Ansiedade – Isso é traço de personalidade?

Ansiedade não é um traço de personalidade. O que costuma acontecer é a existência de mecanismos que acabam validando esse sintoma como tal. Muitas vezes a pessoa convive há tanto tempo com ela que de certa forma “se acostuma”, sendo mais grave ainda quando há uma série de outras pessoas dentro da mesma família com o mesmo problema.

Basicamente, a ansiedade está ligada a expectativa da realização de algo, incluindo a não realização. Por mais estranho e bizarro que possa parecer, sim, às vezes é importante a “não-realização” de alguma coisa, como por exemplo, na síndrome do pânico. Esta síndrome, por sua vez, tão logo o paciente comece a falar dela, mostra-se como um quadro complexo de questões afetivas colocadas umas sobre as outras repetidamente e por um tempo muito além do suportável.

Nos casos onde há um comprometimento de atividades, como dificuldade de concentração acentuada, insônia, irritabilidade, angústia, ejaculação precoce, bulimia, cabe sim consideração a avaliação psiquiátrica. Entretanto, ainda que por via medicamentosa possa haver uma melhora dos sintomas, a problemática que a origina continuará lá até que a pessoa mude coisas na vida, algo que muitas vezes irá requerer assistência psicológica.

Ansiedade tem uma coisa em comum com a febre: você não escolhe ter mas, pode tratar. Há meios para isso, consulte um profissional de saúde mental.

Notícias do final de semana no BBC

No final de semana foram publicadas algumas matérias interessantes na página do BBC que eu acredito valerem à pena serem lidos:

 

Os jovens que encontram nas redes sociais ‘válvula de escape’ para luta contra o câncer

‘Você não presta para nada’: a rotina de estresse, xingamentos e pressão dos atendentes de telemarketing

O estigma enfrentado nas periferias pelas pessoas com depressão: ‘Pobre não pode se dar ao luxo de não sair da cama’

 

Boa leitura!

A mãe má (considerações sobre o artigo anterior)

A associação entre doenças físicas (incluindo as relacionadas ao sistema imunológico) e questões psicológicas é estudada há anos. Pode-se até mesmo dizer que questões acumuladas ao longo do tempo podem se transformar em sintomas físicos, como uma forma da “mente” tentar avisar que alguma coisa está errada. Na medida em que a pessoa não dá “bola” para isso ou, não consegue se resolver com aquilo de problemático que aflige sua vida ou, foca apenas no tratamento de sintomas, há um risco desse sintoma “mudar de cara”.

Quanto ao sintoma, uma doença física, ainda que possa ser enquadrada como sintoma da problemática psíquica, não pode ser simplesmente tratada como mero sintoma. A dor pode estar instalada, uma vulnerabilidade ou hipersensibilidade fora do normal, tudo está lá de forma perturbadora.

A intervenção psicológica serve para tratar a raiz do problema, porém, se a questão é cortar uma árvore grande, convenhamos… não é nada sensato tentar arrancá-la pela raiz sem fazer uma poda.

Assim, é importante considerar que um tratamento psicológico não se propõe a excluir outros e imprudentes são aqueles que acreditam que isso possa ser feito sem uma avaliação adequada. Há doenças que precisam ser tratadas diretamente e nem é preciso mencionar nomes de algumas delas.

 

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(Minha opção por desmembrar essas considerações do artigo é para facilitar a leitura)


Sugestão de leitura

Caso tenha se interessado pelo assunto, aqui vão mais alguns artigos:

Sintoma

O conceito de sintoma (Scielo)

BBC Brasil – Raiva e Irritação: os sintomas da depressão que muitas vezes ignoramos.

 

Nem gregos e nem troianos

Ulisses* continuava a fazer seus portões. Era assim há muito tempo e diziam que continuaria por bem mais que isso. Se aqueles amontoados de ferros e pingos de solda fossem mais que o que eram e tivessem a oportunidade ímpar de acompanhar seu genitor, entenderiam o porquê.

– Falei tinta cinza, cinza, moleque!!

