Ansiedade

A ansiedade não é um traço de personalidade e sim, um sintoma. Sintoma, por sua vez, diz respeito a algo que uma pessoa sente em relação a algo que acontece seja subjetivamente, organicamente ou, funcionalmente.

Noutras palavras, a ansiedade é um sintoma de que algo está acontecendo com a pessoa, mas que nem sempre ela sabe bem o que é.

Ansiedade pode estar relacionada a questões pontuais e bastante claras, como:

  • vésperas de uma cirurgia;
  • vésperas de provas (final de ano, vestibular, CNH e outras);
  • um encontro importante.

Nesses casos você deve imaginar que a ansiedade não é um problema e, de fato, não é. Contudo, a coisa deve ser encarada com mais cautela (e até como doença) na medida em que os sintomas se agravam, seja em intensidade, duração e reincidência, que por sua vez podem estar associados a outros sintomas como:

  • dificuldade para respirar;
  • batedeira no peito;
  • euforia (vontade de sair correndo desesperadamente, se mexer muito, ter que sair do lugar onde está de qualquer maneira ou de se agitar muito mesmo);
  • medo de morte iminente;
  • preocupação excessiva e muito antecipada a coisas que podem acontecer (preocupação excessiva com algum evento distante semanas à frente, por exemplo);
  • insônia (pode incluir sono ruim com pesadelos);
  • dificuldade de concentração;
  • mal estar inespecífico.

A ansiedade vai ter suas causas e sintomas específicos para cada pessoa. Como consequência, o tratamento também deverá ser específico, à começar do diagnóstico. Essa fase diagnóstica implica no profissional ouvir mais sobre a história do paciente com o objetivo de:

  • estabelecer um vínculo com o paciente;
  • conhecer mais sobre essa ansiedade relatada e como o paciente lida com ela;
  • saber sobre e como essa pessoa lida com a própria vida.
  • estabelecer um diagnóstico sobre o que causa essa ansiedade, bem como um prognóstico;
  • pensar em formas de tratamento possível e discuti-las com o paciente, inclusive podendo haver a necessidade de um diagnóstico diferencial de alguma outra patologia, em alguns casos.

Como digo e reforço, a ansiedade não é traço de personalidade, tem tratamento e cura. Você não precisa conviver com isso pela vida toda e nem com as perdas implicadas, entretanto, é a você que sofre que cabe buscar ajuda. Nem todos os casos de ansiedade são para tomar remédio e o objetivo é que a pessoa que precise, melhore e possa deixar essas medicações gradativamente.

Quanto mais demorada é a procura por tratamento de ansiedade, maior o risco de agravamento, podendo ela evoluir para estados depressivos, colaborar para acentuar ainda mais manias, fobias e também para a síndrome do pânico.

Ou seja:

  • – quanto maior a demora em procurar tratamento para saúde mental, maiores as chances de um problema se associar à ansiedade e vice-versa;
  • – quanto maior a demora em tratar a ansiedade, maior a chance desse tratamento também requerer um suporte psiquiátrico.

Ansiedade e medicação

Como disse, nem todo tratamento de ansiedade implica em medicamentos, ou seja, nem sempre é necessário um acompanhamento psiquiátrico.

O uso de remédios tem por finalidade única e exclusiva amenizar, diminuir os sintomas ao ponto em que consiga minimamente retomar algumas atividade cotidianas. Não é interessante o “desaparecimento completo” dos sintomas, pois isso dificulta o tratamento de tal forma, que a pessoa corre o risco de desenvolver algum outro tipo de sintoma.

Isto é:

Se a pessoa deixar de sentir completamente o que sentia em relação a uma determinada situação, ficará muitíssimo difícil ouvir e trabalhar o que até então estava acontecendo. Isso significa que a pessoa passará por cima de um ponto conflitante ainda mais vezes, o que poderá fazer com o que era um sintoma em um lugar, passe a se manifestar noutro, o que inclui a possibilidade de desenvolver doenças físicas de vários tipos.

Ansiedade requer uma escuta adequada para ser devidamente tratada e isso só pode ser feito através de psicanálise ou de psicoterapias. Só tomar remédios não vai resolver e, lidar com ela como se fosse um traço de personalidade só vai trazer um acúmulo maior de prejuízos.

