Considerações sobre o atentado de 11/12 na Igreja em Campinas

Notas breves:
– esse artigo não é um posicionamento sobre desarmamento;
– não se trata de defender o crime;
– não é um artigo favorável aos manicômios ou exclusão.

Quando comecei a escrever esse artigo estive pensando em meus amigos, conhecidos, familiares, na minha profissão, em pacientes e tantas outras coisas. Afinal… algumas das vítimas eram da minha vizinhança onde cresci boa parte da infância e juventude, o que me deixa muito próximo de pessoas que estão sentindo a dor da perda.

Pois bem, assim que abri as primeiras linhas, me deparei com a pergunta “como alguém pode cometer tamanha brutalidade?”, mas, a apaguei por se tratar de um termo que não convém e nem serve para ilustrar a dimensão de tudo o que ocorreu. Quanto a explicar, estou certo que uma parte dessa história jamais terá uma explicação.

A mídia tem levantado bastante informações junto às declarações da investigação do caso, já havendo o bastante para refletir sobre o que levou o sujeito a um atentado, a um crime.

Apenas para deixar bastante claro, não se trata de defender um crime, afinal, se vivemos numa sociedade de direitos, é preciso sim arcar com as penalidades àqueles que a violam. Entretanto, cabe refletir e buscar explicações sobre o que aconteceu e é o que estou propondo aqui.

Eu não sei se há estatísticas sobre o que acontece com as pessoas que não são atendidas pelo SUS, mas quando são pessoas fisicamente doentes que vão a um hospital e elas não são atendidas (ou não atendidas adequadamente), sabemos que elas sofrem com agravos, às vezes culminando em suas mortes. Cabe considerar ainda que alguém doente, menos esclarecido ou mais humilde (ou tudo isso junto), como a maioria do público dependente desse sistema de saúde, não vai fazer outra coisa se não se preocupar com a própria saúde. A pessoa doente tende a ficar com recursos financeiros ainda mais escassos, então não espere “movimentos dos doentes” pipocarem algum dia por aí, essas pessoas querem melhorar para voltar a trabalhar para terem o que comer!

Pois bem. Quando o problema é mental a coisa acaba se desenrolando de uma forma muito peculiar, a começar da realidade dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que é bastante dura. Para quem não sabe do que se trata, eles são dedicados a prestar assistência em saúde mental mais ou menos como as unidades básicas de saúde fazem pelo bem estar físico (isso bem resumidamente, mas para facilitar a compreensão).

Ainda em relação aos CAPS, muitos dos pacientes que começam a fazer acompanhamento, vão ficar lá em acompanhamento contínuo enquanto morarem naquela vizinhança, seja através de consultas, avaliações psicológicas, psiquiátricas, pegando seus remédios ou etc. Isso significa que eles não receberão alta e que não serão abertas vagas a todas as pessoas carentes de atenção em saúde mental.

E o que acontece então?

Sempre há grande chance de agravamento do quadro, salvo quando o sujeito consegue um acompanhamento em clínicas-escola (que só funcionam em período letivo, o que não é bom para casos mais graves) ou paga um tratamento.

Quando não há opção nenhuma, há toda a sorte de desdobramentos possíveis:

  • portadores de depressão podem se matar e se matar junto com alguém;
  • neuróticos graves podem se isolar por conta de seu comportamento e até “consumir” a sanidade mental das pessoas que com ele convivem;
  • agressão: ela pode ser um soco aleatório em alguém na rua, inclusive em policiais, uma facada em algum parente, um atirar de objetos nas pessoas ou balear alguém, como no caso recente. O que significa que qualquer coisa ao alcance de uma pessoa “surtada”, incluindo os próprios punhos e até dentes, pode servir para atacar outra pessoa e até ela mesma.

Eu poderia facilmente ampliar esse leque de complicações possíveis para doenças mentais, mas não é necessário. O ponto mais importante é:

o agravamento de uma doença mental pode não apenas piorar a condição de vida do doente, como ter consequências para as pessoas ao seu redor a curto, médio ou longo prazo.

E isso pode se dar de algumas várias formas, como:

  • uma espécie de naturalização da doença, que é quando as pessoas consideram normal uma “esquisitice” e passam a assumir isso como traço de personalidade do sujeito, tal como algo que jamais mudará. Nessa condição, as pessoas ao redor não conseguem perceber a piora do quadro, sendo surpreendidas por alguma ação “sem sentido aparente”.
  • as ações da pessoa doente começam a afetar as pessoas em volta por conta de inadequação ao contexto, como andar sem roupas, ignorar os carros numa avenida, gastar ou guardar coisas de forma bizarra.