Rude, Ulisses* juntava os dedos da mão repetindo a mesma frase várias vezes. Queria todos seus portões com fundo cinza. Ninguém sabia qual a razão, mas o seu ajudante anterior conformara-se que tinha que ser dessa forma e pronto.

– É cinza!!! Isso aqui é cinza, olhe bem pra isso!!!

Ok, tinha que ser cinza. Na verdade não havia uma explicação razoável, já que outras tintas, mais novas e modernas, serviriam como uma melhor base para dar um acabamento ao trabalho.

O sobrinho de Ulisses*, lá com seus diminutos dez anos de idade, não compreendia nada daquela exigência mas, não ousava questionar. Ajeitou os chinelos nos pés, voltou à loja e tentou devolver a lata de tinta preta que havia comprado. Não conseguiu, é claro.

– Mocinho, não dá pra aceitar um negócio desses… Seu tio já abriu a lata… Agora ele vai ter que usar…

O menino não gostou mas, colocou a lata debaixo do braço, e caminhou até chegar perto do centro da cidade, passando de loja em loja até encontrar onde havia a tal tinta cinza, onde lamentou:

– Nossa, moço, mas eu não tenho esse dinheiro todo…

Certo de que seu tio ficaria muito bravo se não tivesse o raio da tinta cinza da marca X, ele tirou um pouco do que recebera (que era pouco) e inteirou o valor necessário para a compra. Já não tinha muito e recebia quase nada, então ficou ainda mais pobre. O dia já estava terminando e logo poderia ir para casa.

– Nossa, mas demorou, hein? Eu aqui com o portão parado e você estava fazendo o quê? Fosse de ônibus, ora essa. Só enrola… Da hora do almoço até agora pra isso? E essa lata preta? O que vou fazer com isso? Agora fica pra você, ora, cacete!

Negro, o menino não tinha como ficar vermelho. Entretanto, se aquele portão pudesse perceber alguma coisa teria visto o garoto franzir a testa e apertar as mãos antes de lhe mandarem beber água, já que pelo tanto quanto havia suado, devia estar desidratado.

– Não vai mais pintar?

– Não, agora eu não vou pintar. São quatro e meia. Eu não trabalho depois das cinco.

– Por quê?

– Porque eu não trabalho depois das cinco, ué. Depois das cinco é hora de varrer a sujeira e organizar essa tralha toda.

Ulisses* estava sentado e ficou ali meia hora olhando o portão todo, vendo solda por solda, matutando. Seu sobrinho, de mesmo nome, nada compreendia mas, ficou ali aguardando até as cinco sem fazer nada, já que varrer não podia pois não era hora para aquilo. Nada daquilo parecia fazer sentido e quanto mais tentava entender, mais voltas a sua cabeça dava, até começar a doer.

– Quando chegar amanhã, bate no portão cinco pras oito. Antes disso eu estou escovando os dentes, oras.

O pequeno Ulisses* chegou em casa cansado e mais pobre do que já era. Tomou uma bronca por andar pela cidade inteira e não pegar um Uber. Para sua mãe, o irmão dela era assim mesmo e tinham que aceitá-lo como era e ajudar, afinal, o avô era assim também.

– Tá bom…

– E o que está fazendo com essa lata de tinta agora? Amanhã você entrega pro seu tio.

– Mas…

– Mandei entregar pro seu tio! Você não vai ficar com tinta aqui em casa.

Suado e cansado, o menino Ulisses* esqueceu a lição de casa. Emprestou o pouco dinheiro que tinha para o irmão mais velho, também esquecendo que estava querendo comprar alguma coisa que… por sinal… também já não se lembrava a essa hora…

Ao deitar naquela caminha velha, o garoto que tentava crescer se mexia tanto que dormiu bem mal. Aquele mal de alguém para quem não havia sobrado nada, a não ser uma pilha de coisas sem o menor sentido, exceto para aqueles aos quais restavam infinitas justificativas. E no afã de tentar resolver todas as coisas (loucas) dos outros, o pequeno Ulisses* experimentava nessa noite apenas sua primeira insônia.

