Ansiedade – Isso é traço de personalidade?

Ansiedade não é um traço de personalidade. O que costuma acontecer é a existência de mecanismos que acabam validando esse sintoma como tal. Muitas vezes a pessoa convive há tanto tempo com ela que de certa forma “se acostuma”, sendo mais grave ainda quando há uma série de outras pessoas dentro da mesma família com o mesmo problema.

Basicamente, a ansiedade está ligada a expectativa da realização de algo, incluindo a não realização. Por mais estranho e bizarro que possa parecer, sim, às vezes é importante a “não-realização” de alguma coisa, como por exemplo, na síndrome do pânico. Esta síndrome, por sua vez, tão logo o paciente comece a falar dela, mostra-se como um quadro complexo de questões afetivas colocadas umas sobre as outras repetidamente e por um tempo muito além do suportável.

Nos casos onde há um comprometimento de atividades, como dificuldade de concentração acentuada, insônia, irritabilidade, angústia, ejaculação precoce, bulimia, cabe sim consideração a avaliação psiquiátrica. Entretanto, ainda que por via medicamentosa possa haver uma melhora dos sintomas, a problemática que a origina continuará lá até que a pessoa mude coisas na vida, algo que muitas vezes irá requerer assistência psicológica.

Ansiedade tem uma coisa em comum com a febre: você não escolhe ter mas, pode tratar. Há meios para isso, consulte um profissional de saúde mental.

Dá pra escolher um psicoterapeuta?

Dá sim e para algumas pessoas isso acaba sendo necessário.

Como já mencionei em outros artigos, há certa frequência em ouvir dos pacientes e de outras pessoas, casos, pérolas e até aberrações acerca da atuação de alguns profissionais de saúde mental. Não vou criar um dez passos pra selecionar seu psicoterapeuta, psicanalista ou psiquiatra ou seja lá o que for, pois isso seria absurdo também, então vou me limitar a tentar ajudar a pensar em alguns pontos acerca dessa escolha. Há, de fato, algumas coisas bastante simples que podem facilitar.

O primeiro passo, é se dispor a encontrar alguém para lhe ouvir. Ouvir é bem diferente de concordar com aquilo que você diz. O profissional poderá lhe pedir para esclarecer uma contradição que você nunca percebeu que existia, por exemplo, o que pode resultar em algum embaraço para algumas pessoas.

Você não está procurando um juiz, então, considere que não está lá para ser julgado. Mas, considere, avalie também se você está mesmo sendo julgado ou se não está tentando se defender de algo sem saber a razão.

O tempo da conversa precisa ser minimamente suficiente. Não consigo imaginar uma consulta de cinco minutos servindo para diagnosticar aquilo que é sintoma de uma vida inteira. É mais ou menos como querer falar de um rio inteiro só pela amostra colhida onde ele desemboca. E convenhamos… uns minutos de conversa sempre serão pouco diante do tempo que você já viveu sua vida.

O diagnóstico pode facilitar algumas direções e alguns passos para alguns tipos de tratamento mas nunca irá dizer tudo sobre você e às vezes pode dizer nada. Tratamento em saúde mental não tem como seguir um padrão de procedimentos como o de consertar um carro, fazer uma reforma ou uma cirurgia, pois se trata de lidar com a história de um sujeito.

Em suma, o tempo precisa ser suficiente pra você e a conversa lhe dar alguma sensação de conforto e acolhimento, são alguns pontos breves para saber se encontrou um profissional adequado para você. Na dúvida, leve primeiramente o incômodo ao profissional que lhe atende. Você pode tentar encontrar outro profissional para conversar, se informar melhor, talvez até tirar alguma dúvida. Às vezes é preciso procurar mais de uma vez para encontrar onde dar certo.

 

Todavia, um outro alerta. Nem todo desencontro é por culpa dos profissionais. Há casos com os quais um bom psicoterapeuta ou psiquiatra não poderão compactuar, parecendo para seus pacientes, pessoas ruins, quando na verdade estão fazendo “males” necessários. Sempre há singularidades em cada um dos casos, inclusive a possibilidade de um paciente querer encontrar alguém que lá no fundo, se disponha a um acordo silencioso de não tocar na ferida para fazer um tratamento (falso) em banho maria.

