Fúria e folia (um conto de Carnaval ou de lua cheia, quem sabe…)

“Eu não acredito que você fez uma coisa dessas, amiga!!!!” Foi com essa frase colada à mente que Ângela* ficou muda. Diante dela, mas dando as costas enquanto passava a esponja cheia de espuma num prato, Rosinha*, horrorizada.

Pensativa àquela altura da conversa, Ângela* começava a acreditar que tinha mesmo feito besteira. Ou talvez não?… Por fim, e na dúvida, resolveu manter o silêncio, concordar (não que concordasse com tudo) e foi embora, meio sem graça.

Gota à gota, a pia, se pudesse ver alguma coisa ou mesmo se alguma parte do aglomerado de compostos sedimentares que era, pudesse falar ou lembrar de algo com base na experiência que talvez tivesse se pudesse acumular memórias… saberia que Ângela* só tinha aproveitado a noite para ir um pouco além do que normalmente fazia: era moça, queria pura e simplesmente curtir a noite para ficar com vários outros jovens, coisa que já acontecia desde o começo da adolescência mas…

– Nossa, que galinha! – protestou, esbravejando solitariamente a dona da pia.

Com as palavras da amiga e a cena relatada muito viva flechando a consciência repetidamente, Rosinha* não podia admitir que a amiga tinha passado a noite com um desconhecido num motel. Achava isso um verdadeiro absurdo. Não obstante, se a pia pudesse observar as duas um pouco melhor, já que se tivesse olhos eles certamente estariam limpos de tanto sua dona passar-lhe pano… bem… o mármore falso teria visto uma moça muito satisfeita pelo feito (Ângela* sabia o nome do moço, claro) e outra horrorizada num mesmo instante.

– Loucura… fui fazer uma loucura, a-mi-ga-a!! Que loucura o quê?!?

Repetindo a fala da outra desdenhosamente, não havia bastado para Rosinha*, ficar brava e falar um montão de coisas. Ao terminar de arrumar a cozinha, ela ainda reclamou sozinha, xingou novamente e falou mais uma vez com espanto. Ângela* não era inocente mas, parecia que tinha exagerado, não é?

– É claro sim, claro que foi um exagero!!!

No meio daquela conversa coube a Ângela* se justificar e explicar, surpreendida por tamanha reação negativa da amiga. E convenhamos, ela tinha tomado todos os cuidados (e talvez até mais que muita gente): não foi no motel no mesmo carro e ela própria já levava preservativos na bolsa. Aliás, o moço também levava, o que deixava ainda mais óbvia a razão do encontro dos dois. E se a baladeira (que por sinal ainda trabalhava e estudava muito) não sabia se ele era mesmo solteiro ou não, ué… ele não era alguém com quem queria ficar além dessa noite de ontem. E que tinha sido maravilhosa…

– Nossa, que puta!!!… Que tinha que me mandar mensagem dizendo onde estava? Vai te catar!

A lâmpada se apaga e a pia fica entregue à luz da lua assim que Rosinha* sai. Pela porta, caindo na paredes, apenas a sombra da moça passando de um lado pro outro, se arrumando. Mas, ao contrário de outras vezes, ela não voltou nem um pouco cedo… aliás, estava tão irritada que “precisou” tomar um pouco de vinho antes de sair para ver se estaria melhor quando fosse sair com Ângela*.

E, com as horas… aquela noite se passou em silêncio. Aquele silêncio onde nada se escuta e nem se vê nada, de uma casa cujas vidas saíram por aí para retornar somente no dia seguinte…

– Nossa… – foi o que Rosinha* resmungou pondo as mãos na pia para se apoiar; estava um verdadeiro caco quando reapareceu.

Se pudesse, já que não tinha olhos, o mármore de mentira os teria apertado desconfiado, daquele jeito como quem pergunta: “e aí, o que aconteceu?”… Mas era só um granito e não poderia nunca acolher sua dona assustada.

Maquiagem toda borrada, a roupa torta, uma bolsa atravessada no meio do corpo e uma dor de cabeça horrível… Não, Rosinha* não estava conseguindo pensar direito e por fim largou os sapatinhos que carregava na mão, ali no chão da cozinha mesmo. Não era o que costumava fazer mas o fez e se sentou na cadeira ali mesmo, toda largada, alisando os lábios pensativamente.

