A mãe má (considerações sobre o artigo anterior)

A associação entre doenças físicas (incluindo as relacionadas ao sistema imunológico) e questões psicológicas é estudada há anos. Pode-se até mesmo dizer que questões acumuladas ao longo do tempo podem se transformar em sintomas físicos, como uma forma da “mente” tentar avisar que alguma coisa está errada. Na medida em que a pessoa não dá “bola” para isso ou, não consegue se resolver com aquilo de problemático que aflige sua vida ou, foca apenas no tratamento de sintomas, há um risco desse sintoma “mudar de cara”.

Quanto ao sintoma, uma doença física, ainda que possa ser enquadrada como sintoma da problemática psíquica, não pode ser simplesmente tratada como mero sintoma. A dor pode estar instalada, uma vulnerabilidade ou hipersensibilidade fora do normal, tudo está lá de forma perturbadora.

A intervenção psicológica serve para tratar a raiz do problema, porém, se a questão é cortar uma árvore grande, convenhamos… não é nada sensato tentar arrancá-la pela raiz sem fazer uma poda.

Assim, é importante considerar que um tratamento psicológico não se propõe a excluir outros e imprudentes são aqueles que acreditam que isso possa ser feito sem uma avaliação adequada. Há doenças que precisam ser tratadas diretamente e nem é preciso mencionar nomes de algumas delas.

 

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(Minha opção por desmembrar essas considerações do artigo é para facilitar a leitura)


Sugestão de leitura

Caso tenha se interessado pelo assunto, aqui vão mais alguns artigos:

Sintoma

O conceito de sintoma (Scielo)

BBC Brasil – Raiva e Irritação: os sintomas da depressão que muitas vezes ignoramos.

 

A marionete

Naquele dia Rosinha* já não tinha nem tempo de pensar se estava ou não cansada. Seu nome era Trabalho e seu sobrenome… Trabalho. Seria Hora Extra se não fosse “a crise econômica”…

Foi naquele plantão. Rosinha* não havia parado para beber água ou para ir ao banheiro. Ou… talvez tivesse. Mas, ocupada o quão estava, nem se lembrava e também não era algo que alguém ali fosse perguntar.

Se aquela pia no posto de enfermagem pudesse fazer mais que ser uma inerte e reluzente liga inoxidável, teria perdido as contas de quantas vezes Rosinha* nela havia lavado as mãos e o quanto de remédio que essa enfermeira já havia preparado. E se não estivesse ali apenas para aparar a água ou parte dos soros que tinham que ser postos no volume correto, poderia questionar a amiga quanto ao número de pacientes, que já era oito.

Caso fossem dadas a sair do lugar e ver – diferentemente da porcelana barata que eram – aquelas pias dos quartos, saberiam que Rosinha* estava fazendo de tudo para medicar, banhar e fazer curativos. Alguns pacientes tinham “perdido” as veias, mas logo a pródiga enfermeira estava lá para “pegar” outra.

Rosinha* podia fazer de tudo ali. Ela e seus colegas de trabalho, três para cuidar de quase trinta. Juntos, conseguiam dar conta de tudo. As coisas não estavam saindo nos horários certos mas, estavam saindo.

Foi quando no meio daquela correria apareceu uma nona paciente para Rosinha*. Tão comprometida com o trabalho que recebeu aquela senhora e deu boa noite carinhosamente. Alguém havia dito para receber o paciente mas, mesmo após fazer vários protestos, a jovem e elétrica enfermeira cedeu e a recebeu.

Curiosamente já havia levantado vários argumentos, dizendo que aquilo não era justo, pois já tinha muitos pacientes complicados, que estava sobrecarregada (tal como os seus colegas de plantão) e, que faltava menos de uma hora para ir embora. Mas alguém por fim argumentou do outro lado da linha:

– É uma senhora de 70 anos, poderia ser a sua mãe!!!

Isso doeu no coração de Rosinha*. Criada pela avó, sentiu todo aquele peso lhe balançar as pernas. Tomada por um quase desespero de quem, sem saber, havia se identificado com uma parte da história, recebeu a tal senhora de 70 anos.

Se a pia pudesse ouvir a conversa pelo telefone, e se pudesse fazer amizades, talvez questionasse a provável amiga, perguntando- lha se não percebia que toda aquela estrutura usava e abusava das pessoas na medida em que aprendia por onde lhes mexer os fios certos.

