhos ou ser mulher para “entender” o ponto de vista de uma mulher.

E ainda que possa ser desejável para alguns pacientes uma espécie de “cumplicidade”, é importante considerar que o que conta, é a história contada pelo próprio sujeito e a vivência ora relacionada.

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Não sou juiz, mas… (sobre o caso da Avenida Paulista)

Não me compete fazer o julgamento de ninguém. Não estudei pra isso e, ainda que tenha toda uma simpatia pelo Direito, uma vez que ele faz parte de nossa sociedade, vou tomar a liberdade de me aventurar um pouco nesse campo hoje. Até porquê… estou aqui até agora me perguntando sobre que cargas d’água fizeram dar liberdade ao homem que estava ali se divertindo às custas de uma passageira de ônibus.

Divertindo-se?

Sim. O ato sexual, sua simulação ou coisas relacionadas são destinadas ao prazer. O orgasmo é o clímax disso e ponto.

Mas… esse é um ponto que pode implicar em uma ou mais pessoas. E obviamente não foi o caso da moça lá na Avenida Paulista. Sabe-se lá no que ela estava pensando, se nas suas contas, se em algum passeio ou em qual ponto desceria. Li que ela estava dormindo. Não importa, ela foi tomada como objeto de prazer sem que pudesse se defender do sujeito malicioso em questão.

Dizer que não houve violência é uma terrível bobagem, uma vez que o sujeito atirou nela o seu gozo, concretamente falando. Ela, a moça, só estava ali. Não pôde se defender e ao que o roll de informações publicadas diz, ela ficou em choque. Sabe-se lá o que passou pela cabeça dela e quantas voltas ela deu ali sozinha consigo mesma parada na Avenida Paulista no meio da multidão.

É óbvio que houve uma violência. Sêmen pode ser limpo com água e sabão, preferencialmente um bactericida, pois vai saber se o sujeito não é portador de doença venérea… O corpo físico está ok. A roupa, é só lavar também.

Agora, vá lá dizer que o que a moça sofreu vai passar… Vai passar quando? Em um ano, dez, vinte? Ela vai conseguir continuar um namoro, caso tenha? Ela vai se relacionar com algum homem depois do ocorrido? Quando? Vai suportar alguma relação sexual no futuro e conseguir construir uma família?

Pasmem!! Eu não posso, não estudei e nem trabalho com Direito e nem sou um jurista, mas não é admissível que profissionais de outras áreas venham até a Saúde Mental dar seus pitacos baseados em conversas, revistas de senso comum ou mesmo livros de literatura rasa sobre o assunto. Saúde mental é pra quem ficou pelo menos CINCO anos na faculdade e nesse caso, a quem compete dizer se houve dano ou não são esses profissionais. Estamos disponíveis para laudos, pareceres, relatórios e, quando for o caso, pra consultas e tratamentos de curto, médio e longo prazo. Ou seja, podemos dar suporte a outros profissionais.

Não sou radical a ponto de dizer “cada macaco no seu galho”, mas que cada um, respeite o galho alheio e que converse com o vizinho antes de se propor a pular no do outro pra resolver tudo sozinho.

 

Obrigado pela leitura e até a próxima.

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“Estou no terceiro casamento… eles sempre me traem…”

Rosinha é relativamente jovem. Tem 4 filhos, dois do primeiro casamento e os outros dois dos posteriores, sendo que a menina mais nova tem pouco mais de um ano. Se em sua vida tudo ocorresse como gostaria, eis que teríamos uma mulher feliz apesar das preocupações em como cuidar da prole… mas não… entre um olhar e outro para o vazio ou para o chão, os olhos se enchem de lágrimas sem que ela saiba porquê, os sentimentos lhe saltam à razão e brotam e rolam pelo rosto na forma de lágrimas. “Eu acho que o que motiva são meus filhos, que se eles não tiverem eu, a quem vão recorrer? Não posso ficar ruim assim, não…”

Nos relacionamentos anteriores, Rosinha foi traída por seus maridos, resultando em brigas e separações. Se fosse dada a esquecer por conta da “idade”, como dizia e nem tinha, talvez não tivesse ido tão longe em sua história e nem a fundo a ponto de se recordar de coisas parecidas que já haviam acontecido antes, incluindo traições de seus então namorados. “Eu devo ter algum problema sério, porquê sempre escolho errado… Ou minha mãe que tá certa, ela diz que homem nenhum presta”.

Como se não bastasse, a mãe de Rosinha também foi traída, casou duas vezes e não mais. Não bastasse ser a pessoa mais próxima, não causa surpresa ser com quem mais essa jovem mulher se identifica. “Nossa, somos muito parecidas, sabe? Até quando a gente faz comida as pessoas não sabem se foi eu ou ela quem fez.”