Aliás, tratar ansiedade como traço de personalidade pode ser se conformar com algo que não é normal e que tem tratamento, um tratamento que implica em você falar, pensar e repensar sua vida em profundidade junto a um profissional habilitado.

Você é ou acha que é ansioso? Venha conversar!!

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TOC – Transtorno Obsessivo-Compulsivo

O transtorno obsessivo compulsivo é conhecido por algumas características mais “famosas”, como:

  • pensamento fixo em alguma coisa;
  • repetições;
  • manias e rituais;
  • fazer coisas sem saber propriamente por qual razão (repetidamente).

Mas antes de entrar no assunto propriamente dito, vamos ver também o que diz o CID10:

F42 Transtorno obsessivo-compulsivo
Transtorno caracterizado essencialmente por idéias obsessivas ou por comportamentos compulsivos recorrentes. As idéias obsessivas são pensamentos, representações ou impulsos, que se intrometem na consciência do sujeito de modo repetitivo e estereotipado. Em regra geral, elas perturbam muito o sujeito, o qual tenta, freqüentemente resistir-lhes, mas sem sucesso. O sujeito reconhece, entretanto, que se trata de seus próprios pensamentos, mas estranhos à sua vontade e em geral desprazeirosos. Os comportamentos e os rituais compulsivos são atividades estereotipadas repetitivas. O sujeito não tira prazer direto algum da realização destes atos os quais, por outro lado, não levam à realização de tarefas úteis por si mesmas. O comportamento compulsivo tem por finalidade prevenir algum evento objetivamente improvável, freqüentemente implicando dano ao sujeito ou causado por ele, que ele(a) teme que possa ocorrer. O sujeito reconhece habitualmente o absurdo e a inutilidade de seu comportamento e faz esforços repetidos para resistir-lhes. O transtorno se acompanha quase sempre de ansiedade. Esta ansiedade se agrava quando o sujeito tenta resistir à sua atividade compulsiva.
Inclui:
neurose:
– anancástica
– obsessivo-compulsiva

Fonte: Data SUS <http://www.datasus.gov.br/cid10/V2008/WebHelp/f40_f48.htm> Acesso em 24/11/2019.

O que por sua vez exclui a personalidade ancástica, que é essa descrita aqui:

F60.5 Personalidade anancástica
Transtorno da personalidade caracterizado por um sentimento de dúvida, perfeccionismo, escrupulosidade, verificações, e preocupação com pormenores, obstinação, prudência e rigidez excessivas. O transtorno pode se acompanhar de pensamentos ou de impulsos repetitivos e intrusivos não atingindo a gravidade de um transtorno obsessivo-compulsivo.
Personalidade (transtorno da):
– compulsiva
– obsessiva
– obsessiva-compulsiva

Exclui:
transtorno obsessivo-compulsivo (F42.-)

Fonte: Data SUS <http://www.datasus.gov.br/cid10/V2008/WebHelp/f60_f69.htm#F60> Acesso em 24/11/2019.

Como é mencionado aí em cima, há ideias e comportamentos recorrentes ou, também pode haver os dois juntos. Essas manias, repetições e compulsões em fazer coisas sem saber direito porquê, têm um significado que vai variar de uma pessoa para pessoa.

A coisa é mais complexa do que costuma parecer. Como o significado de cada ação é único para cada pessoa, a investigação (psicodiagnóstico) ou psicanálise de cada caso, seguirá uma direção em particular. É necessário conversar sobre muitas coisas, inclusive, pode ser necessário voltar ao mesmo assunto mais de uma vez para explorá-lo mais e mais à fundo.

O agravamento de um transtorno obsessivo (ou neurose obsessiva) pode implicar em timidez excessiva, isolamento, ansiedade em graus insuportáveis e, muitas vezes, comportamentos que podem “enlouquecer” quem está ali por perto.

Nos dias atuais, como há muitos grupos sociais, é natural que muitos obsessivos se juntem e terminem por fomentar ainda mais as próprias neuroses como se fossem coisas naturais e normais. À partir disso, a coisa pode piorar na medida em que fazem os outros (que estão fora de seu grupo) acreditarem que eles são mesmo normais (afinal, estão juntos aos montes).

Ou seja:

À partir desse exemplo você pode observar que neuróticos obsessivos podem ser extremamente convincentes com relação aos seus infindáveis argumentos em relação a determinado assunto. Da mesma forma, podem não se cansar de argumentar ou, ainda, se enrolar extraordinariamente em uma situação bastante simples sob os mais infindáveis pretextos.