Rosinha* não conseguia se opor a certos argumentos, pois supostamente deveria fazer isso ou aquilo “pensando” no paciente. Sensível, se comovia com o estado que aquelas pessoas chegavam. Além disso, sempre aparecia alguém dizendo que ela era um anjo para inflar um ego que só nessas horas parecia valer algo… para os outros.

Mas… que anjo ingênuo esse, para jamais perceber que sob os argumentos de ter nascido para a profissão, de ter que se preocupar com o outro, de isso e sabe-se lá o quê, não passava de um brinquedo para aqueles que ficavam só atrás do palco, sem viver as cenas do espetáculo?

Rosinha* não tinha parado para pensar que aquela senhora que ela recebera e acomodava na cama, uma vez além de suas capacidades, ficaria apenas ali no leito. Sem a devida atenção, aquele coração de setenta e poucos padeceria fatalmente em umas duas horas por causa de um ritmo bem esquisito, ao qual ninguém havia prestado a devida atenção, já que o problema daquela “vózinha” supostamente estava numa dor de estômago, e os aparelhos portáteis de “PA” comprados para “agilizar” o serviço não eram capazes de cumprir o que dedos e ouvidos fazem bem… (quando devidamente aparelhados de estetoscópios e esfigmomanômetros).

Não era só Rosinha* que havia se comovido, mas havia muito mais gente que passava pelo mesmo naquele hospital. Talvez se comovessem muito mais se soubessem que eram apenas bonecos presos em fios, dos quais precisavam urgentemente se livrar para justamente evitar, aquilo que tentavam tanto evitar.

Briga no hospital e na Saúde

As pessoas se estressam no hospital, sejam elas os pacientes, acompanhantes, visitantes ou os profissionais da equipe multidisciplinar. Nervos de aço e nem sangue de barata não existem e quando as pessoas pensam que isso tudo está lá, não subestime o inconsciente, pois os afetos irão aparecer.

Basta olhar pra esse caso recente em que um profissional do Samu briga com um solicitante por telefone. Há uma situação de tensão que requer uma investigação, afinal, não é sábio deslocar uma equipe com todo um arsenal de equipamentos para uma ocorrência que requeira menos. O inverso também é verdade. Há pessoas e mais pessoas podendo requerer socorro, então é preciso mandar um grupo certo pro local certo.

Por outro lado, não cabe se não aos profissionais de saúde saberem disso. Rotina de socorro, assistência e cia. ficam a encargo da equipe multidisciplinar. E seria interessante se a leitura do que ocorre além da rotina, ocorrências e intercorrências, fosse melhorado.

Como assim? Na hora da emergência você quer que fique explicando pro paciente o que está acontecendo?

Às vezes, isso é necessário, especialmente quando o nível de consciência possibilita. O desespero pode estar nos olhos de quem não “é da área” e às vezes requer muita pouca coisa, como um aviso de que estão ali vendo o que está acontecendo e que vão tomar providências.

E mandar ficar calmo?!?

Até mesmo pedir calma pode ser útil e nem pelo pedido em si, afinal, ansiedade e tensão são estados e não escolhas pessoais. Nesse caso, o que funciona é acolher esse estado e às vezes uma palavra bem colocada basta.

E se a pessoa estiver atrapalhando?

Dependendo do caso, também cabe ser mais rígido e pedir pras pessoas se afastarem sim.

 

De forma geral, o importante muitas vezes é, de alguma forma reconhecer a existência da tensão do outro para que ele próprio lide com ela e não a transfira para a equipe, como por exemplo:

Olhe, sei que você está preocupado. Então é por isso que preciso que você me faça tal coisa.

Muita gente que nunca colocou uniforme pro trabalho em saúde acha que é preciso se descabelar, arrastar médicos, enfermeiros, muita gente e muito equipamento pra resolver as coisas, desconhecendo que levantar informações já é parte do trabalho deles e que esse passo é crucial pra fazer as coisas certas. E mais que isso, após estudar, treinar e praticar, já não é mais necessário ficar de cabelos em pé, bastando cumprir passos na forma e velocidade adequada, o que ainda garante segurança (não pense você que é fácil lidar com monitores, massagens, tempo entre remédios e mais e mais remédios, além de exames e mais exames, vai e vem de equipamentos, e outras coisas mais, tudo isso ao mesmo tempo).