Rosinha, crente de que tinha que aguentar todos desafios nessa vida, tentou suportar tudo. Ou, quase tudo… afinal, devia ter alguma coisa que lhe permitisse mudar de direção, afinal, tinha mudado de namorado, de marido e de casa. “Vai, eu não fui santa, eu acho… porquê antes de terminar eu já estava querendo ficar com outro… acho que não foi certo, né? Mas é que assim, nossa, é muito ruim pra mim… assim, ficar sozinha…”

No decorrer do plantão, Rosinha, que estava certa de que um pouco de conversa, em meio solidão que sentia, resolveria, percebeu que pétala à pétala, vinha se acabando aos poucos. Se fosse uma planta, não haveriam dúvidas de sua força, mas aquilo tinha um limite e o desafio maior não talvez não fosse aquele que estava certa enfrentar

Se a questão fosse pura e simplesmente despachar um marido, um namorado ou companheiro que fosse, Rosinha já sabia como fazê-lo, inclusive teria despachado suas questões e não mais se haveria com elas, tampouco teria se desgastado tanto. Aquilo que parecia uma gota de água, era uma torneira aberta, transbordando na pia…

Rosinha ficou triste. Mas, se fosse dada a se abater pela tristeza, não teria ficado contente por se conhecer melhor, tampouco por começar a compreender seu papel em sua história e que isso lhe dava a chance de tentar mudar. “Só não sei por onde que eu começo.”

Caso pudesse ter seu caso solucionado pelo plantão psicológico, Rosinha teria tido sua alta. Mas, como a solução não dependia do simples querer, e como o problema estava entrelaçado à várias questões e, não obstante, emaranhadas em sua vida, a sua indicação foi para uma psicanálise.

Mas Rosinha não quis. Suave e delicada como uma rosa, não queria se despedaçar novamente. Suave e delicada, pediu um trabalho mais suave, que a ajudasse a resolver sua questão mais pontual e iminente. “Eu entendi o que é melhor, mas estou com receio de ir muito fundo mais uma vez agora…”

Rosinha foi atendida. Sua opção naquele momento foi uma psicoterapia breve de um ano.

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“Não sei se me separo de meu namorado…”

Ângela era uma mulher independente, que já tinha filhos praticamente criados e namorava há mais ou menos um ano. Profissional liberal, podia cuidar das contas e pagar o apartamento independente da pensão do ex-marido. O único problema que relatava era estar num relacionamento que já não era mais o mesmo.

As brigas com o namorado estavam ficando mais frequentes, mas de alguma forma, sempre fazia as pazes e deixava os mal entendidos por isso mesmo, ainda que tomasse alfinetadas vez ou outra… “Ele fica me falando, sabe aquele, dia? Eu lembro, viu? Não esqueci…”

Contabilidade e cuidados, noutrora brilhantes, já não eram mais os mesmos. “Eu acho que estou ficando velha… você pode ver, olhe como estou acabada hoje… Nem lembro quanto pintei os cabelos ou fiz as unhas da última vez… imagine como ficaria se tivesse mais filhos? Cuidar de adolescente é muito difícil, hein?”

Aprofundando-se em suas questões, Ângela acabou observando que estava se desgastando muito com os filhos adolescentes e que sentia falta de quando eles eram pequenos. À partir disso, percebeu também que já estava há algum tempo se dedicando a cuidar dos mimos do namorado. “Olha, noutro tempo eu já teria dado na cara dele algumas vezes… Ou sei lá, mandado ele à… nossa… (risos) … já falei tanto palavrão quando era moça…  agora que não tenho que prestar contas, não consigo… (suspiro)Tem alguma coisa errada comigo, mas ainda não sei o que é. Falta de homem não é… casei duas vezes, não me lembro de ter sentido grande falta quando larguei.”

Não bastando isso, ainda que tendo criado os filhos para serem independentes, estava tentando mimá-los e protegê-los além do que sabia ser o necessário. Ao se dar conta disso, compreendeu que estava deixando de cuidar de si mesma gradativamente.

Ângela não iria deixar os filhos e protestou consigo mesma: “Eu sou mãe, não posso deixá-los.” Por outro lado, concluiu que seria importante deixá-los mais por conta, para que eles pudessem aprender também por si mesmos, os limites. “Acho que consigo fazer, isso… Sabe, sempre falei para eles que era importante saberem se virar nessa vida…”

Além disso, Ângela decidiu terminar com seu namoro. “Eu acho que estou fazendo isso há meses… Sério.  Eu tento não tratar ele como filho, mas ele fica tão comportado, me pede tantas desculpas, que eu acho que no fundo fico mais é com dó… Imagine, eu Ângela … com dó de um homão daqueles? Aff… Eu não quero casar com meu filho, me poupe… (ela fez uma cara séria).”

Ângela obteve uma melhora significativa em poucas semanas.  Arrumou-se melhor para sua última sessão e disse que voltaria caso futuramente se visse em dificuldades novamente. Sentia-se melhor e mais bem localizada em seu espaço.

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“Não consigo estudar pras provas!!!” – Plantão psicológico (2/4) – Exemplos Clínicos

Rosinha* não conseguia estudar para provas e veio até a clínica com essa queixa.  Esforçada, dedicava horas e horas aos estudos, mas… apesar de compreender o conteúdo e ao final do semestre ser aprovada, suas notas eram sempre limítrofes.

De forma geral, sentia-se bem. Sua escolha profissional era muito clara e o convívio social tranquilo. No entanto, vinha experimentando uma sensação crescente de fadiga, pior ainda às vésperas do Enem e das primeiras provas para o vestibular.

A estratégia de Rosinha* era ler muito e depois concentrar todos esforços na semana de provas. Reduzia o sono para 2h ou 3h tentando aprender ainda mais do conteúdo… “Mas nossa, é tenso… às vezes eu acabo cochilando à tarde… Olha, eu tenho até vergonha de falar, sabe? Mas outro dia eu dormi no meio da prova. Ainda bem que ninguém viu… Pior é que quando o professor entrega as provas, parece que eu sei mais ainda e fico me sentindo a burra das provas.”