Isso acontece pois é importante para eles a “conservação” da própria doença. Isso não significa que eles simplesmente queiram ser do jeito que são, mas o fato é que não é fácil lidar com a mudança e nem romper com aquilo que incomoda.

Conservar a “neurose” têm um custo alto: trata-se de viver uma vida cheia de preocupações (não raras vezes insanas) e com várias (se não uma infinidade) de privações, que vão desde a de poder viver tranquilamente, as de se aproximar e se relacionar mais à fundo com as pessoas.

O tratamento tende a ser longo, mas depende muito da disponibilidade em encarar a si mesmo e a encarar todos os desafios para mudar. Não se trata de resumir a coisa toda ao aprender coisas novas e sim, em mudar como lidar com a própria vida. A associação medicamentosa pode existir, mas serve mais para o tratamento de sintomas secundários, como ansiedade e depressão.

Você se identifica com esse transtorno ou com essa personalidade? Sente que manias, repetições e outras coisas o incomodam? Então entre em contato e venha conversar comigo!

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Depressão

A depressão se transformou em algo muito falado hoje em dia, entretanto, seu significado só está começando a ser difundido por aí. Como outras doenças mentais, não é um assunto simples.

Compreender e tratar a depressão leva algum tempo. Como o assunto é complexo, para muitas pessoas é melhor encerrar o assunto com alguma fala do tipo:

“antes não tinha dessas coisas”

“isso aí é frescura”

“isso é falta de ocupar a cabeça”

Há tantos exemplos que chega a ser desnecessário mencionar mais, não é? Mas, vamos por partes.

A via pela qual muitas pessoas ficam conhecendo a depressão é a psiquiátrica. Como falar de doenças costuma remeter aos médicos, convém citar o CID 10, antes de nos aprofundarmos no assunto da maneira que ele merece:

F32 Episódios depressivos
Nos episódios típicos de cada um dos três graus de depressão: leve, moderado ou grave, o paciente apresenta um rebaixamento do humor, redução da energia e diminuição da atividade. Existe alteração da capacidade de experimentar o prazer, perda de interesse, diminuição da capacidade de concentração, associadas em geral à fadiga importante, mesmo após um esforço mínimo. Observam-se em geral problemas do sono e diminuição do apetite. Existe quase sempre uma diminuição da auto-estima e da autoconfiança e freqüentemente idéias de culpabilidade e ou de indignidade, mesmo nas formas leves. O humor depressivo varia pouco de dia para dia ou segundo as circunstâncias e pode se acompanhar de sintomas ditos “somáticos”, por exemplo perda de interesse ou prazer, despertar matinal precoce, várias horas antes da hora habitual de despertar, agravamento matinal da depressão, lentidão psicomotora importante, agitação, perda de apetite, perda de peso e perda da libido. O número e a gravidade dos sintomas permitem determinar três graus de um episódio depressivo: leve, moderado e grave.
Inclui:
episódios isolados de (um) (uma):
– depressão;
– psicogênica;
– reativa;
– reação depressiva.

Exclui:
quando associados com transtornos de conduta em F91.- (F92.0)
transtornos (de):
– adaptação (F43.2)
– depressivo recorrente (F33.-)

F32.0 Episódio depressivo leve
Geralmente estão presentes ao menos dois ou três dos sintomas citados anteriormente. O paciente usualmente sofre com a presença destes sintomas mas provavelmente será capaz de desempenhar a maior parte das atividades.

F32.1 Episódio depressivo moderado
Geralmente estão presentes quatro ou mais dos sintomas citados anteriormente e o paciente aparentemente tem muita dificuldade para continuar a desempenhar as atividades de rotina.

F32.2 Episódio depressivo grave sem sintomas psicóticos
Episódio depressivo onde vários dos sintomas são marcantes e angustiantes, tipicamente a perda da auto-estima e idéias de desvalia ou culpa. As idéias e os atos suicidas são comuns e observa-se em geral uma série de sintomas “somáticos”.
Depressão:
– agitada 
– maior
– vital

Fonte: Data SUS <http://www.datasus.gov.br/cid10/V2008/WebHelp/f30_f39.htm> Acesso em 24/11/2019 

Pois bem. Há muitos sinais e sintomas para definir o que é uma depressão dentro do CID10, não é? Mas ainda assim, essa compilação de códigos não é de longe o suficiente.