Àquela altura, mal conseguia se lembrar da noite. Se a pia lhe perguntasse sobre o que havia bebido, ela não saberia nem dizer do copo de vinho antes de sair de casa. Descabelada, ela tenta ajeitar um pouco os fios, acenando negativamente com a cabeça, sem acreditar que há pouco acordara com um moço estranho bem do seu lado, num motel e atirado nele tudo o que tinha visto pela frente, antes de sair dali num Uber bufando raivosa.

E agora, olhando para o celular, que as delicadas mãos de esmaltes vermelhos afastam, Rosinha* se pergunta sobre o que dizer para a amiga. Mensagens perguntando sobre seu paradeiro e um monte de ligações. Havia uma vaga lembrança de silenciar o aparelho e jogá-lo no fundo da bolsa antes de ir para… onde mesmo?…

Era verdade que Rosinha* se lembrava muito pouco da noite. Sim, isso era verdade. Mas sua maior verdade é que não podia aceitar a chama acesa dentro de seu próprio corpo e aquilo que invejava tanto em Ângela*: o poder de soltar e dominar a própria chama para fazer praticamente tudo o que queria.

Como há de acontecer aos incautos que reprimem sem domar seus ferventes e borbulhantes desejos, o de Rosinha*, escapuliu total, completa e incontrolavelmente das mãos com as quais tanto buscava evitá-lo e mantê-lo quieto.

Se a pia fosse dada a fazer julgamentos como a própria dona, certamente a reprovaria veementemente agora.  Mas, ainda bem que não podia, afinal, Rosinha* já fazia isso tanto por querer quanto sem querer.

Rosinha* tinha aprendido que as coisas não poderiam ser daquela forma súbita e repentina: que seria preciso haver uma conquista, um relacionamento e, para talvez um dia haver algo mais íntimo.

Contudo, tamanha repressão dava as caras nas horas dedicadas a ouvir o quanto Ângela* “aprontava”: sempre queria saber com quem ela havia ficado, quando havia saído, o que tinha acontecido e etc. E ainda estava ali para aconselhar o contrário, assim como fizera ontem.

Era hipocrisia?

A pia, feita de seu indiferente mármore falso, poderia sim fazer uma boa observação, caso fosse dado a esses compostos sedimentares, alguma capacidade de se abster de julgar os humanos, diferentemente de como eles próprios estão tão habituados a fazer. E, livre de julgamento de valores, poderia logo perceber que dentro de uma mesma Rosinha* haviam duas: uma brigando para tentar satisfazer seus desejos mas, reprimida por outra, há anos poderosa e cruel ceifadora.

Mas, diante da primeira vitória da primeira Rosinha*, a segunda faz com que ela se ajoelhe no canto da cozinha e chore envergonhada, já que toda a força repressiva continua ali, tentando satisfazer não a si própria, mas ao que tanto esperavam e esperam dela até hoje.

E é assim, perdida, que Rosinha* se levanta enxugando as lágrimas que não são de uma ou de outra, mas todas dela mesma, mulher composta que sofre sem conseguir ser quem é, seja na repressão, seja na realização do desejo. Ela vira um remédio na boca e bebe a água da torneira mesmo. Estava feito e não tinha muito o que fazer agora a não ser engolir uma tal pílula, tomar um banho gelado e, bem… tentar entender ou esquecer a noite de lua cheia sob a qual havia se transformado.

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Revisado em 21 de fevereiro de 2020.

A mãe má

– De novo?… O que ela quer? Agora pouco ela não queria tomar remédio nem nada e agora chama de novo?!?

A enfermeira já havia perdido a paciência com aquela paciente, uma velha chata e insuportável, sobre a qual quais os filhos falavam que aquela “brabeza” e “rudeza” estavam além da conta, perguntando-se sobre velhice e doença, se elas poderiam deixar mesmo as pessoas assim…

– Nossa, ela tá bem pior do que era…

Tremendo de dor, Ângela* acabava cedendo momentaneamente vez ou outra. Era estranho… Sua filha mais nova saía do seu lado, cansada de ouvir tanta reclamação e ia lá fora, no balcão, tentar conversar com outras pessoas, desabafar um pouco.

– O que me deixa preocupada… além desse negócio dos remédios, é que ela não tá nem comendo, sabe?…

A equipe já sabia daquilo tudo e estava evitando o contato para evitar mais atritos. Ângela* não queria saber de nada, era um poço de revolta, absolutamente insatisfeita com qualquer coisa. Havia começado o tratamento, mas agora estava muito relutante.