 

Bem, por enquanto é isso. Caso queira ler mais sobre o assunto, há alguns links linhas abaixo. E se gostou da leitura, não se esqueça de curtir e compartilhar. Poste também sua mensagem, pois curtir, compartilhar e comentar ajudam a delimitar os assuntos para serem trabalhados aqui.

Obrigado pela leitura e até a próxima!!


Sugestões para leitura:

Reeditado em 19 de novembro de 2017 às 15h45

Não sou juiz, mas… (sobre o caso da Avenida Paulista)

Não me compete fazer o julgamento de ninguém. Não estudei pra isso e, ainda que tenha toda uma simpatia pelo Direito, uma vez que ele faz parte de nossa sociedade, vou tomar a liberdade de me aventurar um pouco nesse campo hoje. Até porquê… estou aqui até agora me perguntando sobre que cargas d’água fizeram dar liberdade ao homem que estava ali se divertindo às custas de uma passageira de ônibus.

Divertindo-se?

Sim. O ato sexual, sua simulação ou coisas relacionadas são destinadas ao prazer. O orgasmo é o clímax disso e ponto.

Mas… esse é um ponto que pode implicar em uma ou mais pessoas. E obviamente não foi o caso da moça lá na Avenida Paulista. Sabe-se lá no que ela estava pensando, se nas suas contas, se em algum passeio ou em qual ponto desceria. Li que ela estava dormindo. Não importa, ela foi tomada como objeto de prazer sem que pudesse se defender do sujeito malicioso em questão.

Dizer que não houve violência é uma terrível bobagem, uma vez que o sujeito atirou nela o seu gozo, concretamente falando. Ela, a moça, só estava ali. Não pôde se defender e ao que o roll de informações publicadas diz, ela ficou em choque. Sabe-se lá o que passou pela cabeça dela e quantas voltas ela deu ali sozinha consigo mesma parada na Avenida Paulista no meio da multidão.

É óbvio que houve uma violência. Sêmen pode ser limpo com água e sabão, preferencialmente um bactericida, pois vai saber se o sujeito não é portador de doença venérea… O corpo físico está ok. A roupa, é só lavar também.

Agora, vá lá dizer que o que a moça sofreu vai passar… Vai passar quando? Em um ano, dez, vinte? Ela vai conseguir continuar um namoro, caso tenha? Ela vai se relacionar com algum homem depois do ocorrido? Quando? Vai suportar alguma relação sexual no futuro e conseguir construir uma família?

Pasmem!! Eu não posso, não estudei e nem trabalho com Direito e nem sou um jurista, mas não é admissível que profissionais de outras áreas venham até a Saúde Mental dar seus pitacos baseados em conversas, revistas de senso comum ou mesmo livros de literatura rasa sobre o assunto. Saúde mental é pra quem ficou pelo menos CINCO anos na faculdade e nesse caso, a quem compete dizer se houve dano ou não são esses profissionais. Estamos disponíveis para laudos, pareceres, relatórios e, quando for o caso, pra consultas e tratamentos de curto, médio e longo prazo. Ou seja, podemos dar suporte a outros profissionais.

Não sou radical a ponto de dizer “cada macaco no seu galho”, mas que cada um, respeite o galho alheio e que converse com o vizinho antes de se propor a pular no do outro pra resolver tudo sozinho.

 

Obrigado pela leitura e até a próxima.

“Estou no terceiro casamento… eles sempre me traem…”

Rosinha é relativamente jovem. Tem 4 filhos, dois do primeiro casamento e os outros dois dos posteriores, sendo que a menina mais nova tem pouco mais de um ano. Se em sua vida tudo ocorresse como gostaria, eis que teríamos uma mulher feliz apesar das preocupações em como cuidar da prole… mas não… entre um olhar e outro para o vazio ou para o chão, os olhos se enchem de lágrimas sem que ela saiba porquê, os sentimentos lhe saltam à razão e brotam e rolam pelo rosto na forma de lágrimas. “Eu acho que o que motiva são meus filhos, que se eles não tiverem eu, a quem vão recorrer? Não posso ficar ruim assim, não…”

Nos relacionamentos anteriores, Rosinha foi traída por seus maridos, resultando em brigas e separações. Se fosse dada a esquecer por conta da “idade”, como dizia e nem tinha, talvez não tivesse ido tão longe em sua história e nem a fundo a ponto de se recordar de coisas parecidas que já haviam acontecido antes, incluindo traições de seus então namorados. “Eu devo ter algum problema sério, porquê sempre escolho errado… Ou minha mãe que tá certa, ela diz que homem nenhum presta”.