Levantar essas informações também é pouco e não é minha intenção que as pessoas por aí tentem virar psicólogos ou psiquiatras (não são de cinco anos para cima por pouca coisa) mas, cabe questionar não apenas aquilo que é exacerbadamente estranho, como também cabe questionar e cobrar do Estado uma atitude frente a saúde mental enquanto cobramos mais de políticas públicas.

A vida das pessoas que dependem desse tipo de serviço não costuma ser fácil. As clínicas escolas estão sempre abarrotadas de pacientes nos plantões psicológicos e com outros em fila de espera, não por acaso. Há muita gente precisando de assistência ficando de fora e são problemas que, mesmo inciando como individuais, podem ter sérias consequências para muitos outros.

No caso do atentado, arrisco-me a dizer que ali não houve nem surto e talvez nunca tenha havido depressão. As pessoas ficam tristes com perdas de pessoas próximas e isso ocorre também em quem padece de alguma doença mental. Chorar e ficar recluso por causa de uma perda é normal.

O que acontece e que muitas pessoas não sabem, é que uma pessoa que tem alucinações visuais ou auditivas (vê e ouve coisas) se recolhe para evitar ter ainda mais alucinações. Ou seja, isolamento também não é algo a ser considerado como depressão. Aliás, tem muita gente com depressão, esquizofrenia ou transtorno bipolar que está por aí trabalhando e que talvez você nunca perceba, mesmo cruzando e interagindo com algumas delas.

Quanto ao “surtar”, recuso-me veementemente a acreditar que foi algo súbito e repentino. Como as informações sugerem, o sujeito se armou e agiu dentro da sua “normalidade” sem que nada indicasse nada de diferente. E aí sim, arrisco a dizer que nessa condição, ele já estava “surtado” há tempos, mas ninguém conseguiu ver ou tomar atitude em relação a isso à tempo, o que permitiu tal estado muito mais sério.

Em um estado delirante um sujeito surtado pode planejar com base em seus próprios delírios e, para piorar, justificar tudo isso com outra ideia também delirante. Noutras palavras, as suas ações têm sentido para ele apenas e para ninguém mais, já que estão calcadas no próprio pensamento e não na realidade.

Não, identificar sinais e sintomas de doenças mentais não é um trabalho fácil. Conversar com alguém surtado às vezes é impossível sem uma intervenção medicamentosa e até contenção mecânica por algum tempo (que pode ir de horas à dias). Às vezes nem conseguir adesão do paciente é fácil. Mas, se em nossa sociedade olhássemos um pouco mais um para o outro e se parássemos um pouco mais para ouvir sem julgar ou rir daquilo que o outro tem a dizer, inclusive aquilo que vai se mostrar sem sentido algum, nosso presente poderia ser diferente: teríamos uma rede de atenção à saúde mental mais ampla, com maior capacidade de acolhimento e, estou muito certo disso, viveríamos muito melhor.

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Qual tratamento é indicado para mim?

Quando as pessoas vão ao médico elas já tem mais ou menos uma ideia do que fazer e esperar: falam o que têm, são examinadas e recebem tanto um diagnóstico quanto uma prescrição. Assim, é normal que pensem que com algumas palavras o psicólogo ou outro profissional de saúde mental também vá fazer o mesmo.

Mas a coisa é diferente aqui.

A sua dúvida é importante para mim e certamente é também para você. É um ponto de partida possível para que eu possa saber mais acerca de quem você é, como é sua vida, o que já fez e o que pretende fazer.

Isso acontece naturalmente na medida em que você fala e eu vou pontuando suas colocações ou lhe instigando a continuar por um caminho ou outro. É por essa via de diálogo/escuta também se constrói uma indicação adequada de tratamento, que acaba surgindo desse trabalho conjunto, considerando tanto sua condição, quanto suas possibilidades e disposição no momento.

Fazer diferente disso pode ser colocá-lo num tratamento formatado que pode acabar não sendo o mais adequado para você.

 

Tem dúvidas? Entre em contato. Podemos conversar.

Até!

Tristeza e falta de vontade. Isso é importante?

Quando as pessoas se sentem ou percebem alguém próximo triste ou sem vontade para quase nada ou para coisa nenhuma, já associam isso à depressão. Há reações das mais diversas, umas que falam que é caso de psiquiatra, que tem que procurar psicólogo, que é frescura, que é algo para tirar da cabeça e por aí vai. Mas vamos por partes.