Uma emergência implica em tensão para todos e a pior coisa que se pode fazer, é tentar depositar tensão sobre o outro. É como uma corda, uma hora ela poderá arrebentar e aí teremos um desastre com ela se arrebentando em várias partes, como o recém noticiado. E se as pessoas estiverem cara-a-cara, como é óbvio, um confronto físico é uma possibilidade real e concreta.

 

Não se trata aqui de defender  um lado ou outro e sim, pensar que há outras formas de lidar com as situações. Além disso, se olharmos mais à fundo, ainda há outros problemas embutidos, como por exemplo, número reduzido de profissionais e um espaço ridículo (que muitas vezes beira ou se confunde com a nulidade) para a elaboração de questões subjetivas, que incluem a tensão de não poder errar, a de ter que arcar com demanda afetiva alheia e até mesmo a de ter que dar conta de pedidos objetivos ou subjetivos que não são sequer, humanamente possíveis.



Sobre a notícia em questão, ela foi publicada pelo G1 em 03/10/2017 pode ser visualizada aqui:

Gravação registra palavrões e insultos de médico do Samu em ligação de pedido de socorro; ouça

 


Obrigado pela leitura e até a próxima!

Sobre a suposta agressão à idosa na UTI em São Paulo

 

Quando li a primeira reportagem à respeito¹, confesso que me senti inclinado a acreditar na hipótese de agressão. E não sem justificativa. É uma possibilidade horrível, mas real, a de um sujeito dedicado ao cuidado partir para o oposto. E razões muitas vezes não faltam, como cargas de trabalho extenuantes, dificuldade em cuidar da saúde física e mental, ter que arcar com a cobrança social de “jamais, nem nunca” poder cometer falhas e etc. Só que…

Há elementos que contribuem isolada ou coletivamente para a instalação de quadros confusionais, inclusive já toquei nesse assunto anteriormente²: má oxigenação de sangue, alterações metabólicas, privação de sono, quadros neurotóxicos por efeitos de medicações ou como resultado de outras doenças.

E como detectar isso? É preciso um trabalho em equipe (através de formas de investigação dentro do alcance de cada profissional, preferencialmente, discutindo o caso à dois ou com mais membros). Avaliação do estado mental nestes casos é o básico na coisa toda: é bem simples, fácil de executar, mas é preciso muita cautela, pois há pessoas que conseguem responder adequadamente quase tudo (identidade, idade, data, profissão), mas vão pecar ao lhe responder acerca de ONDE estão.

Acha isso pouca coisa?

Pois bem, imagine um sujeito sem condições físicas de sair da cama, tentando se levantar para ir “ao hospital” por estar com dor? Vamos complicar um pouco esse sujeito e imaginá-lo com uma sutura recente atravessando sua barriga do esterno (osso que segura suas costelas, aí no meio do peito) até abaixo do umbigo uns quatro dedos.

Imaginou?… estou certo de que em alguns causou até arrepio…

Pois bem, querer ir ao hospital (estando em um), levantar pra trabalhar, fazer comida ou qualquer coisa incoerente com o contexto é o suficiente para a ocorrência de um acidente. Camas hospitalares não costumam ter a mesma altura de camas residenciais, elas são altas para que a equipe multidisciplinar consiga executar cuidados e procedimentos com ergonomia (e assim, continuar a prestar assistência preservando o corpo). Além disso, um dos pontos altos de nossa discussão está no elemento que serve para assegurar boa relação custo e benefício entre segurança do paciente e cuidados: as grades.

Mas… as grades não podem ser 100% eficientes…

E aí que está mais um problema. Há pacientes que se esgueiram das formas mais mirabolantes para sair de uma cama, de forma muitíssimo parecida com a que crianças fazem para sair do berço. E às vezes conseguem.

Há os que saem pelos corredores tentando fugir da enfermagem, os que arrancam roupas e até curativos e dispositivos dedicados à manutenção do estado clínico ou monitorização de sinais. Há alguns que de fato vão embora (e pasmem, suas famílias ainda poderão ligar no hospital perguntando se fulano teve alta!)…

Além desses tipos, há também os que caem e se machucam. Essa é uma das razões para que sejam aplicadas medidas de contenção química ou mesmo física. Esta é caracterizada pelo uso de faixas nos punhos, podendo ser aplicada também nas pernas ou mesmo no tronco. Aquela é marcada pelo uso de remédios (ditos “sossega-leão”), que são usados com cautela em decorrência dos efeitos colaterais (piora no quadro respiratório, entorpecimento, dificuldade para se alimentar ou para cumprir com atividades essenciais em seu pós-operatório, por exemplo).

