Como é o atendimento on-line? 6 lições importantes

Faz parte da prática profissional pensar e repensá-la sempre. Não basta o que se apreende da faculdade, mas é preciso buscar aprender e apreender mais e mais, seja na forma de novos conhecimentos, seja repensando os passos dados.

E essa necessidade veio à tona com o advento do covid-19…

Como tantas outras pessoas, reavaliei minha prática profissional e… o atendimento on-line… novamente. Trabalhando também dentro de um hospital, vendo as informações sobre a doença e desdobramentos, não esperava um cenário de quarentena de curta duração.

Pois bem… Então logo que portas passaram a se fechar, avaliei que meu trabalho no hospital colocaria em risco quem eu atendia presencialmente, então suspendi o trabalho no consultório e montei uma “estação de trabalho”: peguei meu fone de ouvido, o celular, suporte, ajeitei tudo e abri o Whatsapp. Pronto. Agora iria atender on-line por tempo indefinido.

Fiquei com receio no princípio, mas tanto aquela primeira sessão, como as demais que vieram depois, fluíram tão bem quanto às presenciais. Mas isso com certas ressalvas, que são cuidados com os quais aprendi a lidar:


1. Atendimento por mensagens? Pode ser só por escrito? Qual o resultado? Funciona igual ao áudio ou vídeo?

Explorei um pouco esse formato e pude observar que se trata de um modo de atendimento muito problemático:

  • é muito demorado;
  • há pouca exploração do conteúdo;
  • não é nada dinâmico;
  • dá margem para a pessoa escrever e apagar;
  • as frases do emissor e receptor podem se desencontrar;
  • o vazio de uma pessoa se comunicando é preenchido conforme as fantasias do paciente, o que torna extremamente problemático o estabelecimento da transferência.

Então, por conta desses problemas, não atendo por escrito.


2. O primeiro atendimento precisa ser por vídeo?

Tenho a considerado que a chamada de vídeo ou, videochamada, é a forma mais perto de uma sessão presencial. Da mesma forma que num consultório, o começo é de um profissional para seu paciente. Então, há uma importância em manter a coisa face-à-face, até para que os dois tenham consigo uma referência de quem é aquele com quem vos fala. É mais ou menos como dizer que é preciso existir pessoas entre a relação terapêutica (transferencial) que estão ali.

Há a possibilidade sim de um paciente migrar para sessões por áudio, mas isso vai variar de caso para caso, mais ou menos como é feito com a passagem da poltrona para o divã.


3. Como fica a cobrança por esse tipo de sessão?

À exceção do recebimento do pagamento em dinheiro, eu trato cada caso individualmente, conversando nas sessões à esse respeito. Tem quem pague por sessão, tem quem pague mensalmente.

Valor é assunto para ser conversado na sessão. Conversar fora é tratar isso como algo à parte e, convenhamos… uma sessão de psicanálise é para se falar, então, falar de dinheiro também conta.


4. Sai mais barata a sessão on-line?

Não. E nem pode ser algo mais barato, pois é importante que seja firmado um compromisso do paciente com o tratamento de suas questões. Os custos de um atendimento on-line continuam implicados tal qual o de um atendimento presencial, à exceção da locação de sala. Isso não exclui o investimento em equipamentos e até em adequar o ambiente para a prática profissional.


5. Cuidados ético-profissionais

É importante ter uma boa qualidade de conexão de internet, já que é imprescindível uma boa escuta de cada caso. Nesse sentido é que o atendimento on-line é mais complicado, pois os “cortes” numa conversa aqui dificultam tanto compreensão quanto intervenção. Em suma:

  • é importante localizar um ambiente com menos ruídos. Os ruídos podem incomodar tanto ao analista quanto ao analisando e causar quebras na sessão (a resistência vai adorar uma desculpa para deixar aquele assunto importante de lado);
  • encontrar uma localização fixa para manter a qualidade do sinal;
  • o ambiente precisa garantir privacidade, pois uma conversa com um psicanalista está mais perto de uma conversa consigo mesmo que um bate-papo com outra pessoa;
  • os dispositivos usados precisam ter seus dados assegurados através da pratica de hábitos seguros de navegação na internet e, quando for o caso, incluindo uso de anti-vírus.