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Acompanhe também essas sugestões de leitura:



Ulisses tinha várias manias, mas ninguém sabia dos pensamentos que povoavam sua cabeça. Assim que viu na televisão uma forma de eliminá-los, resolveu que iria até a farmácia dar um jeito.

Pensamentos: indesejados e desnecessários? Uma odisséia de Ulisses* (Parte 1 de 2)

Rosinha*, uma senhora, tenta entender por qual razão a sua vida é mais triste em casa:

“Quando volto pra minha casa, eu fico muito triste…” – E então, o que se fala em um consultório? (2/2) – Exemplos clínicos

Naquele dia Rosinha* já não tinha nem tempo de pensar se estava ou não cansada.  Ela não sabia, mas fazia parte de um complexo jogo, no qual acabava sendo apenas mais uma peça.

A marionete

Pensamentos: indesejados e desnecessários? Uma odisséia de Ulisses. (Reflexões sobre o conto)

Esse post é uma reflexão sobre o conto com mesmo título.

Recapitulando, Ulisses estava envolvido em suas questões afetivas de uma forma bastante complicada e que, dado o tempo de permanência, já havia se tornado aquilo que muitas vezes as pessoas denominam como “hábito”, “costume” e até “jeito” ou mesmo, “manias”.

No caso de nosso pseudoherói, a pequena ilustração de sua pacata vida, nos mostra coisas que você só conseguirá observar basicamente das seguintes formas:

  • num conto, numa história ou num relato de caso clínico;
  • através de uma terapia ou de uma análise, dentro da qual o paciente poderá lhe revelar o que sente, o que pensa e o que faz;
  • vivendo a própria história e, com mais profundidade, a conhecendo através de um trabalho terapêutico.

Como acredito que tenha ficado claro, Ulisses é um homem tomado por vários comportamentos bizarros aos quais ele e as pessoas à sua volta já se acostumaram. Inclusive, pessoas como ele não raras vezes chegam ao consultório sem perceber o que acontece (indicadas por alguém) e, quando percebem, não têm a menor ideia do porquê ou o quê fazerem com isso e aquilo. Inclusive, há quem relate uma série de pensamentos indesejados associados com tais comportamentos.

Vamos imaginar que os pensamentos indesejados de Ulisses que o levavam a fazer uma série de coisas absurdas, passassem a ganhar uma dimensão mais estranha ainda. Que ele passasse do fazer portões e acompanhá-los por uma semana para ver se estão funcionando direito, para uma vontade irresistível de ir até lá e cuidar pessoalmente de abrí-los e fechá-los para ter absoluta certeza de que não ficou nenhum problema mesmo.

Absurdo? Sim, claro. Talvez até Ulisses percebesse isso e não se deixasse levar por tal coisa. Entretanto, isso não quer dizer que seus pensamentos lhe deixariam de importunar. O fato é que esses pensamentos estão ali por alguma razão que vai além do efeito mais prático, que é atolá-lo em sua vida e fazê-lo perder tempo. Como é óbvio, isso também serve para dizer que há alguma coisa errada, mas não com o portão e sim, com o próprio sujeito.

Para ilustrar metaforicamente, podemos pensar na doença física combatida com remédios, considerando o fato que nem toda pode ser tratada dessa forma. Inclusive, algumas podem ser mascaradas por analgésicos, anti-térmicos e anti-inflamatórios. O resultado dessa postergação, procrastinação ou enrolação pode servir apenas para agravar a doença de base, o que pode inclusive, levar ao comprometimento fatal da vida do sujeito.

Em saúde mental, não pense que a coisa que a coisa é diferente.

Uma possibilidade bastante similar ao exemplo anterior, é a postergação do tratamento psicológico levar ao agravamento do problema de base (aquele de onde sai uma árvore de sintomas). E isso é bastante perigoso, só observar o desenvolver dos casos de síndrome do pânico, onde tantas coisas já se remontaram que o sujeito nem sabe mais o que lhe incomoda, sendo imprescindível estar acompanhado por um psicoterapeuta para se aprofundar no que costuma ser um verdadeiro iceberg.