Nem toda tristeza e falta de vontade é causada por depressão. Depressão tem suas particularidades e merece um capítulo à parte que você pode acessar clicando aqui.

Pois bem, a pessoa reagir com tristeza ou ficar sem vontade com frequência é algo a ser observado com todo um cuidado especial, pois podem estar associadas a coisas que aconteceram e que continuam a passar desapercebidamente ao longo de anos, como por exemplo, uma mágoa, um rancor, uma falta.

Em algumas situações que são superadas com relativa tranquilidade em um grupo de pessoas, pode acontecer que para alguém a coisa não ocorra dessa forma. Entretanto, esse “sentir diferente” pode ser colocado de lado, numa tentativa de esquecer (às vezes “bem sucedida”), e fazer parecer que o importante não era nada. Nesses casos, o tempo e uma escuta adequada podem mostrar que sim, que aquilo era mesmo importante: quando isso ocorre, não importa o que outros digam; se foi importante para essa pessoa incomodada, sim, é algo a se considerar como tal.

O fato de você sentir algo em relação ao seu passado de uma forma demasiadamente emotiva e viva tal como quando se tivesse acabado de acontecer, em especial se isso é capaz de lhe emocionar novamente, há grande chance disso ainda mexer com você. Quando é assim, é válido considerar procurar um psicólogo para refletir um pouco sobre sua vida e ver se não é o caso de se engajar em um tratamento.

Tratar uma questão afetiva pode não ser nenhum bicho de sete cabeças, mas quando não tratadas e perdurando ao longo de muitos anos, ela pode ser a razão de uma série de tropeços, evitações, mal-estares ou até síndrome do pânico ou doenças no corpo.

Considere o que sente, valioso. É seu e fala sobre você. Leve isso para um profissional que possa lhe ajudar a olhar para tal.

Ansiedade – Isso é traço de personalidade?

Ansiedade não é um traço de personalidade. O que costuma acontecer é a existência de mecanismos que acabam validando esse sintoma como tal. Muitas vezes a pessoa convive há tanto tempo com ela que de certa forma “se acostuma”, sendo mais grave ainda quando há uma série de outras pessoas dentro da mesma família com o mesmo problema.

Basicamente, a ansiedade está ligada a expectativa da realização de algo, incluindo a não realização. Por mais estranho e bizarro que possa parecer, sim, às vezes é importante a “não-realização” de alguma coisa, como por exemplo, na síndrome do pânico. Esta síndrome, por sua vez, tão logo o paciente comece a falar dela, mostra-se como um quadro complexo de questões afetivas colocadas umas sobre as outras repetidamente e por um tempo muito além do suportável.

Nos casos onde há um comprometimento de atividades, como dificuldade de concentração acentuada, insônia, irritabilidade, angústia, ejaculação precoce, bulimia, cabe sim consideração a avaliação psiquiátrica. Entretanto, ainda que por via medicamentosa possa haver uma melhora dos sintomas, a problemática que a origina continuará lá até que a pessoa mude coisas na vida, algo que muitas vezes irá requerer assistência psicológica.

Ansiedade tem uma coisa em comum com a febre: você não escolhe ter mas, pode tratar. Há meios para isso, consulte um profissional de saúde mental.

Quando procurar ajuda?

Entrar em contato com um psicólogo não é uma decisão simples para a maioria das pessoas, principalmente quando elas nunca tiveram contato ou não conhecem alguém que tenha precisado de um. A coisa é ainda mais difícil quando elas se depararam com profissionais que não as ouviram bem.

Choro sem razão aparente, insônia prolongada, pesadelos constantes, ansiedade frequente ou permanente, mal-estar inespecífico. Queixas como essas são motivos suficientes para se pensar em procurar um profissional de saúde mental para conversar um pouco.

Mas… e por quê?

Como costumo dizer, da mesma forma que evitamos a dor física, também evitamos a dor “mental” (há mecanismos complexos para isso). Só evitar a dor é uma medida paliativa para reduzir o sofrimento, mas não serve para resolver o que está lá. Inclusive, evitar a dor costuma ser uma medida temporária que, com o tempo tende a falhar e se mostrar como outras formas de dor, tais como:

  • ansiedade sem razão aparente (lembrando que ansiedade não é traço de personalidade, é um estado);
  • depressão;
  • síndrome de pânico;
  • alterações no sistema imunológico, incluindo problemas autoimunes como queda de cabelo e problemas de pele, dentre vários outros.