6. Atendimento on-line não é cômodo e nem está lá para ser.

Uma análise está lá para trazer à tona o que incomoda e que lhe alfineta. Analista algum está no consultório para passar a mão na cabeça ou para passar pano em neurose. O compromisso de tratamento numa análise é para ser encarado com seriedade, não importa se for numa sessão presencial ou numa sessão mediada por meios eletrônicos.

Fúria e folia (um conto de Carnaval ou de lua cheia, quem sabe…)

“Eu não acredito que você fez uma coisa dessas, amiga!!!!” Foi com essa frase colada à mente que Ângela* ficou muda. Diante dela, mas dando as costas enquanto passava a esponja cheia de espuma num prato, Rosinha*, horrorizada.

Pensativa àquela altura da conversa, Ângela* começava a acreditar que tinha mesmo feito besteira. Ou talvez não?… Por fim, e na dúvida, resolveu manter o silêncio, concordar (não que concordasse com tudo) e foi embora, meio sem graça.

Gota à gota, a pia, se pudesse ver alguma coisa ou mesmo se alguma parte do aglomerado de compostos sedimentares que era, pudesse falar ou lembrar de algo com base na experiência que talvez tivesse se pudesse acumular memórias… saberia que Ângela* só tinha aproveitado a noite para ir um pouco além do que normalmente fazia: era moça, queria pura e simplesmente curtir a noite para ficar com vários outros jovens, coisa que já acontecia desde o começo da adolescência mas…

– Nossa, que galinha! – protestou, esbravejando solitariamente a dona da pia.

Com as palavras da amiga e a cena relatada muito viva flechando a consciência repetidamente, Rosinha* não podia admitir que a amiga tinha passado a noite com um desconhecido num motel. Achava isso um verdadeiro absurdo. Não obstante, se a pia pudesse observar as duas um pouco melhor, já que se tivesse olhos eles certamente estariam limpos de tanto sua dona passar-lhe pano… bem… o mármore falso teria visto uma moça muito satisfeita pelo feito (Ângela* sabia o nome do moço, claro) e outra horrorizada num mesmo instante.

– Loucura… fui fazer uma loucura, a-mi-ga-a!! Que loucura o quê?!?

Repetindo a fala da outra desdenhosamente, não havia bastado para Rosinha*, ficar brava e falar um montão de coisas. Ao terminar de arrumar a cozinha, ela ainda reclamou sozinha, xingou novamente e falou mais uma vez com espanto. Ângela* não era inocente mas, parecia que tinha exagerado, não é?

– É claro sim, claro que foi um exagero!!!

No meio daquela conversa coube a Ângela* se justificar e explicar, surpreendida por tamanha reação negativa da amiga. E convenhamos, ela tinha tomado todos os cuidados (e talvez até mais que muita gente): não foi no motel no mesmo carro e ela própria já levava preservativos na bolsa. Aliás, o moço também levava, o que deixava ainda mais óbvia a razão do encontro dos dois. E se a baladeira (que por sinal ainda trabalhava e estudava muito) não sabia se ele era mesmo solteiro ou não, ué… ele não era alguém com quem queria ficar além dessa noite de ontem. E que tinha sido maravilhosa…

– Nossa, que puta!!!… Que tinha que me mandar mensagem dizendo onde estava? Vai te catar!

A lâmpada se apaga e a pia fica entregue à luz da lua assim que Rosinha* sai. Pela porta, caindo na paredes, apenas a sombra da moça passando de um lado pro outro, se arrumando. Mas, ao contrário de outras vezes, ela não voltou nem um pouco cedo… aliás, estava tão irritada que “precisou” tomar um pouco de vinho antes de sair para ver se estaria melhor quando fosse sair com Ângela*.