– Ok, eu posso dar uma olhada nela sim, pelo que está me contando, é importante.

Depois de ouvir sobre a paciente, Misael* ajeitou seu avental e foi até lá atender uma interconsulta. Foi um dia. Depois, outro.  Por fim, foi várias vezes. Conversou com a equipe. Não foi um trabalho fácil.

– É, agora ela aceita alguns remédios, mas não quer comer muito não, só vomita… E fica lá fazendo cara feia pra tudo que eu falo… depois fala que vai parar de tomar remédios de novo… já não sei mais o que fazer… Dá vontade de ir embora para casa e nem voltar mais… deixar ela aí, fazer o que ela quiser.

Rosinha*, ali do outro lado do balcão, um pouco menos enfurecida, se perguntava o que Ângela* tinha afinal?… A equipe e a família sabiam bem do que se tratava, porém, aquela mulher que tinha boca para falar o que fosse a quem quer que fosse, não conseguia nem dizer o nome da doença que tinha e…

– Eu não quero nem saber, não fique me falando disso que eu não gosto e pronto! Ao invés de porem o meu nome aqui em cima da minha cabeça, coloquem para não me falar disso, que droga!!

Diante dos sinais físicos que Ângela* apresentava, estava óbvio que o problema requeria uma intervenção cirúrgica, já discutida à exaustão desde os primeiros exames, mas…

– Eu já sei o que foi que causou isso! Não preciso ficar falando, preciso ir lá e resolver, ora essa. Se eu fosse mais nova queria ver quem é que ia conseguir me segurar aqui dentro.

Àquela altura, a cada bufada e cruzada de braços, já não se sabia muito claramente quando Ângela* estava furiosa ou com dor. O fato é que a cada espasmo, ela olhava lá para fora e após algum tempo mudava sua feição.

– …

Não, ela não conseguia falar do que se tratava e levou algum tempo a conseguir isso. Perto da dor que sentia no corpo, essa outra nem tinha ao que se comparar. Não adiantava virar o rosto, fechar os olhos, virar na cama e nem tomar um “remédinho”, muito menos dormir. A dor era no fundo da alma.

Ângela* estava certa de que sua dor era fruto dos percalços de sua vida. E com isso, estava certa de que sua obrigação agora era reparar seus erros para se sentir melhor e só assim é que obteria a cura.

– Eu sei que sou ruim, mas é como aprendi a ser. Eles não acreditam, mas eu melhorei, eu quero melhorar. Só quero ser uma boa mãe…

Nesse ponto, Ângela* chorou compulsivamente, como talvez nunca tivesse feito na vida toda. Na verdade, nunca tinha olhado para si e àquela altura, revelava-se mais dura do que era.

No fundo, ela era assim consigo mesma e de certa forma, até pior do que com outras pessoas. Permanecer com dor era uma mistura cruel de auto-flagelo com penitência.

– Ela tem esse nome daquela enfermeira ali que fala que eu chamo ela toda hora… Rosa*.

Tratava-se da filha mais velha de Ângela*. Brigadas há muitos anos, não conseguia se achar digna da maternidade dela diante da mulher que a outra havia se tornado. Há anos mal falava com ela.

– Eu só queria pedir desculpas, sabe? Mas não consigo fazer essas coisas, não consigo!

Ângela*. Não se sentia digna da maternidade nem de Rosa* e nem dos outros dois filhos, mesmo diante do sucesso deles.

Algum tempo após ficar às portas de alta à pedido e alta sem cirurgia, o teor de raiva e revolta de Ângela* diminuíram e ela passou a cooperar um pouco. Não fazia sentido ser tão cruel consigo como estava sendo. Sua doença já estava instalada e consumindo seu corpo e, mesmo que se resolvesse com Rosa*, não ficaria fisicamente curada. Já havia um prejuízo de funções orgânicas e ela precisou melhorá-las até ficar em condições de ser operada.

– Não, não precisa chamar. Eu já até infartei nessa vida e saí. Vou lá do meu jeito. Não acredita?!? Só conseguir andar de novo…

Ângela*, que recusou que chamassem Rosa para vê-la, fez o seu tipo para o casal de filhos na manhã da cirurgia. Tomou banho sozinha, calçou e se descalçou sozinha. Tapou a boca sem dentes e, meio curvada, lenta, subindo amparada (um pouco à contragosto…) pelos outros e deitando na maca.