Por exemplo, existe o luto. Ele pode se parecer com a depressão, mas tem algumas diferenças que depois explico um pouco.

O luto é uma espécie de entristecimento causado por alguma perda, podendo ser marcado por desinteresse, angústia, pensamento recorrente no que foi perdido, além de lamentações nesse mesmo sentido. Não está necessariamente ligado a uma perda física, mas se aplica a outras, como a de perder um objeto ou bem querido, término de relacionamento ou quebras de vínculos (como mudança de escola, emprego ou profissão).

Lidar com uma perda implica em um gasto de energia para elaborar, entender, absorver e passar a lidar com a realidade de outra forma, se direcionando para outra coisa. Então, não será do dia para a noite que as pessoas deixarão de ficar enlutadas.

A elaboração do luto pode levar uns dois anos. Entretanto, como noutros casos em saúde mental, a intensidade dos sintomas pode requerer um suporte profissional para observar e escutar melhor o que está se passando, não sendo necessário esperar sozinho que tudo passe por si só. Aliás, o luto só é elaborado quando há um espaço para isso, o que pode acontecer falando à respeito, por exemplo.

Agora voltemos à depressão propriamente dita.

Na psicanálise, Freud a definiu como melancolia para diferenciá-la do luto. Isso aconteceu pois ao ouvir os pacientes, percebeu-se que ainda que alguns sinais e sintomas sejam parecidos, a forma como surgem e como se desenrolam são diferentes estruturalmente.

No caso do luto, a perda é de algo de fora. No caso da depressão (ou melancolia), é como se a pessoa tivesse lamentando a perda de um pedaço dela própria, como se sua personalidade estivesse mutilada e sofrendo por isso; isso tem uma implicação bem importante na auto-estima.

A coisa parece que está se complicando, não?

Sim, é um bocado complexa. A prática clínica mostra que a depressão pode estar associada a questões de formação de personalidade, o que fica bastante complicado de explicar aqui, o que me faria fugir da proposta da página.

Em relação ao diagnóstico e ao tratamento da depressão, eles podem demorar, já que implicam no tocar em lembranças doloridas. Isso requer cuidados, pois o sofrimento do paciente pode agravar os sintomas, mas precisa estar dentro do suportável para ele. Ou seja, não se pode escavar as memórias e sentimentos de alguém de qualquer jeito, pois isso pode acabar fazendo bastante mal.

Em relação a associação medicamentosa, é mais frequente as pessoas irem ao psiquiatra, receberem medicação e perceberem que só com comprimidos elas não voltam a ser como eram. Nessa fase alguns abandonam tratamento ou buscam outro psiquiatra. Entretanto, o ideal é a pessoa ir atrás de psicoterapia ou de psicanálise mantendo o tratamento prévio, tendo em vista que é importantíssimo ser ouvido o que está relacionado ao que trouxe e ao que se liga essa depressão.

Como disse, o CID10 fala dos sinais e sintomas da depressão mas, deixa muita coisa importante de fora que precisa ser avaliada e tratada pelos profissionais de saúde mental.

Você pode chegar ao consultório com um diagnóstico CID10, dizendo qual tipo de depressão que tem, com lista de remédios e carta de encaminhamento nas mãos. Só que essas coisas não falam sobre a sua história de vida e não vão servir por si só, para explicar como é que você adoeceu. O adoecimento é como um ponto que está ligado a outros pontos, mas que também vai formar outros pontos na medida em que ocorrerem recaídas e os altos e baixos da vida.

Difícil, não é?

É difícil sim. E por isso mesmo requer tanto do paciente quanto de seu terapeuta ou analista, empenho e comprometimento. O trabalho no consultório é feito de descobertas, redescobertas, lembranças, relembranças e escritos e reescritos. O ritmo deve ser adequado de caso para caso, pois como disse, é natural que cada pessoa tenha o seu limite para suportar sofrimento na medida em que tenta sair de onde está. Mas o tratamento é importante e pode sim conduzir à cura, o que naturalmente deverá implicar numa disposição do paciente em repensar coisas em sua vida.

E quanto às recaídas?