Do ponto de vista físico, o corpo humano “deixa” sair pus por alguma estrutura ou fica febril pra dizer que há alguma coisa muito errada (mesmo sem uma dor condizente). Em se tratando de mente humana ou de saúde mental, pode-se dizer que um sintoma “atropelado” por negligência aos próprios afetos ou, morto pelo cessar de sintomas por conta de excesso de remédios, poderá dar lugar a outro e até a outra via para se mostrar. Num exemplo bastante simples, é como uma pessoa deixar o medo de entrar no elevador e passar a ter um bizarro medo de entrar numa piscina ou mesmo, ter uma inexplicável (do ponto de vista fisiológico) paralisia das pernas.

No caso específico de deslocamento de sintomas psíquicos para sintomas físicos, a problemática tende a ser ampliada, sendo necessário um acompanhamento médico para tratar aquilo que está se manifestando no corpo, sendo imprescindível a psicoterapia para tratar o problema de base. Noutras palavras: se há uma manifestação física de um problema psíquico, tratar somente o psíquico pode não garantir a cura.

Em suma, é importante considerar que a eliminação de pensamentos pode ser uma aposta perigosa para ver onde é que novos sintomas vão aparecer e, deixá-los como estão pode ser padecer em mais do mesmo, o que é a mesma coisa que estar deixando de viver uma parte da própria vida (como um zumbi) a troco de coisa nenhuma, alheio inclusive, a que coisa é essa. Por outro lado, cabe levar em consideração a singularidade de psicoses graves e outros estados que requerem medicações pesadas, muitas vezes associadas a questões nas quais é preciso proteger o sujeito dele mesmo ou dos outros e que requer uma série de observações à parte.

Eliminar totalmente um sintoma pode ser uma forma de eliminar justamente aquilo que está dizendo que há algo errado aqui, nesse exato momento.

Obrigado pela leitura e até a próxima.

Pensamentos: indesejados e desnecessários? Uma odisséia de Ulisses

Ulisses tinha aqueles pensamentos perturbadores todos os dias. Ao terminar o trabalho, punha a máscara protetora para cima e olhava o serviço de solda, para checar se estava bem feito. Depois fazia o acabamento, pintava sempre com o mesmo fundo cinza e instalava para o cliente. Mas não conseguia deixar de ficar preocupado até ver seu produto em funcionamento por algum tempo.

Até aí tudo bem, se por acaso Ulisses se contentasse em deixar a vida seguir seu curso e, eventualmente contar com a possibilidade de alguém lhe ligar para reclamar de algum serviço, como muitas pessoas fazem normalmente.

No caso de Ulisses, o trabalho ficava tanto tempo na cabeça junto à expectativa de alguém reclamar, que no final de contas, ele acabava pegando a bicicleta velha (e com soldas trincadas) para passar na frente da casa dos clientes algumas vezes. Quando não trombava “ao acaso” com eles, acabava chamando para perguntar se o portão estava direito. Justificava-se dizendo que era sua forma de “fazer controle de qualidade”…

Às vezes, parado todo sujo ao lado da máquina de solda ou sobre a bicicleta, Ulisses passava o antebraço na testa suada. Normalmente achava que era esse o seu “normal” – ainda que clientes reclamando fossem uma coisa extremamente rara – de forma tal que insistia e continuava perdendo horrores de tempo com checagens e novas checagens.

Para piorar, apesar de toda polidez com o trabalho, Ulisses não conseguia conversar muito bem. Era breve nas palavras e quando parecia se soltar, logo gaguejava e dava um jeito de encerrar a conversa. “Tinha” que medir as palavras para não falar todos os palavrões que vinham na cabeça e para não assustar ninguém.

Ulisses melhorava quando bebia… ao menos era o que acreditava. Rosinha que o dissesse… Seu homem era um sujeito bastante difícil e que não aceitava jamais mudar nada. Não que ele não fosse capaz de lavar uma colher, nada disso… Ele só não considerava aceitável fazer o papel de uma mulher em casa, então, nem uma colher ele lavava.