Enfim… não acho que houve agressão. Inclusive já vi paciente em pior estado por conta de uma queda da cama (uma queda de uma cama pode criar uma série de pequenas rupturas em capilares, causando um efeito horrível que se espalha por camadas inferiores da pele, criando “manchas” muito maiores que o ponto lesionado inicialmente).

Mais que isso, espero que essa suposta agressão possa ser descartada a luz de investigações, uma vez que sua comprovação só irá assinalar o quão trágico podem ser as relações humanas dentro de um hospital³.

Obrigado pela leitura!


¹ há duas reportagens do Estadão a respeito:
<http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,enfermeiro-e-afastado-apos-suspeita-de-agressao-contra-idosa-de-78-anos-em-sp,70001742722>
<http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,morre-idosa-que-teria-sido-agredida-por-enfermeiro-em-hospital-municipal-de-sp,70001759484>

² Falei dessa questão em:
“Hoje é 19 de abril de 1983…”: O paciente não fala coisa com coisa, e agora?

³ Sobre relações humanas no hospital:
Combates na linha de frente do hospital e o desastre nas relações humanas


 

“Aquele moço veio aqui e disse que ia aferir minha glicemia, mas não entendi nada e ele também não voltou…” – E então… seu paciente está entendendo você?

Certa vez entrei num quarto e logo de cara me deparei com um paciente com um ar assustado.  Ele estava ansioso, inquieto, desconfiado. não me surpreendeu que estivesse com a pressão alta…

Conversando com ele um pouco, até chegar ao que o preocupava, falou: “Aquele moço veio aqui e disse que ia afinar, afilar… uma coisa assim… (“Aferir?” perguntei) … isso, aferir minha glicemia, um negócio assim… e aí ele não voltou mais… (“Mas… e aí, o que você entendeu dessa tal de glicemia?” perguntei) Ah, eu entendi foi é nada, só sei que ele veio aqui, furou meu dedo e foi pra lá e não voltou mais…”

Ficou óbvio que o paciente não sabia nem o que era aferir e muito menos o que era glicemia. Ele havia acabado de ser internado para uma cirurgia renal e estava ansioso por não entender nada daquilo que haviam falado para ele, muito menos a razão do procedimento pelo qual havia passado. Até então, lá com seus quarenta e pouco, tinha apenas uma pedra no rim, que nem doía…

Não só no hospital, mas em outros lugares há um mau uso e uma má alocação de recursos linguísticos que não ajudam nada (tais como aquelas expressões”no sentido de” e a “à nível de”, dentre outras). Ainda que nossa língua esteja repleta de recursos, seja na variedade de sinônimos ou estilística, utilizá-los requer contextos e propósitos adequados. Numa instituição pública como um hospital geral, é bastante comum a presença de um público bastante simples, então falar complicado pode facilmente ser sinônimo de não comunicar nada.

É importante se questionar, refletir se de fato seu paciente entendeu o que foi dito para ele, se ao menos a linguagem foi clara. A formação de alguns quadros de ansiedade pode estar vinculada a não compreensão da informação passada e quando isso pode ser percebido logo no início, é mais fácil de tratar.

Em tempo, convém ressaltar que a dificuldade de assimilar informações ainda pode estar vinculada a algum tipo de resistência (aquela conceituada pela psicanálise, que diz respeito ao não poder lidar com determinada situação por uma limitação psíquica naquele momento).  Quanto a essa dificuldade, falarei sobre ela em um futuro artigo.

Ah.. quanto ao meu paciente, acabou entendendo que aquele tal exame servia para medir o nível de “açúcar” em seu sangue e nada mais que isso. Inclusive, o valor obtido e anotado em seu prontuário estava dentro da normalidade.  “Ah, então era só isso?!?” No fim das contas passou a rir do ocorrido no restante da tarde (inclusive sozinho).  Ficou mais calmo e sua pressão normalizou. Quanto a tal “glicemia”… continuou tão boa quanto antes, afinal, nem diabético ele era.

😀

 

Falta de tempo e dinheiro no final do ano.

Há anos atrás, num tempo onde haviam definidas estações do ano, era comum que algumas coisas acontecessem com frequência.  Poderia enumerar várias, mas vamos nos deter no dezembro, que é onde estamos hoje.