Eis que havia um problema que merecia reflexão. Como Rosinha* poderia render nos estudos se não dormia? É sabido há tempos que o sono possui uma função reparadora, especialmente em relação ao funcionamento mental e… a coisa nem de longe para por aí…

Mas… não era o caso de entrar em detalhes técnicos com Rosinha* … Ela só queria poder passar no Enem e queria uma assistência de curta duração…

Enfim, Rosinha* entendeu que havia também a necessidade de que aquele conhecimento apreendido requeria um tempo de descanso para ser utilizado, como se fosse necessário esperar a poeira baixar para tal. E olhe que nem foi necessário falar tecnicamente de Piaget ou assimilação e acomodação…

Como era semana de provas, Rosinha* considerou o descanso como uma alternativa na qual fosse interessante investir, afinal, já havia estudado todo o assunto. “É… eu acho que sim… meio exagerado, né? Mas a gente fica vendo todo mundo falando que é só se esforçar bastante. Eu acho que tô é ficando maluca. Vou tentar fazer só uma revisão pra ver o que acontece.”

Feito isso, Rosinha* contou que seu desempenho foi ótimo.  Reservando um tempo maior para sono e entretenimento, ainda que estivesse mergulhada nos livros por algumas horas menos, sentia-se capaz de melhor concentração, menos fatigada e capaz de organizar melhor todos esses afazeres. Satisfeita com o progresso, tomou para si as reflexões alcançadas no plantão e recebeu alta.

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“Qual meu diagnóstico, doutor?”

Eu já tive que responder a essa pergunta algumas vezes no consultório e também é uma pergunta que sempre aparece numa brincadeira ou numa roda de conversa. Mas afinal, de que serve um diagnóstico?

A resposta é…  depende.

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Do ponto de vista mais prático, o diagnóstico pode servir (e serve) para estabelecer algumas vias para alguns tipos de tratamento, especialmente naqueles que implicam em acompanhamento conjunto com outros profissionais. Ou seja, serve para auxiliar no “diálogo” entre profissionais de diferentes áreas (especialmente em relação aos profissionais mais céticos com relação ao trabalho em saúde mental).

Por outro lado, um código do DSM-IV ou do CID10 não traduz a sua subjetividade e nem me diz quem você é em relação à sua história, que por sua vez é constituída de uma série de vivências e sentimentos.

A busca por um diagnóstico pode camuflar uma tentativa de evitar sair de uma determinada linha de investigação e tratamento para não esbarrar em coisas que “tocam a alma”, que são aquelas coisas que você pode ter feito ou deixado de fazer e que são bem diferentes daquela conversa “ah, mas eu já sou resolvido quanto a isso…”.

Quando aplicado à crianças, o diagnóstico requer cuidados especiais, pois eles podem servir como um ponto de identificação e, à partir daí, fazer com que os pequenos atuem tal como se esperam deles.

A essa altura já aparecem aqueles que protestam “a mil raios e trovões”, afinal, uma resposta pronta, rápida e, principalmente “sem margens”, é muito mais fácil de aceitar o quão é extenso e trabalhoso compreender e aceitar que cada pessoa é única.

Sua história e a de todos outros é única, não podendo jamais ser resumida a um modelo ou aos limites postos por esse ou aquela normativa, ainda mais quando se fala de subjetividade.

(revisado e republicado em 07/09/2018)

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“Plantão psicológico? O que é isso? É um plantão mesmo?” – Plantão Psicológico (1/4) – O que é e para que serve

Plantão: por acaso lembra você de emergências, acidentados, médicos e equipe de à postos em pronto socorro? Talvez lembre Plantão Médico ou Dr. House… Talvez, até o Plantão da Globo… Mas, você sabia que existe prática similar em psicologia dedicada às situações de crise? Sim, é o plantão psicológico.

O plantão pode ser, para muitas pessoas, como uma luz no fim do túnel.

O plantão psicológico não é uma prática recente, mas é amplamente aplicada em clínicas-escola dada a variedade de casos clínicos a serem estudados: são histórias de vários tipos, desde brigas entre casais, a questões relacionadas ao trabalho, bem como situações em que há risco de suicídio, dentre outras.

Seu funcionamento consiste na presença de um ou mais psicólogos plantonistas em local e período reservados. Assim, o profissional (aqui incluo os estagiários, obviamente) fica à disposição das pessoas que chegam até o consultório. Dependendo do referencial utilizado (linha de pensamento, vamos dizer), o tempo de sessão pode ser livre, o que implica em sessões de 20 minutos ou noutras de uma hora e meia.

As queixas apresentadas no plantão costumam ter uma boa resolução quando são pontuais, requerendo retornos para que a pessoa possa refletir sobre o que surgiu e como realizou mudanças. Usualmente, são no máximo 4 retornos, podendo haver prorrogação até 8.

Nas próximas semanas publicarei 3 exemplos de casos que podem surgir no plantão.

 

Até a próxima!