A verdade é que Ulisses estava tomado por uma porção de pensamentos indesejados, sobre como é que faria se alguém reclamasse sobre a solda dos portões ou, o que achariam dele se passasse a lavar louças em casa ou, ainda, se ele deixasse de cuidar da fala e soltasse um palavrão diante de um cliente “tipo doutor”.

Certo dia, quando viu uma reportagem falando em eliminar pensamentos indesejados pensou em correr até uma farmácia. Mas… pensou… pensou mesmo um bocado e por fim… acabou passando reto com a bicicleta, correndo em seguida como diabo fugindo da cruz, tomado por uma preocupação terrível em saber que raios de pensamentos indesejados ele gostaria de eliminar. Teria que falar sobre isso com o farmacêutico? Claro!! Mas muita gente tomava remédio com aquele homem, não é?…

E para falar a verdade, esse era apenas mais um pensamento tomando forma, tendo como efeito o mesmo de todos os anteriores sem que Ulisses notasse: desse dia em diante, evitaria a rua da farmácia e faria um caminho mais longo só pra ninguém achar que ele poderia estar pensando em comprar algum remédio pra cabeça. Do herói mitológico, ali nada restava. Apenas pensamentos vagavam, uma estratégia singular e eficaz para fixar âncoras em qualquer lugar, nem que fosse para perder algum tempo caso não impossibilitasse fazer alguma coisa.

No caso de Ulisses, tal qual no caso de tantas outras pessoas, já não era tão simples identificar a origem de tantos pensamentos mas, o efeito produzido era claro: era parar a vida do sujeito.

Se Ulisses por acaso parasse com seus “pensamentos indesejados” e “manias” com a mesma facilidade de estourar um balão, ainda ficaria sem saber por qual razão estava paralisando sua vida. Mas, ele e muitos outros achavam que “esse” era Ulisses.

A marionete

Naquele dia Rosinha* já não tinha nem tempo de pensar se estava ou não cansada. Seu nome era Trabalho e seu sobrenome… Trabalho. Seria Hora Extra se não fosse “a crise econômica”…

Foi naquele plantão. Rosinha* não havia parado para beber água ou para ir ao banheiro. Ou… talvez tivesse. Mas, ocupada o quão estava, nem se lembrava e também não era algo que alguém ali fosse perguntar.

Se aquela pia no posto de enfermagem pudesse fazer mais que ser uma inerte e reluzente liga inoxidável, teria perdido as contas de quantas vezes Rosinha* nela havia lavado as mãos e o quanto de remédio que essa enfermeira já havia preparado. E se não estivesse ali apenas para aparar a água ou parte dos soros que tinham que ser postos no volume correto, poderia questionar a amiga quanto ao número de pacientes, que já era oito.

Caso fossem dadas a sair do lugar e ver – diferentemente da porcelana barata que eram – aquelas pias dos quartos, saberiam que Rosinha* estava fazendo de tudo para medicar, banhar e fazer curativos. Alguns pacientes tinham “perdido” as veias, mas logo a pródiga enfermeira estava lá para “pegar” outra.

Rosinha* podia fazer de tudo ali. Ela e seus colegas de trabalho, três para cuidar de quase trinta. Juntos, conseguiam dar conta de tudo. As coisas não estavam saindo nos horários certos mas, estavam saindo.

Foi quando no meio daquela correria apareceu uma nona paciente para Rosinha*. Tão comprometida com o trabalho que recebeu aquela senhora e deu boa noite carinhosamente. Alguém havia dito para receber o paciente mas, mesmo após fazer vários protestos, a jovem e elétrica enfermeira cedeu e a recebeu.

Curiosamente já havia levantado vários argumentos, dizendo que aquilo não era justo, pois já tinha muitos pacientes complicados, que estava sobrecarregada (tal como os seus colegas de plantão) e, que faltava menos de uma hora para ir embora. Mas alguém por fim argumentou do outro lado da linha:

– É uma senhora de 70 anos, poderia ser a sua mãe!!!

Isso doeu no coração de Rosinha*. Criada pela avó, sentiu todo aquele peso lhe balançar as pernas. Tomada por um quase desespero de quem, sem saber, havia se identificado com uma parte da história, recebeu a tal senhora de 70 anos.