As recaídas podem se dar, por exemplo, na medida em que o deprimido consegue chamar atenção para a sua condição. Com isso, ele muda o ambiente ao redor, muitas vezes apenas temporariamente. Na medida em que melhora, seus arredores voltam ao que era antes e aí há o risco tanto da recaída, como dela não ter o mesmo efeito nos outros. À partir daí, as formas de tentar “chamar atenção para o sofrimento”, podem piorar.

Querer chamar a atenção não envolve um “querer consciente” na maioria dos casos. Essa é uma razão pela qual tanto pode fazer se após uma crise a pessoa ouve xingamentos ou recebe abraços. Se for questão de receber algo, isso vai satisfazê-la em relação ao inconsciente dela.

Não adianta muita coisa ficar se perguntando o que essa pessoa que está sofrendo quer e tentar oferecer isso. É preciso que ela tenha como dizer o que quer e para alguém que possa ouvi-la de uma forma mais apropriada.

Outra forma de recaída no tratamento da depressão é quando a pessoa tenta fazer algo diferente e isso não dá certo. Ou, quando ela se vê de cara com um acontecimento sofrível (afinal, no meio do tratamento podem acontecer imprevistos ou outros eventos traumáticos, como acidentes e lutos). Por isso é importante tanto o tratamento quanto sua continuidade: para amortecer e para ajudar a lidar com esses outros momentos delicados sem deixar as questões principais de lado.

Associações da depressão com outras doenças

A depressão pode ser uma doença secundária a outras de saúde mental, como em alguns obsessivos, portadores de histeria e em ansiedades má tratadas. Seja como for, a depressão sempre merece uma escuta e um tratamento cuidadosos. O tempo para a cura vai variar muito de caso para caso, não necessariamente requerendo o tratamento psiquiátrico, muito embora a maioria costume vir por esta via.

Mas como disse, a depressão pode ser uma doença secundária. Assim, muito embora ela possa ser curada, isso não quer dizer que o que a trouxe foi. Portanto, o tratamento da depressão pode não ser o fim de um tratamento e, caso essa questão não seja considerada com a devida atenção, pode ser um fator que implique em recaídas ainda mais sérias no futuro.

E quanto ao suicídio, as tentativas de suicídio e o auto-flagelo?

Elas estão associadas a quadros mais graves de depressão, mas não é regra geral que elas sejam formas de tentar chamar a atenção. Aliás, é uma observação um bocado superficial que se popularizou por aí.

Suicídio, tentativas de suicídio e auto-flagelo podem estar associados a:

  • tentativa de lidar com algo insuportável e conflitante: vamos dizer que em alguns casos a pessoa faz mal a si para causar culpa no outro, mas também pode fazer a mesma coisa para evitar causar mal ao outro, seja direta ou indiretamente;
  • se sentir insignificante e tratar a si próprio também com insignificância;
  • punir a si próprio por algum desejo proibitivo, ou por algum fracasso ou mesmo, sucesso.

Seja qual for a razão que fez a pessoa ficar deprimida, para sair da doença será preciso mudar alguma coisa na própria vida, nem que seja começando sozinha ao estender a mão ao telefone para buscar alguém para ouvi-la profissionalmente.

Você suspeita ou tem depressão? Faz tratamento? Está na dúvida sobre o que fazer? Entre em contato, vamos conversar sobre isso!

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Quanto custa a sua saúde mental?

Pode ser uma insônia. Talvez um aumento na pressão arterial ou na glicemia, talvez súbitos e repentinos, talvez abruptos e assustadores! Um outro pode ter uma dermatite. Ou bruxismo? Aquela outra pessoa ali pode se ver presa a um ciclo de acontecimentos que sempre se repete e ela já desconfia que a coisa toda não é bem culpa do “destino” como costumam lhe dizer…

Pois bem. A saúde mental causa um impacto na vida das pessoas sem que possam perceber com clareza; é assim com muita gente. Uma preocupação com contas ou, com um “amor”, já costumam ser razões claras para associá-las com insônia, sendo bastante comum ouvir frases do tipo “essas contas estão me tirando o sono” ou, “esse fulano me tira o sono”…

Então… se é assim com contas e etc., não se surpreenda: há uma série de outras “preocupações” também podem levar à insônia; aliás, não se surpreenda se a resposta aqui for parecida com a do endividado àqueles que lhe mandam “resolver logo as dívidas”, que questiona de qual fonte pode tirar recursos financeiros extras. Saúde mental não se resolve num estalar de dedos.