E, com as horas… aquela noite se passou em silêncio. Aquele silêncio onde nada se escuta e nem se vê nada, de uma casa cujas vidas saíram por aí para retornar somente no dia seguinte…

– Nossa… – foi o que Rosinha* resmungou pondo as mãos na pia para se apoiar; estava um verdadeiro caco quando reapareceu.

Se pudesse, já que não tinha olhos, o mármore de mentira os teria apertado desconfiado, daquele jeito como quem pergunta: “e aí, o que aconteceu?”… Mas era só um granito e não poderia nunca acolher sua dona assustada.

Maquiagem toda borrada, a roupa torta, uma bolsa atravessada no meio do corpo e uma dor de cabeça horrível… Não, Rosinha* não estava conseguindo pensar direito e por fim largou os sapatinhos que carregava na mão, ali no chão da cozinha mesmo. Não era o que costumava fazer mas o fez e se sentou na cadeira ali mesmo, toda largada, alisando os lábios pensativamente.

Àquela altura, mal conseguia se lembrar da noite. Se a pia lhe perguntasse sobre o que havia bebido, ela não saberia nem dizer do copo de vinho antes de sair de casa. Descabelada, ela tenta ajeitar um pouco os fios, acenando negativamente com a cabeça, sem acreditar que há pouco acordara com um moço estranho bem do seu lado, num motel e atirado nele tudo o que tinha visto pela frente, antes de sair dali num Uber bufando raivosa.

E agora, olhando para o celular, que as delicadas mãos de esmaltes vermelhos afastam, Rosinha* se pergunta sobre o que dizer para a amiga. Mensagens perguntando sobre seu paradeiro e um monte de ligações. Havia uma vaga lembrança de silenciar o aparelho e jogá-lo no fundo da bolsa antes de ir para… onde mesmo?…

Era verdade que Rosinha* se lembrava muito pouco da noite. Sim, isso era verdade. Mas sua maior verdade é que não podia aceitar a chama acesa dentro de seu próprio corpo e aquilo que invejava tanto em Ângela*: o poder de soltar e dominar a própria chama para fazer praticamente tudo o que queria.

Como há de acontecer aos incautos que reprimem sem domar seus ferventes e borbulhantes desejos, o de Rosinha*, escapuliu total, completa e incontrolavelmente das mãos com as quais tanto buscava evitá-lo e mantê-lo quieto.

Se a pia fosse dada a fazer julgamentos como a própria dona, certamente a reprovaria veementemente agora.  Mas, ainda bem que não podia, afinal, Rosinha* já fazia isso tanto por querer quanto sem querer.

Rosinha* tinha aprendido que as coisas não poderiam ser daquela forma súbita e repentina: que seria preciso haver uma conquista, um relacionamento e, para talvez um dia haver algo mais íntimo.

Contudo, tamanha repressão dava as caras nas horas dedicadas a ouvir o quanto Ângela* “aprontava”: sempre queria saber com quem ela havia ficado, quando havia saído, o que tinha acontecido e etc. E ainda estava ali para aconselhar o contrário, assim como fizera ontem.

Era hipocrisia?

A pia, feita de seu indiferente mármore falso, poderia sim fazer uma boa observação, caso fosse dado a esses compostos sedimentares, alguma capacidade de se abster de julgar os humanos, diferentemente de como eles próprios estão tão habituados a fazer. E, livre de julgamento de valores, poderia logo perceber que dentro de uma mesma Rosinha* haviam duas: uma brigando para tentar satisfazer seus desejos mas, reprimida por outra, há anos poderosa e cruel ceifadora.

Mas, diante da primeira vitória da primeira Rosinha*, a segunda faz com que ela se ajoelhe no canto da cozinha e chore envergonhada, já que toda a força repressiva continua ali, tentando satisfazer não a si própria, mas ao que tanto esperavam e esperam dela até hoje.