– Não precisam ficar chorando, eu volto logo… Se o médico não ficar enrolando.

Em meio às lágrimas, os filhos e Rosa* sorriram. Ângela* tinha lá um senso de humor no meio daquela cara de vózinha brava. Cobrava de si uma dureza monumental que se desfez assim que as portas da sala pré-anestésica se fecharam, pois tinha um medo: o de não ter mais tempo para consertar aquilo que achava ter feito de errado.

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Ah, leia também o próximo artigo, diretamente relacionado ao assunto abordado aqui!!!

A mãe má (considerações)

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Sugestões de leitura

Caso tenha se interessado pelo assunto, aqui vão mais alguns artigos:

Sintoma

O conceito de sintoma (Scielo)

BBC Brasil – Raiva e Irritação: os sintomas da depressão que muitas vezes ignoramos.

Pensamentos: indesejados e desnecessários? Uma odisséia de Ulisses

Ulisses tinha aqueles pensamentos perturbadores todos os dias. Ao terminar o trabalho, punha a máscara protetora para cima e olhava o serviço de solda, para checar se estava bem feito. Depois fazia o acabamento, pintava sempre com o mesmo fundo cinza e instalava para o cliente. Mas não conseguia deixar de ficar preocupado até ver seu produto em funcionamento por algum tempo.

Até aí tudo bem, se por acaso Ulisses se contentasse em deixar a vida seguir seu curso e, eventualmente contar com a possibilidade de alguém lhe ligar para reclamar de algum serviço, como muitas pessoas fazem normalmente.

No caso de Ulisses, o trabalho ficava tanto tempo na cabeça junto à expectativa de alguém reclamar, que no final de contas, ele acabava pegando a bicicleta velha (e com soldas trincadas) para passar na frente da casa dos clientes algumas vezes. Quando não trombava “ao acaso” com eles, acabava chamando para perguntar se o portão estava direito. Justificava-se dizendo que era sua forma de “fazer controle de qualidade”…

Às vezes, parado todo sujo ao lado da máquina de solda ou sobre a bicicleta, Ulisses passava o antebraço na testa suada. Normalmente achava que era esse o seu “normal” – ainda que clientes reclamando fossem uma coisa extremamente rara – de forma tal que insistia e continuava perdendo horrores de tempo com checagens e novas checagens.

Para piorar, apesar de toda polidez com o trabalho, Ulisses não conseguia conversar muito bem. Era breve nas palavras e quando parecia se soltar, logo gaguejava e dava um jeito de encerrar a conversa. “Tinha” que medir as palavras para não falar todos os palavrões que vinham na cabeça e para não assustar ninguém.

Ulisses melhorava quando bebia… ao menos era o que acreditava. Rosinha que o dissesse… Seu homem era um sujeito bastante difícil e que não aceitava jamais mudar nada. Não que ele não fosse capaz de lavar uma colher, nada disso… Ele só não considerava aceitável fazer o papel de uma mulher em casa, então, nem uma colher ele lavava.

A verdade é que Ulisses estava tomado por uma porção de pensamentos indesejados, sobre como é que faria se alguém reclamasse sobre a solda dos portões ou, o que achariam dele se passasse a lavar louças em casa ou, ainda, se ele deixasse de cuidar da fala e soltasse um palavrão diante de um cliente “tipo doutor”.

Certo dia, quando viu uma reportagem falando em eliminar pensamentos indesejados pensou em correr até uma farmácia. Mas… pensou… pensou mesmo um bocado e por fim… acabou passando reto com a bicicleta, correndo em seguida como diabo fugindo da cruz, tomado por uma preocupação terrível em saber que raios de pensamentos indesejados ele gostaria de eliminar. Teria que falar sobre isso com o farmacêutico? Claro!! Mas muita gente tomava remédio com aquele homem, não é?…

E para falar a verdade, esse era apenas mais um pensamento tomando forma, tendo como efeito o mesmo de todos os anteriores sem que Ulisses notasse: desse dia em diante, evitaria a rua da farmácia e faria um caminho mais longo só pra ninguém achar que ele poderia estar pensando em comprar algum remédio pra cabeça. Do herói mitológico, ali nada restava. Apenas pensamentos vagavam, uma estratégia singular e eficaz para fixar âncoras em qualquer lugar, nem que fosse para perder algum tempo caso não impossibilitasse fazer alguma coisa.