                         

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“Quando volto pra minha casa, eu fico muito triste…”

Rosinha já tinha quase 70 anos. De alguns anos para cá passou a receber acompanhamento psiquiátrico no centro de saúde, até aceitar a recomendação de passar por psicoterapia. No consultório, mostrou-se uma pessoa amena, delicada, mas com algumas contradições: “Só quando eu era muito pequena, eu saía com meus irmãos pra matar ratos, cobras, sabe? (risos) Olha que coisa doida, eu menina, caçando cobra pra matar… (risos) Mas aí um dia meu pai me bateu, que falou que era perigoso. (silêncio e ela se encolheu na poltrona) Minha mãe já tinha falado, mas aquele dia eu apanhei muito…”. Era casada com Ulisses, tinha vivido uma vida difícil criando com 5 filhos, mas, dizia viver com um homem que não amava há muito tempo. “Apanhei a vida toda. Vivi isso tudo por conta dos meus filhos, mas agora eles já cresceram, né?”

Ela não parecia cogitar a separação, mas a distância do marido parecia fazê-la feliz: “Olha, vou te contar, pelo menos eu não tenho que cozinhar pra ele, sabe?”.  Curiosamente, a desgraça do marido tinha um efeito parecido… o que se revelava nos sorrisos ao contar que ele tinha caído ou ficado doente. “Nossa, naquele dia que ele caiu da escada na minha frente, eu fiquei olhando ele caído ali no chão assim… (ela arregalou os olhos) e ele gritando pra mim socorrer ele… Juro que eu não sabia o que fazer na hora, sabe? (risos) E olha que eu sou enfermeira… (risos) Eu em pé aqui assim e ele ali com a perna toda dobrada desse jeito assim se arrastando que nem cobra, sabe? (risos) Deu vontade de falar pra ele, não foi você quem não me deixou trabalhar de enfermeira? Agora você quer uma, né? (ela fez uma cara feia, mas riu depois novamente)”. Entristecida Rosinha ficava ao retornar para o mesmo teto que ele: “Geralmente eu tenho ido só com minhas filhas, mas sempre que volto do interior, eu fico triste… Aqui é melhor de viver, mas eu fico muito triste…”.

No fundo, Rosinha queria ver o marido muito bem morto e não era preciso olhar muito à fundo para perceber isso. Entretanto, diante da história de vida que havia apresentado, cheia de ódio reprimido até então, seria muito perigoso (e imprudente) deixar às claras de qualquer forma o que ela desejava de verdade (e que estava reprimido). Isso poderia transformá-la numa homicida de verdade. O companheiro dela estava velho, dependente e se arrastando, enquanto ela, ainda que necessitasse de uma bengala, podia fazer muita coisa.

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Sobre a suposta agressão à idosa na UTI em São Paulo

 

Quando li a primeira reportagem à respeito¹, confesso que me senti inclinado a acreditar na hipótese de agressão. E não sem justificativa. É uma possibilidade horrível, mas real, a de um sujeito dedicado ao cuidado partir para o oposto. E razões muitas vezes não faltam, como cargas de trabalho extenuantes, dificuldade em cuidar da saúde física e mental, ter que arcar com a cobrança social de “jamais, nem nunca” poder cometer falhas e etc. Só que…

Há elementos que contribuem isolada ou coletivamente para a instalação de quadros confusionais, inclusive já toquei nesse assunto anteriormente²: má oxigenação de sangue, alterações metabólicas, privação de sono, quadros neurotóxicos por efeitos de medicações ou como resultado de outras doenças.

E como detectar isso? É preciso um trabalho em equipe (através de formas de investigação dentro do alcance de cada profissional, preferencialmente, discutindo o caso à dois ou com mais membros). Avaliação do estado mental nestes casos é o básico na coisa toda: é bem simples, fácil de executar, mas é preciso muita cautela, pois há pessoas que conseguem responder adequadamente quase tudo (identidade, idade, data, profissão), mas vão pecar ao lhe responder acerca de ONDE estão.

Acha isso pouca coisa?

Pois bem, imagine um sujeito sem condições físicas de sair da cama, tentando se levantar para ir “ao hospital” por estar com dor? Vamos complicar um pouco esse sujeito e imaginá-lo com uma sutura recente atravessando sua barriga do esterno (osso que segura suas costelas, aí no meio do peito) até abaixo do umbigo uns quatro dedos.

Imaginou?… estou certo de que em alguns causou até arrepio…

Pois bem, querer ir ao hospital (estando em um), levantar pra trabalhar, fazer comida ou qualquer coisa incoerente com o contexto é o suficiente para a ocorrência de um acidente. Camas hospitalares não costumam ter a mesma altura de camas residenciais, elas são altas para que a equipe multidisciplinar consiga executar cuidados e procedimentos com ergonomia (e assim, continuar a prestar assistência preservando o corpo). Além disso, um dos pontos altos de nossa discussão está no elemento que serve para assegurar boa relação custo e benefício entre segurança do paciente e cuidados: as grades.

Mas… as grades não podem ser 100% eficientes…

E aí que está mais um problema. Há pacientes que se esgueiram das formas mais mirabolantes para sair de uma cama, de forma muitíssimo parecida com a que crianças fazem para sair do berço. E às vezes conseguem.