E é assim, perdida, que Rosinha* se levanta enxugando as lágrimas que não são de uma ou de outra, mas todas dela mesma, mulher composta que sofre sem conseguir ser quem é, seja na repressão, seja na realização do desejo. Ela vira um remédio na boca e bebe a água da torneira mesmo. Estava feito e não tinha muito o que fazer agora a não ser engolir uma tal pílula, tomar um banho gelado e, bem… tentar entender ou esquecer a noite de lua cheia sob a qual havia se transformado.

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Revisado em 21 de fevereiro de 2020.

Quanto custa a sua saúde mental?

Pode ser uma insônia. Talvez um aumento na pressão arterial ou na glicemia, talvez súbitos e repentinos, talvez abruptos e assustadores! Um outro pode ter uma dermatite. Ou bruxismo? Aquela outra pessoa ali pode se ver presa a um ciclo de acontecimentos que sempre se repete e ela já desconfia que a coisa toda não é bem culpa do “destino” como costumam lhe dizer…

Pois bem. A saúde mental causa um impacto na vida das pessoas sem que possam perceber com clareza; é assim com muita gente. Uma preocupação com contas ou, com um “amor”, já costumam ser razões claras para associá-las com insônia, sendo bastante comum ouvir frases do tipo “essas contas estão me tirando o sono” ou, “esse fulano me tira o sono”…

Então… se é assim com contas e etc., não se surpreenda: há uma série de outras “preocupações” também podem levar à insônia; aliás, não se surpreenda se a resposta aqui for parecida com a do endividado àqueles que lhe mandam “resolver logo as dívidas”, que questiona de qual fonte pode tirar recursos financeiros extras. Saúde mental não se resolve num estalar de dedos.

Uma pessoa que dorme mal, por exemplo, irá perder em desempenho noutras atividades. Aliás, pessoas preocupadas podem se distrair com seus problemas e deixar o trabalho parcial ou totalmente de lado. Inclusive, podem perder de minutos a horas de trabalho tentando lidar com preocupações sem perceber.

Mas, a coisa não para por aí.

Há aqueles que deixam de tomar decisões importantes ou que “tomam decisões erradas” e mergulham em verdadeiros “infernos”. Será que é porque são tolas ou ignorantes? Não. Fazem o que fazem, por não conhecerem verdadeiramente a razão de suas ações.

Errar é humano? E quanto a repetir o erro? Se tem curiosidade à repeito, leia um pouquinho aqui, abre outra página em seu navegador.

E aí podemos ter aqueles que trabalham em coisas que não gostam, que não são felizes em seus relacionamentos ou aqueles que nunca encontraram nada, ninguém ou coisa alguma importante.

É um bocado difícil pensar em o quanto custa um emprego que não era aquele que a pessoa gostaria ou, o quanto custa viver anos em um relacionamento que nem é sombra do que um dia talvez tenha sido desejado.

Ulisses* é um exemplo de pessoa que tem toda uma dificuldade para viver a vida em decorrência de questões afetivas sérias. Ele é um personagem fictício com uma história também fictícia, cujo drama pode estar por aí, na pele de outras pessoas. Se interessou, pode ler nesse link (abre outra página)

Esqueça os nomes complicados, os códigos internacionais e os cifrões. A saúde mental possui um custo por si mesma por se tratar da vida do sujeito, portanto, considerá-la e tentar cercá-la de definições e moedas pode ser como colocar num quintal um leão não domesticado e continuar a alimentá-lo, para não dizer que é mais uma forma de perder tempo e agregar mais perdas à vida.

Tempo, aliás, é bastante diferente da correria à qual estamos sujeitos no dia-à-dia. Para compreender, mudar e seguir noutro rumo, o ritmo é outro, ditado por como cada um consegue ou não se construir e reconstruir. Mas, é um assunto para uma próxima.

E para que servem os remédios e a psicoterapia? Qual o melhor?

Eventualmente (mas com certa frequência) surgem dúvidas relacionadas a tomar remédios seja para ajudar a dormir, não ficar ansioso, não ter crises de pânico ou, se o melhor é fazer psicoterapia. Há dúvidas até mesmo, se um tratamento é ou não, melhor que o outro.