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Opa, não precisamos ir tão longe no passado!

Com relativa naturalidade as pessoas cumpriam seus recessos de final de ano e acabavam visitando umas às outras. Os telefones eram coisas de poucos e nos orelhões haviam filas para conversar com quem era de muito longe, sem contar quando não era preciso ficar perto de algum dos “comunitários”, que eram aqueles que além de fazer, recebiam ligações.

Mesmo no hospital, não era diferente.  Tal como ocorre em prontos-socorros em feriados ou nas noites frias, havia uma queda do número de internações e de ocupação de leitos.

Não só prontos-socorros, mas enfermarias tinham queda de movimento. Atualmente cabe considerar também que a piora na renda faça as pessoas migrarem dos serviços particulares para o SUS.
Não só prontos-socorros, mas enfermarias tinham queda de movimento. Atualmente, cabe considerar que a piora na renda da população faça as pessoas migrarem dos serviços particulares para o SUS.

Nenhuma das duas situações atualmente se mantém, a não ser nos ares e esperanças nostálgicas de quem viu e vivenciou isso.  Hoje em dia as pessoas estão trabalhando no decorrer de dezembro inteiro e quanto aos hospitais, funcionam como noutras semanas do ano, com alta ocupação e internações de rotina.

As pessoas pararam de se preocupar com o final de ano?

alone-764926_960_720Talvez sequer pensem nisso.  Talvez nem tempo tenham.  Agraciadas com seus celulares, com possibilidades de encurtar o caminho da saudade com uma mensagem pelo Whatsapp ou ligações de vídeo, hoje há maiores possibilidades de interação indireta umas com as outras.  Sem entrar em méritos de valor, fica óbvio que o tempo dedicado à interação tem sido reduzido para ser preenchido por meios alternativos e mais trabalho.

Não por acaso, pessoas tentam ludibriar as instituições recorrendo aos hospitais e à possibilidade de receberem atestados. Atestado é uma coisa fácil de se obter desde que você seja bem mal avaliado por um profissional, daquele tipo que não respeita a sua própria profissão e a quem pouco importa o próprio registro profissional.

Mas o que significa pessoas fazendo uma coisa dessas? Porquê um pronto socorro ficaria (e na realidade fica) cheio de pessoas querendo atestados, ainda que não seja essa a intenção declarada ou mesmo consciente, nos finais de semana, feriados e finais de semana?

Sem entrar em discussões aprofundadas sobre personalidade, uma das razões para isso pode ser um mecanismo para tentar driblar a falta de tempo.  Com um atestado, há um ganho óbvio de ócio frente a alguma outra coisa, como o trabalho.  O trabalho do sujeito pode ser muito ruim sem que ele se dê conta disso, à ponto de deixá-lo à iminência de, ou em crises de pânico.  Essa é uma das razões pelas quais é difícil a cessão de atestados psicológicos (sim, podemos), pois a grosso modo, não se oferece ganhos àquilo que é ou que poderá virar uma doença.

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Exames realizados por profissionais mais dedicados não levarão à atestados por quaisquer razões. O que naturalmente não exclui avaliações superficiais que deixam de detectar problemas importantes.

Detenhamo-nos num tipo de pessoa que nem está tão ruim assim, mas que não vai pedir um atestado, que você sabe que ela jamais faria isso.  Ela pode recorrer ao serviço de saúde para uma avaliação por conta de um mal estar inespecífico que no final de contas parecerá uma ressaca, da qual ela melhorará espontaneamente. Entretanto, o que ela consumiu e o tempo de se passou não justificaria uma ressaca, mas o mal estar está ali presente ainda. E porque?

Uma possibilidade, é uma manifestação psíquica, um deslocamento de sintoma.  A sua insatisfação de ter que voltar ao trabalho, de ter que trabalhar em um período festivo ou de recesso manifesta-se num sintoma que tende a prejudicar ou mesmo paralisar sua atividade laboral.

photolenta_big_photoNão cabe excluir a existência de malícia para tentar cavar atestados e etc., afinal, muitas pessoas têm optado por seguir modelos prontos para burlar regras e assim obterem vantagens.  Quanto aos modelos, temos um monte, e não vou gastar linhas escrevendo sobre os mais crassos exemplos disso.