Se a pia pudesse ouvir a conversa pelo telefone, e se pudesse fazer amizades, talvez questionasse a provável amiga, perguntando- lha se não percebia que toda aquela estrutura usava e abusava das pessoas na medida em que aprendia por onde lhes mexer os fios certos.

Rosinha* não conseguia se opor a certos argumentos, pois supostamente deveria fazer isso ou aquilo “pensando” no paciente. Sensível, se comovia com o estado que aquelas pessoas chegavam. Além disso, sempre aparecia alguém dizendo que ela era um anjo para inflar um ego que só nessas horas parecia valer algo… para os outros.

Mas… que anjo ingênuo esse, para jamais perceber que sob os argumentos de ter nascido para a profissão, de ter que se preocupar com o outro, de isso e sabe-se lá o quê, não passava de um brinquedo para aqueles que ficavam só atrás do palco, sem viver as cenas do espetáculo?

Rosinha* não tinha parado para pensar que aquela senhora que ela recebera e acomodava na cama, uma vez além de suas capacidades, ficaria apenas ali no leito. Sem a devida atenção, aquele coração de setenta e poucos padeceria fatalmente em umas duas horas por causa de um ritmo bem esquisito, ao qual ninguém havia prestado a devida atenção, já que o problema daquela “vózinha” supostamente estava numa dor de estômago, e os aparelhos portáteis de “PA” comprados para “agilizar” o serviço não eram capazes de cumprir o que dedos e ouvidos fazem bem… (quando devidamente aparelhados de estetoscópios e esfigmomanômetros).

Não era só Rosinha* que havia se comovido, mas havia muito mais gente que passava pelo mesmo naquele hospital. Talvez se comovessem muito mais se soubessem que eram apenas bonecos presos em fios, dos quais precisavam urgentemente se livrar para justamente evitar, aquilo que tentavam tanto evitar.

Briga no hospital e na Saúde

As pessoas se estressam no hospital, sejam elas os pacientes, acompanhantes, visitantes ou os profissionais da equipe multidisciplinar. Nervos de aço e nem sangue de barata não existem e quando as pessoas pensam que isso tudo está lá, não subestime o inconsciente, pois os afetos irão aparecer.

Basta olhar pra esse caso recente em que um profissional do Samu briga com um solicitante por telefone. Há uma situação de tensão que requer uma investigação, afinal, não é sábio deslocar uma equipe com todo um arsenal de equipamentos para uma ocorrência que requeira menos. O inverso também é verdade. Há pessoas e mais pessoas podendo requerer socorro, então é preciso mandar um grupo certo pro local certo.

Por outro lado, não cabe se não aos profissionais de saúde saberem disso. Rotina de socorro, assistência e cia. ficam a encargo da equipe multidisciplinar. E seria interessante se a leitura do que ocorre além da rotina, ocorrências e intercorrências, fosse melhorado.

Como assim? Na hora da emergência você quer que fique explicando pro paciente o que está acontecendo?

Às vezes, isso é necessário, especialmente quando o nível de consciência possibilita. O desespero pode estar nos olhos de quem não “é da área” e às vezes requer muita pouca coisa, como um aviso de que estão ali vendo o que está acontecendo e que vão tomar providências.

E mandar ficar calmo?!?

Até mesmo pedir calma pode ser útil e nem pelo pedido em si, afinal, ansiedade e tensão são estados e não escolhas pessoais. Nesse caso, o que funciona é acolher esse estado e às vezes uma palavra bem colocada basta.

E se a pessoa estiver atrapalhando?

Dependendo do caso, também cabe ser mais rígido e pedir pras pessoas se afastarem sim.

 

De forma geral, o importante muitas vezes é, de alguma forma reconhecer a existência da tensão do outro para que ele próprio lide com ela e não a transfira para a equipe, como por exemplo:

Olhe, sei que você está preocupado. Então é por isso que preciso que você me faça tal coisa.