No caso de Ulisses, tal qual no caso de tantas outras pessoas, já não era tão simples identificar a origem de tantos pensamentos mas, o efeito produzido era claro: era parar a vida do sujeito.

Se Ulisses por acaso parasse com seus “pensamentos indesejados” e “manias” com a mesma facilidade de estourar um balão, ainda ficaria sem saber por qual razão estava paralisando sua vida. Mas, ele e muitos outros achavam que “esse” era Ulisses.

A marionete

Naquele dia Rosinha* já não tinha nem tempo de pensar se estava ou não cansada. Seu nome era Trabalho e seu sobrenome… Trabalho. Seria Hora Extra se não fosse “a crise econômica”…

Foi naquele plantão. Rosinha* não havia parado para beber água ou para ir ao banheiro. Ou… talvez tivesse. Mas, ocupada o quão estava, nem se lembrava e também não era algo que alguém ali fosse perguntar.

Se aquela pia no posto de enfermagem pudesse fazer mais que ser uma inerte e reluzente liga inoxidável, teria perdido as contas de quantas vezes Rosinha* nela havia lavado as mãos e o quanto de remédio que essa enfermeira já havia preparado. E se não estivesse ali apenas para aparar a água ou parte dos soros que tinham que ser postos no volume correto, poderia questionar a amiga quanto ao número de pacientes, que já era oito.

Caso fossem dadas a sair do lugar e ver – diferentemente da porcelana barata que eram – aquelas pias dos quartos, saberiam que Rosinha* estava fazendo de tudo para medicar, banhar e fazer curativos. Alguns pacientes tinham “perdido” as veias, mas logo a pródiga enfermeira estava lá para “pegar” outra.

Rosinha* podia fazer de tudo ali. Ela e seus colegas de trabalho, três para cuidar de quase trinta. Juntos, conseguiam dar conta de tudo. As coisas não estavam saindo nos horários certos mas, estavam saindo.

Foi quando no meio daquela correria apareceu uma nona paciente para Rosinha*. Tão comprometida com o trabalho que recebeu aquela senhora e deu boa noite carinhosamente. Alguém havia dito para receber o paciente mas, mesmo após fazer vários protestos, a jovem e elétrica enfermeira cedeu e a recebeu.

Curiosamente já havia levantado vários argumentos, dizendo que aquilo não era justo, pois já tinha muitos pacientes complicados, que estava sobrecarregada (tal como os seus colegas de plantão) e, que faltava menos de uma hora para ir embora. Mas alguém por fim argumentou do outro lado da linha:

– É uma senhora de 70 anos, poderia ser a sua mãe!!!

Isso doeu no coração de Rosinha*. Criada pela avó, sentiu todo aquele peso lhe balançar as pernas. Tomada por um quase desespero de quem, sem saber, havia se identificado com uma parte da história, recebeu a tal senhora de 70 anos.

Se a pia pudesse ouvir a conversa pelo telefone, e se pudesse fazer amizades, talvez questionasse a provável amiga, perguntando- lha se não percebia que toda aquela estrutura usava e abusava das pessoas na medida em que aprendia por onde lhes mexer os fios certos.

Rosinha* não conseguia se opor a certos argumentos, pois supostamente deveria fazer isso ou aquilo “pensando” no paciente. Sensível, se comovia com o estado que aquelas pessoas chegavam. Além disso, sempre aparecia alguém dizendo que ela era um anjo para inflar um ego que só nessas horas parecia valer algo… para os outros.

Mas… que anjo ingênuo esse, para jamais perceber que sob os argumentos de ter nascido para a profissão, de ter que se preocupar com o outro, de isso e sabe-se lá o quê, não passava de um brinquedo para aqueles que ficavam só atrás do palco, sem viver as cenas do espetáculo?

Rosinha* não tinha parado para pensar que aquela senhora que ela recebera e acomodava na cama, uma vez além de suas capacidades, ficaria apenas ali no leito. Sem a devida atenção, aquele coração de setenta e poucos padeceria fatalmente em umas duas horas por causa de um ritmo bem esquisito, ao qual ninguém havia prestado a devida atenção, já que o problema daquela “vózinha” supostamente estava numa dor de estômago, e os aparelhos portáteis de “PA” comprados para “agilizar” o serviço não eram capazes de cumprir o que dedos e ouvidos fazem bem… (quando devidamente aparelhados de estetoscópios e esfigmomanômetros).