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Importante é considerar que além de um desejo de obter mais tempo livre, há, por outro lado, ideais que são pulverizados sobre a população, como aquele velho:  “quem não trabalha é preguiçoso”, dentre tantos outros, que só poderiam ser ditos por aqueles que já estão em suas redes descansando enquanto outros se arrastam em fiapos de corpo e alma.  O resultado disso são de brigas e mais brigas entre as classes já menos privilegiadas, que acabam se dividindo entre aqueles que querem mudar as coisas, os que querem burlar as instituições e aqueles que preferem manter tudo como está ou, deixar as coisas seguirem de acordo com um ideal alheio e incompatível com a realidade dele próprio.

O ócio é importante não apenas para a recuperação de energia e reparação do organismo, mas serve também para reparar e recuperar as relações humanas, não sendo por acaso, que nos trabalhos institucionais perceba-se que equipes que estão mais dispostas e com melhor relacionamento interno, gozam de ócio juntas.

Dessa forma, é importante pensar que se o ócio é feito para ser aproveitado, então não há razão para assolar de críticas o blogueiro, o jogador de futebol, o músico, o cineasta ou outros artistas, pois o trabalho deles é entreter e ajudar a preencher melhor… o ócio alheio.  A vida não é só trabalho e quem diz que é, certamente não vive (é um pobre alienado) ou tem quem trabalhe pra ele (um alienador).

Feliz ano novo, meus caros.

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“Você só deve ouvir problemas, credo!”: outro mito sobre psicoterapia.

Há um monte de coisas que os psicólogos costumam ouvir, afinal, existe muita curiosidade reprimida que só aparece pelas colaterais ou pelas beiradas no convívio com as pessoas.  Surgem perguntas ou cutucões de todos os tipos… há quem se incomode com essas falas, mas… cada um lida com o que aparece de acordo com o que possui.

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Pessoalmente, prefiro levar a coisa de uma forma mais branda…

baba_vida_klearchos_3_prison_cellUma das coisas mais comuns que escuto é as pessoas falarem, com uma espécie de horror, que eu escuto problemas o dia inteiro.  Quando me dizem isso, fica parecendo que a cada paciente entro numa espécie de masmorra fria, triste e úmida da Idade Média, escutando murmúrios e grunhidos.

Ao chamar um paciente para o consultório, eu não tenho ideia do que ele pode me trazer.  Ainda que seja possível deduzir alguns dados sobre o desenvolvimento do caso, isso não é mais importante que estar aberto para ouvir o que surge em cada sessão.

Em regra, quando o paciente vem ao terapeuta (tanto no consultório quanto noutro ambiente, como no hospitalar, por exemplo) ele pode trazer qualquer coisa e não apenas os problemas de sua vida.  Muitas vezes ele fala de soluções que encontrou, questões sobre as quais ele refletiu, novas ou velhas frustrações, mudanças que percebeu ou que está percebendo, pontos que ele ligou em sua história, novidades que passaram a aparecer.

8467586-sketch-of-the-happy-man-house-and-sunÀs vezes, o paciente quer pura e simplesmente dizer ao seu psicoterapeuta que está contente…

Olhar com horror pro trabalho dos psicoterapeutas, as pessoas podem fazer por uma série de razões.  Podemos pensar desde resistência ao contato com os próprios problemas ou, partindo mais para o senso comum, por acreditarem que eles estão lá só pra isso e talvez pra tentar resolver os problemas alheios.

Quanto à resistência a questão é óbvia:  afastar de si aquele que pode colocar luz no meio do caminho e revelar quem o atravessa.

Em se tratando de resolver problemas alheios, dependendo do formato do trabalho terapêutico há essa possibilidade, a de oferecer soluções pro sujeito e acompanhá-lo nessa direção, tendo sua validade dentro de alguns contextos específicos, como os de aconselhamento.  Mas numa psicoterapia, isso vai variar, uma vez que o risco de oferecer soluções é o de ter um paciente dependente de seu terapeuta ou, ser excluído do tratamento por não ser um bom “solucionador” de problemas.

melhores-equipamentos-pesca-esportivaQuanto aos “problemas”, a via de trabalho que eu considero mais eficaz para trabalhá-los se traduz num velho ditado:  é melhor ensinar a pescar que dar o peixe.  E isso é muito mais eficaz, uma vez que se trata de trabalhar na estrutura da personalidade da pessoa.  Assim, o paciente passará a aprender sobre como resolver seus problemas para não cair novamente neles.