Muita gente que nunca colocou uniforme pro trabalho em saúde acha que é preciso se descabelar, arrastar médicos, enfermeiros, muita gente e muito equipamento pra resolver as coisas, desconhecendo que levantar informações já é parte do trabalho deles e que esse passo é crucial pra fazer as coisas certas. E mais que isso, após estudar, treinar e praticar, já não é mais necessário ficar de cabelos em pé, bastando cumprir passos na forma e velocidade adequada, o que ainda garante segurança (não pense você que é fácil lidar com monitores, massagens, tempo entre remédios e mais e mais remédios, além de exames e mais exames, vai e vem de equipamentos, e outras coisas mais, tudo isso ao mesmo tempo).

Uma emergência implica em tensão para todos e a pior coisa que se pode fazer, é tentar depositar tensão sobre o outro. É como uma corda, uma hora ela poderá arrebentar e aí teremos um desastre com ela se arrebentando em várias partes, como o recém noticiado. E se as pessoas estiverem cara-a-cara, como é óbvio, um confronto físico é uma possibilidade real e concreta.

 

Não se trata aqui de defender  um lado ou outro e sim, pensar que há outras formas de lidar com as situações. Além disso, se olharmos mais à fundo, ainda há outros problemas embutidos, como por exemplo, número reduzido de profissionais e um espaço ridículo (que muitas vezes beira ou se confunde com a nulidade) para a elaboração de questões subjetivas, que incluem a tensão de não poder errar, a de ter que arcar com demanda afetiva alheia e até mesmo a de ter que dar conta de pedidos objetivos ou subjetivos que não são sequer, humanamente possíveis.



Sobre a notícia em questão, ela foi publicada pelo G1 em 03/10/2017 pode ser visualizada aqui:

Gravação registra palavrões e insultos de médico do Samu em ligação de pedido de socorro; ouça

 


Obrigado pela leitura e até a próxima!

“Estou no terceiro casamento… eles sempre me traem…”

Rosinha é relativamente jovem. Tem 4 filhos, dois do primeiro casamento e os outros dois dos posteriores, sendo que a menina mais nova tem pouco mais de um ano. Se em sua vida tudo ocorresse como gostaria, eis que teríamos uma mulher feliz apesar das preocupações em como cuidar da prole… mas não… entre um olhar e outro para o vazio ou para o chão, os olhos se enchem de lágrimas sem que ela saiba porquê, os sentimentos lhe saltam à razão e brotam e rolam pelo rosto na forma de lágrimas. “Eu acho que o que motiva são meus filhos, que se eles não tiverem eu, a quem vão recorrer? Não posso ficar ruim assim, não…”

Nos relacionamentos anteriores, Rosinha foi traída por seus maridos, resultando em brigas e separações. Se fosse dada a esquecer por conta da “idade”, como dizia e nem tinha, talvez não tivesse ido tão longe em sua história e nem a fundo a ponto de se recordar de coisas parecidas que já haviam acontecido antes, incluindo traições de seus então namorados. “Eu devo ter algum problema sério, porquê sempre escolho errado… Ou minha mãe que tá certa, ela diz que homem nenhum presta”.

Como se não bastasse, a mãe de Rosinha também foi traída, casou duas vezes e não mais. Não bastasse ser a pessoa mais próxima, não causa surpresa ser com quem mais essa jovem mulher se identifica. “Nossa, somos muito parecidas, sabe? Até quando a gente faz comida as pessoas não sabem se foi eu ou ela quem fez.”

Rosinha, crente de que tinha que aguentar todos desafios nessa vida, tentou suportar tudo. Ou, quase tudo… afinal, devia ter alguma coisa que lhe permitisse mudar de direção, afinal, tinha mudado de namorado, de marido e de casa. “Vai, eu não fui santa, eu acho… porquê antes de terminar eu já estava querendo ficar com outro… acho que não foi certo, né? Mas é que assim, nossa, é muito ruim pra mim… assim, ficar sozinha…”