E onde entra o profissional de saúde mental?

A função de um profissional em saúde mental, como um psicólogo, é atuar junto ao paciente estudando seu funcionamento psíquico, seja ouvindo sua história, seja buscando observar, estudar e intervir na forma de funcionamento mental deste. Inclusive eles estão habilitados a encaminhar para outros profissionais caso seja necessário algum diagnóstico diferencial ou acompanhamento conjunto.

O psicólogo

Quem é o psicólogo afinal?

É aquela pessoa que por alguma razão dela resolve tentar entender as razões dos outros. Guardado nas entranhas de seu pensamento, é aquele que movido por um desejo de compreender, estudar, ouvir (e sabe-se lá quantos mais substantivos), na direção de um caminho não menos complexo e que nunca tem um fim.

Na calada da noite ou talvez durante o dia, talvez até mesmo andando à toa pela rua ou “viajando na maionese”, ele decide que quer fazer isso. E é lá na universidade que descobre que “isso” era difícil entender até para ele mesmo, justificando-se ao longo de cinco anos, para quê tantos estudos.

O psicólogo é aquele que estuda durante 5 anos e quando sai da universidade logo descobre: ainda é preciso mais. Seja para se aprofundar no sujeito diante dele no consultório, seja para se aprofundar nos estudos sobre os grupos e outras instituições, ele tem que estudar ainda mais.

O que ele faz e para o que se dedica, vale à pena desde que ele tenha decidido por caminhar por uma trilha difícil e por vezes, desanimadora.

Olhar para o outro passa a ser mais difícil e logo aquelas falas dos professores tornam e retornam a fazer sentido. Eis que surge o supervisor, esse outro tão importante e bem ali, passos adiante (tanto fisica, quanto simbolicamente) ao qual a ignorância agradece num sucumbir desfeita. É também ao supervisor que remete-se um sorriso grato quando percebe-se estar vendo aquilo que há pouco não via.

Mas… há as pedras no meio do caminho… Ah, essas pedras de que tanto falam…

Para aqueles que não seguiram as recomendações básicas, seja por ignorância, prepotência, ou desculpas postas e expostas diante de si, elas irão se mostrar. O psicólogo vê e se não vê, alguém o vê e atua, seja na crítica, seja culpa, abandono ou desdém.

E depois, depois do trilhar dos primeiros passos, aqueles que decidiram caminhar e enfrentar os obstáculos, eis que surge como recompensa silenciosa, histórias atrás de histórias, tão únicas como uma estante repleta de livros novos e inéditos diante uns dos outros. E mais que isso, farão parte de cada uma delas, na medida em que seu sutil posicionamento serve para ajudar a virar páginas e mais páginas, abrindo espaço para novos capítulos.

 

Dedicado aos meus amigos e colegas de profissão, bem como aos meus professores, supervisores e meu analista. Feliz dia do psicólogo à todos.

Dá pra escolher um psicoterapeuta?

Dá sim e para algumas pessoas isso acaba sendo necessário.

Como já mencionei em outros artigos, há certa frequência em ouvir dos pacientes e de outras pessoas, casos, pérolas e até aberrações acerca da atuação de alguns profissionais de saúde mental. Não vou criar um dez passos pra selecionar seu psicoterapeuta, psicanalista ou psiquiatra ou seja lá o que for, pois isso seria absurdo também, então vou me limitar a tentar ajudar a pensar em alguns pontos acerca dessa escolha. Há, de fato, algumas coisas bastante simples que podem facilitar.

O primeiro passo, é se dispor a encontrar alguém para lhe ouvir. Ouvir é bem diferente de concordar com aquilo que você diz. O profissional poderá lhe pedir para esclarecer uma contradição que você nunca percebeu que existia, por exemplo, o que pode resultar em algum embaraço para algumas pessoas.

Você não está procurando um juiz, então, considere que não está lá para ser julgado. Mas, considere, avalie também se você está mesmo sendo julgado ou se não está tentando se defender de algo sem saber a razão.

O tempo da conversa precisa ser minimamente suficiente. Não consigo imaginar uma consulta de cinco minutos servindo para diagnosticar aquilo que é sintoma de uma vida inteira. É mais ou menos como querer falar de um rio inteiro só pela amostra colhida onde ele desemboca. E convenhamos… uns minutos de conversa sempre serão pouco diante do tempo que você já viveu sua vida.