Há os que saem pelos corredores tentando fugir da enfermagem, os que arrancam roupas e até curativos e dispositivos dedicados à manutenção do estado clínico ou monitorização de sinais. Há alguns que de fato vão embora (e pasmem, suas famílias ainda poderão ligar no hospital perguntando se fulano teve alta!)…

Além desses tipos, há também os que caem e se machucam. Essa é uma das razões para que sejam aplicadas medidas de contenção química ou mesmo física. Esta é caracterizada pelo uso de faixas nos punhos, podendo ser aplicada também nas pernas ou mesmo no tronco. Aquela é marcada pelo uso de remédios (ditos “sossega-leão”), que são usados com cautela em decorrência dos efeitos colaterais (piora no quadro respiratório, entorpecimento, dificuldade para se alimentar ou para cumprir com atividades essenciais em seu pós-operatório, por exemplo).

Enfim… não acho que houve agressão. Inclusive já vi paciente em pior estado por conta de uma queda da cama (uma queda de uma cama pode criar uma série de pequenas rupturas em capilares, causando um efeito horrível que se espalha por camadas inferiores da pele, criando “manchas” muito maiores que o ponto lesionado inicialmente).

Mais que isso, espero que essa suposta agressão possa ser descartada a luz de investigações, uma vez que sua comprovação só irá assinalar o quão trágico podem ser as relações humanas dentro de um hospital³.

Obrigado pela leitura!


¹ há duas reportagens do Estadão a respeito:
<http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,enfermeiro-e-afastado-apos-suspeita-de-agressao-contra-idosa-de-78-anos-em-sp,70001742722>
<http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,morre-idosa-que-teria-sido-agredida-por-enfermeiro-em-hospital-municipal-de-sp,70001759484>

² Falei dessa questão em:
“Hoje é 19 de abril de 1983…”: O paciente não fala coisa com coisa, e agora?

³ Sobre relações humanas no hospital:
Combates na linha de frente do hospital e o desastre nas relações humanas


 

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“Psicólogo só conversa?!? Psicoterapia é bate-papo?” – O que se fala no consultório?

Quando se pergunta o que fazemos no consultório, não raras vezes as pessoas pensam que estamos ali somente para ouvir, ficar sentados com cara de paisagem e… pasmem… não dizer nada.

Conversas, bate-papos, e similares estão no cotidiano, assim, é normal que sirvam como referências para outros tipos de “conversas”. Em pleno século XXI, psicologia e psicanálise continuam envoltas num manto de mistério.

Quando uma pessoa vai ao consultório, o profissional que está lá para ouvi-la precisará estar atento tanto ao que ela diz objetivamente quanto ao que diz subjetivamente.

Isso não quer dizer que o profissional esteja lá para dizer o que alguém fez ou deixou de fazer certo ou errado, nem para julgar ou coisas parecidas. O psicólogo ou o psicanalista está lá para ouvir o que você ou algum outro paciente têm a dizer à respeito de uma determinada razão. Pode não parecer tão óbvio num primeiro momento mas, julgar alguém é um instrumento que serve para acabar com qualquer conversa. Mas, não se engane… não julgar não é compactuar com ninguém, já que isso pode facilmente implicar num conluio para fazer parecer que não há nada relevante ocorrendo.

O ser humano é o grande elemento que faz diferença no consultório. Ainda que o profissional esteja ali depois de centenas e até mesmo milhares de paginas lidas, ele não vai ficar fazendo considerações à partir de autores da psicologia ou da psicanálise. E não vai, pois isso só serviria para tomar espaço que é do paciente falar ou, do próprio profissional falar.

O profissional também fala no consultório?!?

Sim, fala, com certeza. Mas, tudo depende de muita coisa. A fala do profissional é uma intervenção e, como a lâmina de um bisturi, cabe ser utilizada com muito critério.

Vamos considerar o primeiro contato de um paciente com um profissional:

  • o paciente foi, conversou com o psicólogo e combinaram um horário.

Ainda que possa parecer pouco relevante, o profissional precisa ter minimamente a consideração de que o paciente não possa vir nesse ou naquele horário por já ter algum outro compromisso prévio. Mas também pode acontecer desse mesmo paciente aceitar qualquer horário.

O psicólogo e o psicanalista precisam “guardar” certas informações que para muitos podem parecer “bobas” mas, que em algum momento vão ter relevância quando se juntarem a outras. Isso acontece porquê há elementos dentro de uma psicoterapia ou de uma psicanálise que só fazem sentido quando observadas em conjunto.

A escuta e a observação das diversas formas de linguagem que uma pessoa emite, são aquilo que o profissional tem para fazer o exame do estado mental. Quando se trata de crianças, são incluídos jogos ou uma caixa de brinquedos, pois é através da brincadeira que elas lidam com suas questões afetivas (ou seja, brincadeira de criança é encarada como coisa séria).

O exame do estado mental está para o exame físico assim como o trabalho dos profissionais de saúde mental está para o trabalho dos profissionais de saúde física.
Diferentemente de um médico, odontologista ou fisioterapeuta que, depois de um pouco de conversa partem para exames físicos, imagens ou laboratoriais, os psicólogos, psiquiatras e psicanalistas têm nas manifestações de seus pacientes o que precisam para examinar. Ou seja, quanto mais é necessário examinar seu paciente, mais é necessário ouvi-los. Por essa razão, às vezes é importante ouvir uma mesma coisa mais de uma vez.

Como uma comparação às investigações que conduzem ao diagnóstico de cálculos renais, vesiculares, tumores e tantas outras coisas, quando se trata da saúde mental das pessoas podemos observar que não é possível:

  • apalpar uma ansiedade;
  • radiografar um estado depressivo;
  • usar contrastes para focalizar melhor uma neurose.