Não era só Rosinha* que havia se comovido, mas havia muito mais gente que passava pelo mesmo naquele hospital. Talvez se comovessem muito mais se soubessem que eram apenas bonecos presos em fios, dos quais precisavam urgentemente se livrar para justamente evitar, aquilo que tentavam tanto evitar.

“Qual meu diagnóstico, doutor?”

Eu já tive que responder a essa pergunta algumas vezes no consultório e também é uma pergunta que sempre aparece numa brincadeira ou numa roda de conversa. Mas afinal, de que serve um diagnóstico?

A resposta é…  depende.

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Do ponto de vista mais prático, o diagnóstico pode servir (e serve) para estabelecer algumas vias para alguns tipos de tratamento, especialmente naqueles que implicam em acompanhamento conjunto com outros profissionais. Ou seja, serve para auxiliar no “diálogo” entre profissionais de diferentes áreas (especialmente em relação aos profissionais mais céticos com relação ao trabalho em saúde mental).

Por outro lado, um código do DSM-IV ou do CID10 não traduz a sua subjetividade e nem me diz quem você é em relação à sua história, que por sua vez é constituída de uma série de vivências e sentimentos.

A busca por um diagnóstico pode camuflar uma tentativa de evitar sair de uma determinada linha de investigação e tratamento para não esbarrar em coisas que “tocam a alma”, que são aquelas coisas que você pode ter feito ou deixado de fazer e que são bem diferentes daquela conversa “ah, mas eu já sou resolvido quanto a isso…”.

Quando aplicado à crianças, o diagnóstico requer cuidados especiais, pois eles podem servir como um ponto de identificação e, à partir daí, fazer com que os pequenos atuem tal como se esperam deles.

A essa altura já aparecem aqueles que protestam “a mil raios e trovões”, afinal, uma resposta pronta, rápida e, principalmente “sem margens”, é muito mais fácil de aceitar o quão é extenso e trabalhoso compreender e aceitar que cada pessoa é única.

Sua história e a de todos outros é única, não podendo jamais ser resumida a um modelo ou aos limites postos por esse ou aquela normativa, ainda mais quando se fala de subjetividade.

(revisado e republicado em 07/09/2018)

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“Quando volto pra minha casa, eu fico muito triste…”

Rosinha já tinha quase 70 anos. De alguns anos para cá passou a receber acompanhamento psiquiátrico no centro de saúde, até aceitar a recomendação de passar por psicoterapia. No consultório, mostrou-se uma pessoa amena, delicada, mas com algumas contradições: “Só quando eu era muito pequena, eu saía com meus irmãos pra matar ratos, cobras, sabe? (risos) Olha que coisa doida, eu menina, caçando cobra pra matar… (risos) Mas aí um dia meu pai me bateu, que falou que era perigoso. (silêncio e ela se encolheu na poltrona) Minha mãe já tinha falado, mas aquele dia eu apanhei muito…”. Era casada com Ulisses, tinha vivido uma vida difícil criando com 5 filhos, mas, dizia viver com um homem que não amava há muito tempo. “Apanhei a vida toda. Vivi isso tudo por conta dos meus filhos, mas agora eles já cresceram, né?”

Ela não parecia cogitar a separação, mas a distância do marido parecia fazê-la feliz: “Olha, vou te contar, pelo menos eu não tenho que cozinhar pra ele, sabe?”.  Curiosamente, a desgraça do marido tinha um efeito parecido… o que se revelava nos sorrisos ao contar que ele tinha caído ou ficado doente. “Nossa, naquele dia que ele caiu da escada na minha frente, eu fiquei olhando ele caído ali no chão assim… (ela arregalou os olhos) e ele gritando pra mim socorrer ele… Juro que eu não sabia o que fazer na hora, sabe? (risos) E olha que eu sou enfermeira… (risos) Eu em pé aqui assim e ele ali com a perna toda dobrada desse jeito assim se arrastando que nem cobra, sabe? (risos) Deu vontade de falar pra ele, não foi você quem não me deixou trabalhar de enfermeira? Agora você quer uma, né? (ela fez uma cara feia, mas riu depois novamente)”. Entristecida Rosinha ficava ao retornar para o mesmo teto que ele: “Geralmente eu tenho ido só com minhas filhas, mas sempre que volto do interior, eu fico triste… Aqui é melhor de viver, mas eu fico muito triste…”.