No decorrer do plantão, Rosinha, que estava certa de que um pouco de conversa, em meio solidão que sentia, resolveria, percebeu que pétala à pétala, vinha se acabando aos poucos. Se fosse uma planta, não haveriam dúvidas de sua força, mas aquilo tinha um limite e o desafio maior não talvez não fosse aquele que estava certa enfrentar

Se a questão fosse pura e simplesmente despachar um marido, um namorado ou companheiro que fosse, Rosinha já sabia como fazê-lo, inclusive teria despachado suas questões e não mais se haveria com elas, tampouco teria se desgastado tanto. Aquilo que parecia uma gota de água, era uma torneira aberta, transbordando na pia…

Rosinha ficou triste. Mas, se fosse dada a se abater pela tristeza, não teria ficado contente por se conhecer melhor, tampouco por começar a compreender seu papel em sua história e que isso lhe dava a chance de tentar mudar. “Só não sei por onde que eu começo.”

Caso pudesse ter seu caso solucionado pelo plantão psicológico, Rosinha teria tido sua alta. Mas, como a solução não dependia do simples querer, e como o problema estava entrelaçado à várias questões e, não obstante, emaranhadas em sua vida, a sua indicação foi para uma psicanálise.

Mas Rosinha não quis. Suave e delicada como uma rosa, não queria se despedaçar novamente. Suave e delicada, pediu um trabalho mais suave, que a ajudasse a resolver sua questão mais pontual e iminente. “Eu entendi o que é melhor, mas estou com receio de ir muito fundo mais uma vez agora…”

Rosinha foi atendida. Sua opção naquele momento foi uma psicoterapia breve de um ano.

“Não consigo estudar pras provas!!!” – Plantão psicológico (2/4) – Exemplos Clínicos

Rosinha* não conseguia estudar para provas e veio até a clínica com essa queixa.  Esforçada, dedicava horas e horas aos estudos, mas… apesar de compreender o conteúdo e ao final do semestre ser aprovada, suas notas eram sempre limítrofes.

De forma geral, sentia-se bem. Sua escolha profissional era muito clara e o convívio social tranquilo. No entanto, vinha experimentando uma sensação crescente de fadiga, pior ainda às vésperas do Enem e das primeiras provas para o vestibular.

A estratégia de Rosinha* era ler muito e depois concentrar todos esforços na semana de provas. Reduzia o sono para 2h ou 3h tentando aprender ainda mais do conteúdo… “Mas nossa, é tenso… às vezes eu acabo cochilando à tarde… Olha, eu tenho até vergonha de falar, sabe? Mas outro dia eu dormi no meio da prova. Ainda bem que ninguém viu… Pior é que quando o professor entrega as provas, parece que eu sei mais ainda e fico me sentindo a burra das provas.”

Eis que havia um problema que merecia reflexão. Como Rosinha* poderia render nos estudos se não dormia? É sabido há tempos que o sono possui uma função reparadora, especialmente em relação ao funcionamento mental e… a coisa nem de longe para por aí…

Mas… não era o caso de entrar em detalhes técnicos com Rosinha* … Ela só queria poder passar no Enem e queria uma assistência de curta duração…

Enfim, Rosinha* entendeu que havia também a necessidade de que aquele conhecimento apreendido requeria um tempo de descanso para ser utilizado, como se fosse necessário esperar a poeira baixar para tal. E olhe que nem foi necessário falar tecnicamente de Piaget ou assimilação e acomodação…

Como era semana de provas, Rosinha* considerou o descanso como uma alternativa na qual fosse interessante investir, afinal, já havia estudado todo o assunto. “É… eu acho que sim… meio exagerado, né? Mas a gente fica vendo todo mundo falando que é só se esforçar bastante. Eu acho que tô é ficando maluca. Vou tentar fazer só uma revisão pra ver o que acontece.”

Feito isso, Rosinha* contou que seu desempenho foi ótimo.  Reservando um tempo maior para sono e entretenimento, ainda que estivesse mergulhada nos livros por algumas horas menos, sentia-se capaz de melhor concentração, menos fatigada e capaz de organizar melhor todos esses afazeres. Satisfeita com o progresso, tomou para si as reflexões alcançadas no plantão e recebeu alta.