E ainda que no futuro seja possível fazer algo do tipo, doenças mentais se desenvolvem ao longo da vida de uma pessoa, sendo sempre necessário constituir um trabalho específico para cada uma delas, o que implica também no ritmo desse tratamento.

Ou seja:

Cada pessoa tem as suas particularidades, mesmo que possa haver semelhanças no funcionamento psíquico. Ninguém tem a vida igual à outra pessoa, já que não é possível dois ocuparem o mesmo lugar no tempo e no espaço.

Pois bem…

Então… além da conversa servir para exame e tratamento, ainda tem o agravante de cada pessoa ser única?

Sim! E com isso toda uma necessidade do profissional olhar para cada pessoa como única, diagnosticar com base nessas peculiaridades e, planejar um atendimento único para ela!

Por exemplo, algumas pessoas já começam a falar mais livremente dos seus problemas, enquanto outras precisam de mais daquelas conversas de “quebrar o gelo” no começo. Em ambos os casos, não dosar bem o teor da conversa pode ser desastroso, já que um poderia perder interesse ao conversar futilidades e o outro, fugir assustado com uma conversa mais aprofundada sobre algo mais íntimo.

Assim, pode ser necessário para alguns pacientes que o ritmo das primeiras sessões seja mais lento, mais suave, cabendo até mesmo alguma conversa “mais banal”. A “quebra de gelo” pode ajudar a criar um clima mais confortável para que surjam questões mais importantes.

Em contrapartida, alguns dos pacientes mais “soltos” podem tentar falar muito e de muitas coisas para que não haja espaço para o profissional que o examina, dizer muita coisa. Naturalmente, isso implica em outras formas de intervenção.

Depois que os primeiros momentos de uma psicoterapia deram certo, é interessante que a pessoa vá ficando mais à vontade para “se mostrar” afetivamente. Chegar a esse ponto pode levar bastante tempo, já que pode carregar tanta tensão quanto é para algumas pessoas, o ato de “tirar a roupa” para ser examinada pelo médico.

Conforme a pessoa vá entrando nesse caminho para se descobrir, redescobrir, pensar, repensar coisas que estão presentes e até mesmo outras, que ela pensava já estarem resolvidas, é natural que o profissional passe a lidar com mais e mais “mecanismos de defesa”. Esses mecanismos funcionam basicamente para evitemos sofrimento psíquico, de forma mais ou menos parecida com que se evita sofrimento físico, o que pode incluir manifestações de sintomas como:

  • esquecimentos totais ou parciais de momentos importantes;
  • dores inespecíficas;
  • doenças psicossomáticas.

Quando o profissional se depara com “defesas” é de primordial importância que a conversa de consultório não caminhe como uma conversa comum. São em momentos que o paciente gagueja, fala alguma coisa fora do contexto, diz que esqueceu ou muda de assunto sem terminar o anterior que requerem mais atenção.

Os atos falhos, lapsos de memória, dores inespecíficas (incluindo não raramente dores de cabeça e reações auto-imunes), costumam ter conexões com questões psíquicas bastante importantes mas… são coisas que o paciente não percebe ou, na melhor das hipóteses, tem alguma ideia delas.

E aí é que se segue outra parte desse trabalho, surgindo interrogações sobre o que causou tais manifestações dos mecanismos de defesa e, ao mesmo tempo, a necessidade ou de manter um assunto em pauta ou, de explorar a própria manifestação da “defesa”. E tudo isso, dentro dos limites do suportável para seu paciente (afinal, se ele não percebe algo, é porquê há razões para isso).

Muito provavelmente você deve estar percebendo que o trabalho de consultório não é apenas uma conversa. Aqui eu coloquei de forma ilustrativa um cenário que se pode ter no divã ou na poltrona mas, não coloquei uma problemática específica, pois isso tornaria tudo mais complicado para entender.

Em plenos século XXI ainda há quem tente desqualificar o trabalho dos profissionais de saúde mental, mas é algo que normalmente é possível encarar como sintoma, já que esse tipo de coisa costuma funcionar através de uma via “defensiva” (que também inclui atacar ao outro para defender uma espécie de “paz” interior, que no fundo costuma ser uma grande mentira).

Em suma:

O assunto no consultório tem que ser algo importante para o paciente e que possa ser sentido por ele desta forma.

*(artigo editado em 14 de julho de 2018 – Julguei melhor rever algumas colocações, deixar o texto mais leve e acessível. Inclusive, condensei algumas ideias e eliminei a terceira parte dessa série, para não ficar com texto redundante.)

**(na revisão de 24 de outubro de 2019 – revi novamente as colocações e lancei mais luzes ao que estava obscuro.)

Destaque

Assédio, culpa, perdão e desculpas – Limites do corpo e da alma

Causa-me perplexidade, mas não surpresa, que em pleno século XXI algumas pessoas tentem virar o jogo e culpar a mulher ou justificar o homem diante de crimes sexuais.  Diante da denúncia pública de uma artista contra um artista famoso, colega de trabalho, li coisas que de forma recorrente aparecem e reaparecem. Elas vão desde falas que questionam inapropriadamente como “ah, mas outras não denunciaram porquê? Estavam gostando?”, “ah, mas como ela estava vestida?”, até outras ainda mais aberrantes como… “ah, mas o problema foi a minha criação machista”.