Um ponto que as pessoas muitas vezes não percebem que é tais problemas são do paciente e que continuarão sendo, ainda que apresentados ao psicoterapeuta. Naturalmente que há os pacientes que tentarão empurrar, negar, ignorar, ver no espelho… mas continuarão sendo problemas deles.

Não se trata daquela coisa fria e distante que muitas pessoas costumam imaginar como… “ah, é só não se envolver…”, é radicalmente diferente disso.  Envolver você está envolvido só em estar vivendo perto do sujeito de deixá-lo lhe falar do que está acontecendo, o que não acontece quando você deixa de ouvir.

Tal como aquele ditado do “cada macaco no seu galho”, o psicoterapeuta precisa estar bem situado quanto àquilo que escuta.  Se ele sabe bem de seu próprio lugar, certamente não irá se incomodar de forma alguma com a demanda que seu paciente lhe trouxer.  Seu papel é estar ali pra ajudar a perceber o que acontece e ajudar a pensar num trilhar para novas direções.72886021

 

“Fique calmo…”: O que dizer em horas críticas?

Em inúmeras situações em que as pessoas são postas à prova, escutam alguém lhes dizer para ficar calma, algo que no hospital chega a ser rotineiro.  Tentar manter a calma ajuda, sem dúvida, afinal, não é em meio ao pânico que as coisas vão se resolver no meio de equipe e pacientes.  Noutras palavras, calma é algo que ajuda tanto pacientes quanto equipe multidisciplinar (médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas, faxineiros e etc).

Algumas pessoas pensam que psicólogos, psicanalistas e demais profissionais da saúde mental possuem consigo uma leva de palavras mágicas ou cabedais de frases especiais para cada situação.  Somos profissionais que precisam ler muitas coisas e ouvir muitas histórias, o que sem dúvida, é enriquecedor.  Porém, não há qualquer palavra em especial que possa causar um efeito tranquilizador num sujeito, ainda que a linguagem tenha um papel crucial nas relações humanas e no psiquismo.

Ao pedir para alguém ficar calmo, você poderá se recordar de alguém que lhe disse isso, de alguém que você ouviu falar ou mesmo, de você falando.  Decerto lembrará de vezes onde isso deu certo e, pensando agora, de outras quando isso deu errado (como aquelas “patadas” de deixar sem rumo ou direção).

Pedir para alguém ficar calmo não é propriamente o que causa um efeito tranquilizador num sujeito.  A grosso modo, as palavras estão envoltas num contexto, num significado, compondo assim, uma parte de uma história.

Acreditar em palavras ou frases mágicas é uma parte de uma crença enraizada no senso comum, de que nossas mentes são algo tão superior que basta pensar forte, ser firme ou ter atitude para dar certo.  Se isso realmente funcionasse, outras frases de efeito, como “deixe de pensar bobagem”, “deixe de ficar triste” e outras, também teriam efeito e psicologia, psicanálise e psiquiatria talvez nem existissem.

Considere uma situação na qual você está no meio de um incêndio quando surge um bombeiro lhe pedindo para manter a calma.  Tente se imaginar em meio às chamas, fumaça e sem ter como respirar, desprovido de energia.

Ok.  Há aqueles que vão imaginar essa cena como algo tranquilizador, entretanto, outras vão querer saber logo para onde fica a saída, pedir para resgatar algum fulano, enfim, há muitas possibilidades.  O que pode tranquilizar um sujeito, se não é a palavra, é aquilo que está nas entrelinhas.

Assim, tente imaginar esse bombeiro lhe dando um abraço, lhe envolvendo numa manda anti-chamas.  Certamente essa cena será mais tranquilizadora que a fala dele, mas ainda assim, poderá não tranquilizar todo mundo.

O que acontece, afinal?

A chave é a atitude do sujeito que fala, a sua postura, o envolvimento dele com aquilo que ouve da angústia alheia.  Ou seja, é o bombeiro oferecer proteção ou uma enfermeira se dispor a estar ao lado de seu paciente para que este possa atravessar uma internação cheia de interrogações pela frente.  Há algumas coisas que não são ditas verbalmente mas, que com as palavras casam e potencializam efeitos.  Não há uma incoerência em tentar pedir para alguém ficar calmo, mas é importante dar algum espaço para o outro dizer o que acontece e se permitir envolver um pouco.