Uma pessoa que dorme mal, por exemplo, irá perder em desempenho noutras atividades. Aliás, pessoas preocupadas podem se distrair com seus problemas e deixar o trabalho parcial ou totalmente de lado. Inclusive, podem perder de minutos a horas de trabalho tentando lidar com preocupações sem perceber.

Mas, a coisa não para por aí.

Há aqueles que deixam de tomar decisões importantes ou que “tomam decisões erradas” e mergulham em verdadeiros “infernos”. Será que é porque são tolas ou ignorantes? Não. Fazem o que fazem, por não conhecerem verdadeiramente a razão de suas ações.

Errar é humano? E quanto a repetir o erro? Se tem curiosidade à repeito, leia um pouquinho aqui, abre outra página em seu navegador.

E aí podemos ter aqueles que trabalham em coisas que não gostam, que não são felizes em seus relacionamentos ou aqueles que nunca encontraram nada, ninguém ou coisa alguma importante.

É um bocado difícil pensar em o quanto custa um emprego que não era aquele que a pessoa gostaria ou, o quanto custa viver anos em um relacionamento que nem é sombra do que um dia talvez tenha sido desejado.

Ulisses* é um exemplo de pessoa que tem toda uma dificuldade para viver a vida em decorrência de questões afetivas sérias. Ele é um personagem fictício com uma história também fictícia, cujo drama pode estar por aí, na pele de outras pessoas. Se interessou, pode ler nesse link (abre outra página)

Esqueça os nomes complicados, os códigos internacionais e os cifrões. A saúde mental possui um custo por si mesma por se tratar da vida do sujeito, portanto, considerá-la e tentar cercá-la de definições e moedas pode ser como colocar num quintal um leão não domesticado e continuar a alimentá-lo, para não dizer que é mais uma forma de perder tempo e agregar mais perdas à vida.

Tempo, aliás, é bastante diferente da correria à qual estamos sujeitos no dia-à-dia. Para compreender, mudar e seguir noutro rumo, o ritmo é outro, ditado por como cada um consegue ou não se construir e reconstruir. Mas, é um assunto para uma próxima.

O psicólogo

Quem é o psicólogo afinal?

É aquela pessoa que por alguma razão dela resolve tentar entender as razões dos outros. Guardado nas entranhas de seu pensamento, é aquele que movido por um desejo de compreender, estudar, ouvir (e sabe-se lá quantos mais substantivos), na direção de um caminho não menos complexo e que nunca tem um fim.

Na calada da noite ou talvez durante o dia, talvez até mesmo andando à toa pela rua ou “viajando na maionese”, ele decide que quer fazer isso. E é lá na universidade que descobre que “isso” era difícil entender até para ele mesmo, justificando-se ao longo de cinco anos, para quê tantos estudos.

O psicólogo é aquele que estuda durante 5 anos e quando sai da universidade logo descobre: ainda é preciso mais. Seja para se aprofundar no sujeito diante dele no consultório, seja para se aprofundar nos estudos sobre os grupos e outras instituições, ele tem que estudar ainda mais.

O que ele faz e para o que se dedica, vale à pena desde que ele tenha decidido por caminhar por uma trilha difícil e por vezes, desanimadora.

Olhar para o outro passa a ser mais difícil e logo aquelas falas dos professores tornam e retornam a fazer sentido. Eis que surge o supervisor, esse outro tão importante e bem ali, passos adiante (tanto fisica, quanto simbolicamente) ao qual a ignorância agradece num sucumbir desfeita. É também ao supervisor que remete-se um sorriso grato quando percebe-se estar vendo aquilo que há pouco não via.

Mas… há as pedras no meio do caminho… Ah, essas pedras de que tanto falam…

Para aqueles que não seguiram as recomendações básicas, seja por ignorância, prepotência, ou desculpas postas e expostas diante de si, elas irão se mostrar. O psicólogo vê e se não vê, alguém o vê e atua, seja na crítica, seja culpa, abandono ou desdém.

E depois, depois do trilhar dos primeiros passos, aqueles que decidiram caminhar e enfrentar os obstáculos, eis que surge como recompensa silenciosa, histórias atrás de histórias, tão únicas como uma estante repleta de livros novos e inéditos diante uns dos outros. E mais que isso, farão parte de cada uma delas, na medida em que seu sutil posicionamento serve para ajudar a virar páginas e mais páginas, abrindo espaço para novos capítulos.