No fundo, Rosinha queria ver o marido muito bem morto e não era preciso olhar muito à fundo para perceber isso. Entretanto, diante da história de vida que havia apresentado, cheia de ódio reprimido até então, seria muito perigoso (e imprudente) deixar às claras de qualquer forma o que ela desejava de verdade (e que estava reprimido). Isso poderia transformá-la numa homicida de verdade. O companheiro dela estava velho, dependente e se arrastando, enquanto ela, ainda que necessitasse de uma bengala, podia fazer muita coisa.

“Psicólogo só conversa?!? Psicoterapia é bate-papo?” – O que se fala no consultório?

Quando se pergunta o que fazemos no consultório, não raras vezes as pessoas pensam que estamos ali somente para ouvir, ficar sentados com cara de paisagem e… pasmem… não dizer nada.

Conversas, bate-papos, e similares estão no cotidiano, assim, é normal que sirvam como referências para outros tipos de “conversas”. Em pleno século XXI, psicologia e psicanálise continuam envoltas num manto de mistério.

Quando uma pessoa vai ao consultório, o profissional que está lá para ouvi-la precisará estar atento tanto ao que ela diz objetivamente quanto ao que diz subjetivamente.

Isso não quer dizer que o profissional esteja lá para dizer o que alguém fez ou deixou de fazer certo ou errado, nem para julgar ou coisas parecidas. O psicólogo ou o psicanalista está lá para ouvir o que você ou algum outro paciente têm a dizer à respeito de uma determinada razão. Pode não parecer tão óbvio num primeiro momento mas, julgar alguém é um instrumento que serve para acabar com qualquer conversa. Mas, não se engane… não julgar não é compactuar com ninguém, já que isso pode facilmente implicar num conluio para fazer parecer que não há nada relevante ocorrendo.

O ser humano é o grande elemento que faz diferença no consultório. Ainda que o profissional esteja ali depois de centenas e até mesmo milhares de paginas lidas, ele não vai ficar fazendo considerações à partir de autores da psicologia ou da psicanálise. E não vai, pois isso só serviria para tomar espaço que é do paciente falar ou, do próprio profissional falar.

O profissional também fala no consultório?!?

Sim, fala, com certeza. Mas, tudo depende de muita coisa. A fala do profissional é uma intervenção e, como a lâmina de um bisturi, cabe ser utilizada com muito critério.

Vamos considerar o primeiro contato de um paciente com um profissional:

  • o paciente foi, conversou com o psicólogo e combinaram um horário.

Ainda que possa parecer pouco relevante, o profissional precisa ter minimamente a consideração de que o paciente não possa vir nesse ou naquele horário por já ter algum outro compromisso prévio. Mas também pode acontecer desse mesmo paciente aceitar qualquer horário.

O psicólogo e o psicanalista precisam “guardar” certas informações que para muitos podem parecer “bobas” mas, que em algum momento vão ter relevância quando se juntarem a outras. Isso acontece porquê há elementos dentro de uma psicoterapia ou de uma psicanálise que só fazem sentido quando observadas em conjunto.

A escuta e a observação das diversas formas de linguagem que uma pessoa emite, são aquilo que o profissional tem para fazer o exame do estado mental. Quando se trata de crianças, são incluídos jogos ou uma caixa de brinquedos, pois é através da brincadeira que elas lidam com suas questões afetivas (ou seja, brincadeira de criança é encarada como coisa séria).

O exame do estado mental está para o exame físico assim como o trabalho dos profissionais de saúde mental está para o trabalho dos profissionais de saúde física.
Diferentemente de um médico, odontologista ou fisioterapeuta que, depois de um pouco de conversa partem para exames físicos, imagens ou laboratoriais, os psicólogos, psiquiatras e psicanalistas têm nas manifestações de seus pacientes o que precisam para examinar. Ou seja, quanto mais é necessário examinar seu paciente, mais é necessário ouvi-los. Por essa razão, às vezes é importante ouvir uma mesma coisa mais de uma vez.

Como uma comparação às investigações que conduzem ao diagnóstico de cálculos renais, vesiculares, tumores e tantas outras coisas, quando se trata da saúde mental das pessoas podemos observar que não é possível:

  • apalpar uma ansiedade;
  • radiografar um estado depressivo;
  • usar contrastes para focalizar melhor uma neurose.

E ainda que no futuro seja possível fazer algo do tipo, doenças mentais se desenvolvem ao longo da vida de uma pessoa, sendo sempre necessário constituir um trabalho específico para cada uma delas, o que implica também no ritmo desse tratamento.