O diagnóstico pode facilitar algumas direções e alguns passos para alguns tipos de tratamento mas nunca irá dizer tudo sobre você e às vezes pode dizer nada. Tratamento em saúde mental não tem como seguir um padrão de procedimentos como o de consertar um carro, fazer uma reforma ou uma cirurgia, pois se trata de lidar com a história de um sujeito.

Em suma, o tempo precisa ser suficiente pra você e a conversa lhe dar alguma sensação de conforto e acolhimento, são alguns pontos breves para saber se encontrou um profissional adequado para você. Na dúvida, leve primeiramente o incômodo ao profissional que lhe atende. Você pode tentar encontrar outro profissional para conversar, se informar melhor, talvez até tirar alguma dúvida. Às vezes é preciso procurar mais de uma vez para encontrar onde dar certo.

 

Todavia, um outro alerta. Nem todo desencontro é por culpa dos profissionais. Há casos com os quais um bom psicoterapeuta ou psiquiatra não poderão compactuar, parecendo para seus pacientes, pessoas ruins, quando na verdade estão fazendo “males” necessários. Sempre há singularidades em cada um dos casos, inclusive a possibilidade de um paciente querer encontrar alguém que lá no fundo, se disponha a um acordo silencioso de não tocar na ferida para fazer um tratamento (falso) em banho maria.

 

Bem, por enquanto é isso. Caso queira ler mais sobre o assunto, há alguns links linhas abaixo. E se gostou da leitura, não se esqueça de curtir e compartilhar. Poste também sua mensagem, pois curtir, compartilhar e comentar ajudam a delimitar os assuntos para serem trabalhados aqui.

Obrigado pela leitura e até a próxima!!


Sugestões para leitura:

Reeditado em 19 de novembro de 2017 às 15h45

A marionete

Naquele dia Rosinha* já não tinha nem tempo de pensar se estava ou não cansada. Seu nome era Trabalho e seu sobrenome… Trabalho. Seria Hora Extra se não fosse “a crise econômica”…

Foi naquele plantão. Rosinha* não havia parado para beber água ou para ir ao banheiro. Ou… talvez tivesse. Mas, ocupada o quão estava, nem se lembrava e também não era algo que alguém ali fosse perguntar.

Se aquela pia no posto de enfermagem pudesse fazer mais que ser uma inerte e reluzente liga inoxidável, teria perdido as contas de quantas vezes Rosinha* nela havia lavado as mãos e o quanto de remédio que essa enfermeira já havia preparado. E se não estivesse ali apenas para aparar a água ou parte dos soros que tinham que ser postos no volume correto, poderia questionar a amiga quanto ao número de pacientes, que já era oito.

Caso fossem dadas a sair do lugar e ver – diferentemente da porcelana barata que eram – aquelas pias dos quartos, saberiam que Rosinha* estava fazendo de tudo para medicar, banhar e fazer curativos. Alguns pacientes tinham “perdido” as veias, mas logo a pródiga enfermeira estava lá para “pegar” outra.

Rosinha* podia fazer de tudo ali. Ela e seus colegas de trabalho, três para cuidar de quase trinta. Juntos, conseguiam dar conta de tudo. As coisas não estavam saindo nos horários certos mas, estavam saindo.

Foi quando no meio daquela correria apareceu uma nona paciente para Rosinha*. Tão comprometida com o trabalho que recebeu aquela senhora e deu boa noite carinhosamente. Alguém havia dito para receber o paciente mas, mesmo após fazer vários protestos, a jovem e elétrica enfermeira cedeu e a recebeu.

Curiosamente já havia levantado vários argumentos, dizendo que aquilo não era justo, pois já tinha muitos pacientes complicados, que estava sobrecarregada (tal como os seus colegas de plantão) e, que faltava menos de uma hora para ir embora. Mas alguém por fim argumentou do outro lado da linha:

– É uma senhora de 70 anos, poderia ser a sua mãe!!!

Isso doeu no coração de Rosinha*. Criada pela avó, sentiu todo aquele peso lhe balançar as pernas. Tomada por um quase desespero de quem, sem saber, havia se identificado com uma parte da história, recebeu a tal senhora de 70 anos.

Se a pia pudesse ouvir a conversa pelo telefone, e se pudesse fazer amizades, talvez questionasse a provável amiga, perguntando- lha se não percebia que toda aquela estrutura usava e abusava das pessoas na medida em que aprendia por onde lhes mexer os fios certos.