 

Dedicado aos meus amigos e colegas de profissão, bem como aos meus professores, supervisores e meu analista. Feliz dia do psicólogo à todos.

Dá pra escolher um psicoterapeuta?

Dá sim e para algumas pessoas isso acaba sendo necessário.

Como já mencionei em outros artigos, há certa frequência em ouvir dos pacientes e de outras pessoas, casos, pérolas e até aberrações acerca da atuação de alguns profissionais de saúde mental. Não vou criar um dez passos pra selecionar seu psicoterapeuta, psicanalista ou psiquiatra ou seja lá o que for, pois isso seria absurdo também, então vou me limitar a tentar ajudar a pensar em alguns pontos acerca dessa escolha. Há, de fato, algumas coisas bastante simples que podem facilitar.

O primeiro passo, é se dispor a encontrar alguém para lhe ouvir. Ouvir é bem diferente de concordar com aquilo que você diz. O profissional poderá lhe pedir para esclarecer uma contradição que você nunca percebeu que existia, por exemplo, o que pode resultar em algum embaraço para algumas pessoas.

Você não está procurando um juiz, então, considere que não está lá para ser julgado. Mas, considere, avalie também se você está mesmo sendo julgado ou se não está tentando se defender de algo sem saber a razão.

O tempo da conversa precisa ser minimamente suficiente. Não consigo imaginar uma consulta de cinco minutos servindo para diagnosticar aquilo que é sintoma de uma vida inteira. É mais ou menos como querer falar de um rio inteiro só pela amostra colhida onde ele desemboca. E convenhamos… uns minutos de conversa sempre serão pouco diante do tempo que você já viveu sua vida.

O diagnóstico pode facilitar algumas direções e alguns passos para alguns tipos de tratamento mas nunca irá dizer tudo sobre você e às vezes pode dizer nada. Tratamento em saúde mental não tem como seguir um padrão de procedimentos como o de consertar um carro, fazer uma reforma ou uma cirurgia, pois se trata de lidar com a história de um sujeito.

Em suma, o tempo precisa ser suficiente pra você e a conversa lhe dar alguma sensação de conforto e acolhimento, são alguns pontos breves para saber se encontrou um profissional adequado para você. Na dúvida, leve primeiramente o incômodo ao profissional que lhe atende. Você pode tentar encontrar outro profissional para conversar, se informar melhor, talvez até tirar alguma dúvida. Às vezes é preciso procurar mais de uma vez para encontrar onde dar certo.

 

Todavia, um outro alerta. Nem todo desencontro é por culpa dos profissionais. Há casos com os quais um bom psicoterapeuta ou psiquiatra não poderão compactuar, parecendo para seus pacientes, pessoas ruins, quando na verdade estão fazendo “males” necessários. Sempre há singularidades em cada um dos casos, inclusive a possibilidade de um paciente querer encontrar alguém que lá no fundo, se disponha a um acordo silencioso de não tocar na ferida para fazer um tratamento (falso) em banho maria.

 

Bem, por enquanto é isso. Caso queira ler mais sobre o assunto, há alguns links linhas abaixo. E se gostou da leitura, não se esqueça de curtir e compartilhar. Poste também sua mensagem, pois curtir, compartilhar e comentar ajudam a delimitar os assuntos para serem trabalhados aqui.

Obrigado pela leitura e até a próxima!!


Sugestões para leitura:

Reeditado em 19 de novembro de 2017 às 15h45

Pensamentos: indesejados e desnecessários? Uma odisséia de Ulisses. (Reflexões sobre o conto)

Esse post é uma reflexão sobre o conto com mesmo título.

Recapitulando, Ulisses estava envolvido em suas questões afetivas de uma forma bastante complicada e que, dado o tempo de permanência, já havia se tornado aquilo que muitas vezes as pessoas denominam como “hábito”, “costume” e até “jeito” ou mesmo, “manias”.

No caso de nosso pseudoherói, a pequena ilustração de sua pacata vida, nos mostra coisas que você só conseguirá observar basicamente das seguintes formas:

  • num conto, numa história ou num relato de caso clínico;
  • através de uma terapia ou de uma análise, dentro da qual o paciente poderá lhe revelar o que sente, o que pensa e o que faz;
  • vivendo a própria história e, com mais profundidade, a conhecendo através de um trabalho terapêutico.