Ou seja:

Cada pessoa tem as suas particularidades, mesmo que possa haver semelhanças no funcionamento psíquico. Ninguém tem a vida igual à outra pessoa, já que não é possível dois ocuparem o mesmo lugar no tempo e no espaço.

Pois bem…

Então… além da conversa servir para exame e tratamento, ainda tem o agravante de cada pessoa ser única?

Sim! E com isso toda uma necessidade do profissional olhar para cada pessoa como única, diagnosticar com base nessas peculiaridades e, planejar um atendimento único para ela!

Por exemplo, algumas pessoas já começam a falar mais livremente dos seus problemas, enquanto outras precisam de mais daquelas conversas de “quebrar o gelo” no começo. Em ambos os casos, não dosar bem o teor da conversa pode ser desastroso, já que um poderia perder interesse ao conversar futilidades e o outro, fugir assustado com uma conversa mais aprofundada sobre algo mais íntimo.

Assim, pode ser necessário para alguns pacientes que o ritmo das primeiras sessões seja mais lento, mais suave, cabendo até mesmo alguma conversa “mais banal”. A “quebra de gelo” pode ajudar a criar um clima mais confortável para que surjam questões mais importantes.

Em contrapartida, alguns dos pacientes mais “soltos” podem tentar falar muito e de muitas coisas para que não haja espaço para o profissional que o examina, dizer muita coisa. Naturalmente, isso implica em outras formas de intervenção.

Depois que os primeiros momentos de uma psicoterapia deram certo, é interessante que a pessoa vá ficando mais à vontade para “se mostrar” afetivamente. Chegar a esse ponto pode levar bastante tempo, já que pode carregar tanta tensão quanto é para algumas pessoas, o ato de “tirar a roupa” para ser examinada pelo médico.

Conforme a pessoa vá entrando nesse caminho para se descobrir, redescobrir, pensar, repensar coisas que estão presentes e até mesmo outras, que ela pensava já estarem resolvidas, é natural que o profissional passe a lidar com mais e mais “mecanismos de defesa”. Esses mecanismos funcionam basicamente para evitemos sofrimento psíquico, de forma mais ou menos parecida com que se evita sofrimento físico, o que pode incluir manifestações de sintomas como:

  • esquecimentos totais ou parciais de momentos importantes;
  • dores inespecíficas;
  • doenças psicossomáticas.

Quando o profissional se depara com “defesas” é de primordial importância que a conversa de consultório não caminhe como uma conversa comum. São em momentos que o paciente gagueja, fala alguma coisa fora do contexto, diz que esqueceu ou muda de assunto sem terminar o anterior que requerem mais atenção.

Os atos falhos, lapsos de memória, dores inespecíficas (incluindo não raramente dores de cabeça e reações auto-imunes), costumam ter conexões com questões psíquicas bastante importantes mas… são coisas que o paciente não percebe ou, na melhor das hipóteses, tem alguma ideia delas.

E aí é que se segue outra parte desse trabalho, surgindo interrogações sobre o que causou tais manifestações dos mecanismos de defesa e, ao mesmo tempo, a necessidade ou de manter um assunto em pauta ou, de explorar a própria manifestação da “defesa”. E tudo isso, dentro dos limites do suportável para seu paciente (afinal, se ele não percebe algo, é porquê há razões para isso).

Muito provavelmente você deve estar percebendo que o trabalho de consultório não é apenas uma conversa. Aqui eu coloquei de forma ilustrativa um cenário que se pode ter no divã ou na poltrona mas, não coloquei uma problemática específica, pois isso tornaria tudo mais complicado para entender.

Em plenos século XXI ainda há quem tente desqualificar o trabalho dos profissionais de saúde mental, mas é algo que normalmente é possível encarar como sintoma, já que esse tipo de coisa costuma funcionar através de uma via “defensiva” (que também inclui atacar ao outro para defender uma espécie de “paz” interior, que no fundo costuma ser uma grande mentira).

Em suma:

O assunto no consultório tem que ser algo importante para o paciente e que possa ser sentido por ele desta forma.

*(artigo editado em 14 de julho de 2018 – Julguei melhor rever algumas colocações, deixar o texto mais leve e acessível. Inclusive, condensei algumas ideias e eliminei a terceira parte dessa série, para não ficar com texto redundante.)

**(na revisão de 24 de outubro de 2019 – revi novamente as colocações e lancei mais luzes ao que estava obscuro.)