Como se não bastasse, a mãe de Rosinha também foi traída, casou duas vezes e não mais. Não bastasse ser a pessoa mais próxima, não causa surpresa ser com quem mais essa jovem mulher se identifica. “Nossa, somos muito parecidas, sabe? Até quando a gente faz comida as pessoas não sabem se foi eu ou ela quem fez.”

Rosinha, crente de que tinha que aguentar todos desafios nessa vida, tentou suportar tudo. Ou, quase tudo… afinal, devia ter alguma coisa que lhe permitisse mudar de direção, afinal, tinha mudado de namorado, de marido e de casa. “Vai, eu não fui santa, eu acho… porquê antes de terminar eu já estava querendo ficar com outro… acho que não foi certo, né? Mas é que assim, nossa, é muito ruim pra mim… assim, ficar sozinha…”

No decorrer do plantão, Rosinha, que estava certa de que um pouco de conversa, em meio solidão que sentia, resolveria, percebeu que pétala à pétala, vinha se acabando aos poucos. Se fosse uma planta, não haveriam dúvidas de sua força, mas aquilo tinha um limite e o desafio maior não talvez não fosse aquele que estava certa enfrentar

Se a questão fosse pura e simplesmente despachar um marido, um namorado ou companheiro que fosse, Rosinha já sabia como fazê-lo, inclusive teria despachado suas questões e não mais se haveria com elas, tampouco teria se desgastado tanto. Aquilo que parecia uma gota de água, era uma torneira aberta, transbordando na pia…

Rosinha ficou triste. Mas, se fosse dada a se abater pela tristeza, não teria ficado contente por se conhecer melhor, tampouco por começar a compreender seu papel em sua história e que isso lhe dava a chance de tentar mudar. “Só não sei por onde que eu começo.”

Caso pudesse ter seu caso solucionado pelo plantão psicológico, Rosinha teria tido sua alta. Mas, como a solução não dependia do simples querer, e como o problema estava entrelaçado à várias questões e, não obstante, emaranhadas em sua vida, a sua indicação foi para uma psicanálise.

Mas Rosinha não quis. Suave e delicada como uma rosa, não queria se despedaçar novamente. Suave e delicada, pediu um trabalho mais suave, que a ajudasse a resolver sua questão mais pontual e iminente. “Eu entendi o que é melhor, mas estou com receio de ir muito fundo mais uma vez agora…”

Rosinha foi atendida. Sua opção naquele momento foi uma psicoterapia breve de um ano.

“Não sei se me separo de meu namorado…”

Ângela era uma mulher independente, que já tinha filhos praticamente criados e namorava há mais ou menos um ano. Profissional liberal, podia cuidar das contas e pagar o apartamento independente da pensão do ex-marido. O único problema que relatava era estar num relacionamento que já não era mais o mesmo.

As brigas com o namorado estavam ficando mais frequentes, mas de alguma forma, sempre fazia as pazes e deixava os mal entendidos por isso mesmo, ainda que tomasse alfinetadas vez ou outra… “Ele fica me falando, sabe aquele, dia? Eu lembro, viu? Não esqueci…”

Contabilidade e cuidados, noutrora brilhantes, já não eram mais os mesmos. “Eu acho que estou ficando velha… você pode ver, olhe como estou acabada hoje… Nem lembro quanto pintei os cabelos ou fiz as unhas da última vez… imagine como ficaria se tivesse mais filhos? Cuidar de adolescente é muito difícil, hein?”