Como acredito que tenha ficado claro, Ulisses é um homem tomado por vários comportamentos bizarros aos quais ele e as pessoas à sua volta já se acostumaram. Inclusive, pessoas como ele não raras vezes chegam ao consultório sem perceber o que acontece (indicadas por alguém) e, quando percebem, não têm a menor ideia do porquê ou o quê fazerem com isso e aquilo. Inclusive, há quem relate uma série de pensamentos indesejados associados com tais comportamentos.

Vamos imaginar que os pensamentos indesejados de Ulisses que o levavam a fazer uma série de coisas absurdas, passassem a ganhar uma dimensão mais estranha ainda. Que ele passasse do fazer portões e acompanhá-los por uma semana para ver se estão funcionando direito, para uma vontade irresistível de ir até lá e cuidar pessoalmente de abrí-los e fechá-los para ter absoluta certeza de que não ficou nenhum problema mesmo.

Absurdo? Sim, claro. Talvez até Ulisses percebesse isso e não se deixasse levar por tal coisa. Entretanto, isso não quer dizer que seus pensamentos lhe deixariam de importunar. O fato é que esses pensamentos estão ali por alguma razão que vai além do efeito mais prático, que é atolá-lo em sua vida e fazê-lo perder tempo. Como é óbvio, isso também serve para dizer que há alguma coisa errada, mas não com o portão e sim, com o próprio sujeito.

Para ilustrar metaforicamente, podemos pensar na doença física combatida com remédios, considerando o fato que nem toda pode ser tratada dessa forma. Inclusive, algumas podem ser mascaradas por analgésicos, anti-térmicos e anti-inflamatórios. O resultado dessa postergação, procrastinação ou enrolação pode servir apenas para agravar a doença de base, o que pode inclusive, levar ao comprometimento fatal da vida do sujeito.

Em saúde mental, não pense que a coisa que a coisa é diferente.

Uma possibilidade bastante similar ao exemplo anterior, é a postergação do tratamento psicológico levar ao agravamento do problema de base (aquele de onde sai uma árvore de sintomas). E isso é bastante perigoso, só observar o desenvolver dos casos de síndrome do pânico, onde tantas coisas já se remontaram que o sujeito nem sabe mais o que lhe incomoda, sendo imprescindível estar acompanhado por um psicoterapeuta para se aprofundar no que costuma ser um verdadeiro iceberg.

Do ponto de vista físico, o corpo humano “deixa” sair pus por alguma estrutura ou fica febril pra dizer que há alguma coisa muito errada (mesmo sem uma dor condizente). Em se tratando de mente humana ou de saúde mental, pode-se dizer que um sintoma “atropelado” por negligência aos próprios afetos ou, morto pelo cessar de sintomas por conta de excesso de remédios, poderá dar lugar a outro e até a outra via para se mostrar. Num exemplo bastante simples, é como uma pessoa deixar o medo de entrar no elevador e passar a ter um bizarro medo de entrar numa piscina ou mesmo, ter uma inexplicável (do ponto de vista fisiológico) paralisia das pernas.

No caso específico de deslocamento de sintomas psíquicos para sintomas físicos, a problemática tende a ser ampliada, sendo necessário um acompanhamento médico para tratar aquilo que está se manifestando no corpo, sendo imprescindível a psicoterapia para tratar o problema de base. Noutras palavras: se há uma manifestação física de um problema psíquico, tratar somente o psíquico pode não garantir a cura.

Em suma, é importante considerar que a eliminação de pensamentos pode ser uma aposta perigosa para ver onde é que novos sintomas vão aparecer e, deixá-los como estão pode ser padecer em mais do mesmo, o que é a mesma coisa que estar deixando de viver uma parte da própria vida (como um zumbi) a troco de coisa nenhuma, alheio inclusive, a que coisa é essa. Por outro lado, cabe levar em consideração a singularidade de psicoses graves e outros estados que requerem medicações pesadas, muitas vezes associadas a questões nas quais é preciso proteger o sujeito dele mesmo ou dos outros e que requer uma série de observações à parte.

Eliminar totalmente um sintoma pode ser uma forma de eliminar justamente aquilo que está dizendo que há algo errado aqui, nesse exato momento.

Obrigado pela leitura e até a próxima.