Rosinha* não conseguia se opor a certos argumentos, pois supostamente deveria fazer isso ou aquilo “pensando” no paciente. Sensível, se comovia com o estado que aquelas pessoas chegavam. Além disso, sempre aparecia alguém dizendo que ela era um anjo para inflar um ego que só nessas horas parecia valer algo… para os outros.

Mas… que anjo ingênuo esse, para jamais perceber que sob os argumentos de ter nascido para a profissão, de ter que se preocupar com o outro, de isso e sabe-se lá o quê, não passava de um brinquedo para aqueles que ficavam só atrás do palco, sem viver as cenas do espetáculo?

Rosinha* não tinha parado para pensar que aquela senhora que ela recebera e acomodava na cama, uma vez além de suas capacidades, ficaria apenas ali no leito. Sem a devida atenção, aquele coração de setenta e poucos padeceria fatalmente em umas duas horas por causa de um ritmo bem esquisito, ao qual ninguém havia prestado a devida atenção, já que o problema daquela “vózinha” supostamente estava numa dor de estômago, e os aparelhos portáteis de “PA” comprados para “agilizar” o serviço não eram capazes de cumprir o que dedos e ouvidos fazem bem… (quando devidamente aparelhados de estetoscópios e esfigmomanômetros).

Não era só Rosinha* que havia se comovido, mas havia muito mais gente que passava pelo mesmo naquele hospital. Talvez se comovessem muito mais se soubessem que eram apenas bonecos presos em fios, dos quais precisavam urgentemente se livrar para justamente evitar, aquilo que tentavam tanto evitar.

Não sou juiz, mas… (sobre o caso da Avenida Paulista)

Não me compete fazer o julgamento de ninguém. Não estudei pra isso e, ainda que tenha toda uma simpatia pelo Direito, uma vez que ele faz parte de nossa sociedade, vou tomar a liberdade de me aventurar um pouco nesse campo hoje. Até porquê… estou aqui até agora me perguntando sobre que cargas d’água fizeram dar liberdade ao homem que estava ali se divertindo às custas de uma passageira de ônibus.

Divertindo-se?

Sim. O ato sexual, sua simulação ou coisas relacionadas são destinadas ao prazer. O orgasmo é o clímax disso e ponto.

Mas… esse é um ponto que pode implicar em uma ou mais pessoas. E obviamente não foi o caso da moça lá na Avenida Paulista. Sabe-se lá no que ela estava pensando, se nas suas contas, se em algum passeio ou em qual ponto desceria. Li que ela estava dormindo. Não importa, ela foi tomada como objeto de prazer sem que pudesse se defender do sujeito malicioso em questão.

Dizer que não houve violência é uma terrível bobagem, uma vez que o sujeito atirou nela o seu gozo, concretamente falando. Ela, a moça, só estava ali. Não pôde se defender e ao que o roll de informações publicadas diz, ela ficou em choque. Sabe-se lá o que passou pela cabeça dela e quantas voltas ela deu ali sozinha consigo mesma parada na Avenida Paulista no meio da multidão.

É óbvio que houve uma violência. Sêmen pode ser limpo com água e sabão, preferencialmente um bactericida, pois vai saber se o sujeito não é portador de doença venérea… O corpo físico está ok. A roupa, é só lavar também.

Agora, vá lá dizer que o que a moça sofreu vai passar… Vai passar quando? Em um ano, dez, vinte? Ela vai conseguir continuar um namoro, caso tenha? Ela vai se relacionar com algum homem depois do ocorrido? Quando? Vai suportar alguma relação sexual no futuro e conseguir construir uma família?

Pasmem!! Eu não posso, não estudei e nem trabalho com Direito e nem sou um jurista, mas não é admissível que profissionais de outras áreas venham até a Saúde Mental dar seus pitacos baseados em conversas, revistas de senso comum ou mesmo livros de literatura rasa sobre o assunto. Saúde mental é pra quem ficou pelo menos CINCO anos na faculdade e nesse caso, a quem compete dizer se houve dano ou não são esses profissionais. Estamos disponíveis para laudos, pareceres, relatórios e, quando for o caso, pra consultas e tratamentos de curto, médio e longo prazo. Ou seja, podemos dar suporte a outros profissionais.

Não sou radical a ponto de dizer “cada macaco no seu galho”, mas que cada um, respeite o galho alheio e que converse com o vizinho antes de se propor a pular no do outro pra resolver tudo sozinho.

 

Obrigado pela leitura e até a próxima.