Aprofundando-se em suas questões, Ângela acabou observando que estava se desgastando muito com os filhos adolescentes e que sentia falta de quando eles eram pequenos. À partir disso, percebeu também que já estava há algum tempo se dedicando a cuidar dos mimos do namorado. “Olha, noutro tempo eu já teria dado na cara dele algumas vezes… Ou sei lá, mandado ele à… nossa… (risos) … já falei tanto palavrão quando era moça…  agora que não tenho que prestar contas, não consigo… (suspiro)Tem alguma coisa errada comigo, mas ainda não sei o que é. Falta de homem não é… casei duas vezes, não me lembro de ter sentido grande falta quando larguei.”

Não bastando isso, ainda que tendo criado os filhos para serem independentes, estava tentando mimá-los e protegê-los além do que sabia ser o necessário. Ao se dar conta disso, compreendeu que estava deixando de cuidar de si mesma gradativamente.

Ângela não iria deixar os filhos e protestou consigo mesma: “Eu sou mãe, não posso deixá-los.” Por outro lado, concluiu que seria importante deixá-los mais por conta, para que eles pudessem aprender também por si mesmos, os limites. “Acho que consigo fazer, isso… Sabe, sempre falei para eles que era importante saberem se virar nessa vida…”

Além disso, Ângela decidiu terminar com seu namoro. “Eu acho que estou fazendo isso há meses… Sério.  Eu tento não tratar ele como filho, mas ele fica tão comportado, me pede tantas desculpas, que eu acho que no fundo fico mais é com dó… Imagine, eu Ângela … com dó de um homão daqueles? Aff… Eu não quero casar com meu filho, me poupe… (ela fez uma cara séria).”

Ângela obteve uma melhora significativa em poucas semanas.  Arrumou-se melhor para sua última sessão e disse que voltaria caso futuramente se visse em dificuldades novamente. Sentia-se melhor e mais bem localizada em seu espaço.

“Não consigo estudar pras provas!!!” – Plantão psicológico (2/4) – Exemplos Clínicos

Rosinha* não conseguia estudar para provas e veio até a clínica com essa queixa.  Esforçada, dedicava horas e horas aos estudos, mas… apesar de compreender o conteúdo e ao final do semestre ser aprovada, suas notas eram sempre limítrofes.

De forma geral, sentia-se bem. Sua escolha profissional era muito clara e o convívio social tranquilo. No entanto, vinha experimentando uma sensação crescente de fadiga, pior ainda às vésperas do Enem e das primeiras provas para o vestibular.

A estratégia de Rosinha* era ler muito e depois concentrar todos esforços na semana de provas. Reduzia o sono para 2h ou 3h tentando aprender ainda mais do conteúdo… “Mas nossa, é tenso… às vezes eu acabo cochilando à tarde… Olha, eu tenho até vergonha de falar, sabe? Mas outro dia eu dormi no meio da prova. Ainda bem que ninguém viu… Pior é que quando o professor entrega as provas, parece que eu sei mais ainda e fico me sentindo a burra das provas.”

Eis que havia um problema que merecia reflexão. Como Rosinha* poderia render nos estudos se não dormia? É sabido há tempos que o sono possui uma função reparadora, especialmente em relação ao funcionamento mental e… a coisa nem de longe para por aí…

Mas… não era o caso de entrar em detalhes técnicos com Rosinha* … Ela só queria poder passar no Enem e queria uma assistência de curta duração…

Enfim, Rosinha* entendeu que havia também a necessidade de que aquele conhecimento apreendido requeria um tempo de descanso para ser utilizado, como se fosse necessário esperar a poeira baixar para tal. E olhe que nem foi necessário falar tecnicamente de Piaget ou assimilação e acomodação…

Como era semana de provas, Rosinha* considerou o descanso como uma alternativa na qual fosse interessante investir, afinal, já havia estudado todo o assunto. “É… eu acho que sim… meio exagerado, né? Mas a gente fica vendo todo mundo falando que é só se esforçar bastante. Eu acho que tô é ficando maluca. Vou tentar fazer só uma revisão pra ver o que acontece.”

Feito isso, Rosinha* contou que seu desempenho foi ótimo.  Reservando um tempo maior para sono e entretenimento, ainda que estivesse mergulhada nos livros por algumas horas menos, sentia-se capaz de melhor concentração, menos fatigada e capaz de organizar melhor todos esses afazeres. Satisfeita com o progresso, tomou para si as reflexões alcançadas no plantão e recebeu alta.