Menos!

Tanto corpo e alma (mente, inconsciente, diga como quiser dentro do seu devido contexto) têm os seus limites de acordo com cada sujeito. É aquilo que ele estabelece de formas diferentes de acordo com determinados contextos e com sua história de vida.  Ou seja, tocar na intimidade de uma pessoa demanda a construção de uma relação e uma disposição para tal, não apenas acerca do que diz respeito ao concreto, mas também, ao subjetivo.

Por exemplo, uma mulher pode desejar e pedir que a pessoa que é sua parceira sexual, lhe chamar de nomes chulos que a maioria dos senhores e senhoras sabem bem quais costumam ser. Pode inclusive se insinuar sexualmente, seja através de sua roupa ou gestos. Só que isso é algo íntimo, entre parceiros ou parceiras, fora dali a conversa é noutro tom. Ou seja, a liberdade foi cedida numa determinada situação e não tomada, permitindo a ambos gozar dela.

Num segundo exemplo mostro que mesmo num consultório é possível ser invasivo com um paciente, é só não respeitar o tempo dele de falar.

Neste caso, em atendimento domiciliar (lá no começo de minha atuação em tal contexto) eu tinha o costume de fazer vários questionamentos, investigar, perguntar acerca do que estava incomodando, tentando agregar o máximo de informações. Assim, não bastando estar entrando na casa das pessoas conforme a equipe multidisciplinar pedia, na medida que as portas de pacientes e seus cuidadores fechavam-se, dei-me conta de que estava indo além do que aquelas pessoas poderiam suportar, ou seja, estava sendo invasivo.

Tocar na intimidade não é apenas tocar ou entrar nas partes íntimas, é muito mais que isso. É também invadir o espaço subjetivo ao qual o físico sempre estará conectado e ao qual sempre estará fundido.  Trata-se de lidar com a história do sujeito e com as construções que ele possui quanto aos limites de corpo e alma. E vale ainda dizer: há barreiras no inconsciente que servem para proteger o sujeito do que lhes pode fazer mal, assim como estão ali mãos, pernas e roupas para proteger o corpo concreto. Por isso, violar esses limites pode ser absolutamente devastador.

Justificar não basta e aprendizado não se faz do dia para a noite. Já dizia Piaget que as coisas precisam ser assimiladas e acomodadas após certo tempo. Em psicanálise, considera-se a existência de um processo de elaboração, uma construção de algo para operar uma mudança.

É isso.

Obrigado pela leitura e até a próxima.

Destaque

“Aquele moço veio aqui e disse que ia aferir minha glicemia, mas não entendi nada e ele também não voltou…” – E então… seu paciente está entendendo você?

Certa vez entrei num quarto e logo de cara me deparei com um paciente com um ar assustado.  Ele estava ansioso, inquieto, desconfiado. não me surpreendeu que estivesse com a pressão alta…

Conversando com ele um pouco, até chegar ao que o preocupava, falou: “Aquele moço veio aqui e disse que ia afinar, afilar… uma coisa assim… (“Aferir?” perguntei) … isso, aferir minha glicemia, um negócio assim… e aí ele não voltou mais… (“Mas… e aí, o que você entendeu dessa tal de glicemia?” perguntei) Ah, eu entendi foi é nada, só sei que ele veio aqui, furou meu dedo e foi pra lá e não voltou mais…”

Ficou óbvio que o paciente não sabia nem o que era aferir e muito menos o que era glicemia. Ele havia acabado de ser internado para uma cirurgia renal e estava ansioso por não entender nada daquilo que haviam falado para ele, muito menos a razão do procedimento pelo qual havia passado. Até então, lá com seus quarenta e pouco, tinha apenas uma pedra no rim, que nem doía…

Não só no hospital, mas em outros lugares há um mau uso e uma má alocação de recursos linguísticos que não ajudam nada (tais como aquelas expressões”no sentido de” e a “à nível de”, dentre outras). Ainda que nossa língua esteja repleta de recursos, seja na variedade de sinônimos ou estilística, utilizá-los requer contextos e propósitos adequados. Numa instituição pública como um hospital geral, é bastante comum a presença de um público bastante simples, então falar complicado pode facilmente ser sinônimo de não comunicar nada.

É importante se questionar, refletir se de fato seu paciente entendeu o que foi dito para ele, se ao menos a linguagem foi clara. A formação de alguns quadros de ansiedade pode estar vinculada a não compreensão da informação passada e quando isso pode ser percebido logo no início, é mais fácil de tratar.

Em tempo, convém ressaltar que a dificuldade de assimilar informações ainda pode estar vinculada a algum tipo de resistência (aquela conceituada pela psicanálise, que diz respeito ao não poder lidar com determinada situação por uma limitação psíquica naquele momento).  Quanto a essa dificuldade, falarei sobre ela em um futuro artigo.

Ah.. quanto ao meu paciente, acabou entendendo que aquele tal exame servia para medir o nível de “açúcar” em seu sangue e nada mais que isso. Inclusive, o valor obtido e anotado em seu prontuário estava dentro da normalidade.  “Ah, então era só isso?!?” No fim das contas passou a rir do ocorrido no restante da tarde (inclusive sozinho).  Ficou mais calmo e sua pressão normalizou. Quanto a tal “glicemia”… continuou tão boa quanto antes, afinal, nem diabético ele era.

😀

 

Destaque

Sintoma

A origem da palavra diz, dentre várias coisas, má sorte e encontro fortuito.  Na área de saúde, sintoma pode ser febre, uma alteração em alguns outros parâmetros, como pressão alta, “diabetes alta”, dor e outras coisas.  Em saúde mental, em psicologia e em psicanálise, posso dizer que em certa medida a coisa também não foge disso. Vamos dizer que elas dizem respeito a dilemas, angústias e anseios, por exemplo, de um sujeito.

Para facilitar um pouco o entendimento de algo que pode ser um bocado complicado… um sintoma é a ansiedade, a sensação de pânico, a tristeza, falta de vontade, a mania ou a repetição de um mesmo erro.

Da mesma forma que uma febre remete a questão “ao que essa febre está relacionada?”, os sintomas psíquicos também podem abrir espaço a questionamentos como por exemplo, “o que esse pânico quer dizer em relação a história desse sujeito?”.

Sintomas são traços evidentes de vida do sujeito, seja sobre o sujeito e o seu estado, se ele está ou se algo lhe faz bem ou mal. É algo que ao se mostrar, possui um significado peculiar e único para uma única pessoa.

Na medida em que se analisa um sintoma é possível entendê-lo e ao sujeito com maior profundidade, inclusive é uma via para pesquisar pontos de conflito, recordá-los e reelaborá-los.

(artigo revisado em 02 de dezembro de 2018)

Destaque

Psicólogos e psicanalistas só ouvem?

Essa é uma coisa bem comum de se ouvir, tanto na forma de questionamento, quanto crítica ou queixa. Para cada teor de pergunta, uma resposta.

Em se tratando de questionamento:
é importante que o profissional mais escute que fale.

A fala é o meio pelo qual o profissional “examina”, “analisa” o que está acontecendo. E ele fala pouco para manter um assunto em pauta, para esclarecer um ponto obscuro, para realçar uma fala que pareceu “meio solta” ou “aleatória” e que pode carregar uma importância que o paciente não seu deu conta.

Isso precisa sempre ser assim?
Depende.

Para cada paciente uma dose diferente de silêncio. Se pensarmos que para algumas pessoas a solidão é uma questão muito complicada de trabalhar, pode ser que neste caso, o analista tenha que mostrar que está ali mais vezes. Entretanto, chegará a hora em que essa dificuldade de lidar com solidão seja colocada à prova e se torne uma questão para ser tratada na análise. Ou seja, mesmo que seja considerado que o sintoma do paciente requeira um ritmo singular, isso não quer dizer que ele deverá ser ignorado pelo analista, devendo ser tratado na medida do suportável, sem comprometer a análise, seja por paralisia ou pelo oposto.

Em se tratando de silêncio:
– ele é necessário, mas também tem a sua dose.

Quem fala é aquele que se expõe, seja qualquer lugar. Portanto, um analista ou terapeuta que fique falando demais pode acabar tomando o espaço de seu próprio paciente, o que acaba sendo um bocado problemático, como ilustrei no conto ““Ir no psicólogo? Eu fui em uma que estava me deixando mais doida que eu era…” – Um louco no consultório –”.
A fala do profissional requer cuidado para ser utilizada com precisão, já que está lá como um bisturi, espaçadores, pinças e tantas outras coisas delicadas numa cirurgia. Com tudo isso voltado ao paciente, imagine o quão confuso não pode ficar se o profissional trazer suas questões para o atendimento alheio?

Há críticas ao silêncio, mas também requerem do paciente que ele fale sobre isso ao profissional, afinal, ele está lá para ouvir sobre isso também e, isso pode implicar numa revisão de como o tratamento é conduzido. Profissionais perfeitos não existem nem nunca existiram. Tenha certeza que para fazerem bons trabalhos, tiveram seus deslizes e que precisaram repensar algumas de suas condutas.

Ou seja, em relação às queixas quanto ao silêncio do profissional, é preciso que elas também sejam levadas a ele, pois isso também é assunto para análise ou terapia.

(artigo revisado em 21 de setembro de 2019 e em 25 de fevereiro de 2020)

“Estou no terceiro casamento… eles sempre me traem…”

Removidos links e alguns comentários à respeito das ligações do conto com o trabalho feito no plantão psicológico.

Oficina de literatura & PSicanálise

Rosinha é relativamente jovem. Tem 4 filhos, dois do primeiro casamento e os outros dois dos posteriores, sendo que a menina mais nova tem pouco mais de um ano. Se em sua vida tudo ocorresse como gostaria, eis que teríamos uma mulher feliz apesar das preocupações em como cuidar da prole… mas não… entre um olhar e outro para o vazio ou para o chão, os olhos se enchem de lágrimas sem que ela saiba porquê, os sentimentos lhe saltam à razão e brotam e rolam pelo rosto na forma de lágrimas. “Eu acho que o que motiva são meus filhos, que se eles não tiverem eu, a quem vão recorrer? Não posso ficar ruim assim, não…”

Nos relacionamentos anteriores, Rosinha foi traída por seus maridos, resultando em brigas e separações. Se fosse dada a esquecer por conta da “idade”, como dizia e nem tinha, talvez não tivesse ido tão longe…

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