Os remédios servem para uma série de sintomas e possuem mecanismos que também podem variar. Quando um psiquiatra prescreve, leva em consideração esses aspectos e também, efeitos de combinações entre fármacos (afinal, um mesmo paciente pode precisar de vários psicotrópicos ou, também, tratar outras doenças, como hipertensão ou diabetes). Alguns dos sintomas que podem ser diminuídos com medicações, são a insônia e a ansiedade (incluindo as crises de pânico), o que costuma ajudar a pessoa descansar e recuperar um pouco as energias ou, para retomar sua rotina de uma forma mais suportável; no caso de depressões, os remédios podem servir como certa “injeção de ânimo” para retomar algumas atividades.

Mas melhorar sintomas não quer dizer que as coisas dentro da mente terão se resolvido. O tempo de cada pessoa para lidar e se “resolver” com uma situação varia bastante. Ainda que a pessoa tome remédios, isso não quer dizer que ela se livrou das “dores da alma” (ou psiquê, como queira). Esse tipo de dor, combinada a aspectos fisiológicos (como aumento de tolerância a alguns fármacos), pode reaparecer cedo ou tarde, inclusive, inviabilizando algum remédio ou medida que a pessoa adota para evitar o que a incomoda.

Vamos dizer assim, que aquilo que perturba a cabeça das pessoas, fica ali num modo stand-by, parecido com quando você desliga seu celular. Ainda que esteja desligado, algumas funções do aparelho continuam. Nesse caso, o reaparecimento de sintomas ruins do estado mental é mais ou menos parecido com seu celular ligar sozinho depois de um esbarrão em alguma coisa ou outra, talvez sem que você perceba claramente como e quando foi.

A psicoterapia e o tratamento psiquiátrico caminham paralelamente. Há quem não precise de remédio (e muitas pessoas, diga-se de passagem), mas quando elas precisam, também não podem deixar de lado que as causas do mal-estar precisam ser ouvidas com todo um cuidado. Isso pode aumentar a sensibilidade, trazer à tona coisas supostamente “esquecidas” mas, que na verdade, só estão pedindo para sair do lugar onde estão.

Entre tratamento psicológico e psiquiátrico, não há um melhor. Há indicações para cada caso a serem pensadas e repensadas em cada encontro com os profissionais, com a participação óbvia e necessária do próprio paciente.

A mãe má (considerações sobre o artigo anterior)

A associação entre doenças físicas (incluindo as relacionadas ao sistema imunológico) e questões psicológicas é estudada há anos. Pode-se até mesmo dizer que questões acumuladas ao longo do tempo podem se transformar em sintomas físicos, como uma forma da “mente” tentar avisar que alguma coisa está errada. Na medida em que a pessoa não dá “bola” para isso ou, não consegue se resolver com aquilo de problemático que aflige sua vida ou, foca apenas no tratamento de sintomas, há um risco desse sintoma “mudar de cara”.

Quanto ao sintoma, uma doença física, ainda que possa ser enquadrada como sintoma da problemática psíquica, não pode ser simplesmente tratada como mero sintoma. A dor pode estar instalada, uma vulnerabilidade ou hipersensibilidade fora do normal, tudo está lá de forma perturbadora.

A intervenção psicológica serve para tratar a raiz do problema, porém, se a questão é cortar uma árvore grande, convenhamos… não é nada sensato tentar arrancá-la pela raiz sem fazer uma poda.

Assim, é importante considerar que um tratamento psicológico não se propõe a excluir outros e imprudentes são aqueles que acreditam que isso possa ser feito sem uma avaliação adequada. Há doenças que precisam ser tratadas diretamente e nem é preciso mencionar nomes de algumas delas.

 

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Obrigado e até a próxima!!!

 

(Minha opção por desmembrar essas considerações do artigo é para facilitar a leitura)


Sugestão de leitura

Caso tenha se interessado pelo assunto, aqui vão mais alguns artigos:

Sintoma

O conceito de sintoma (Scielo)

BBC Brasil – Raiva e Irritação: os sintomas da depressão que muitas vezes ignoramos.

 

Nem gregos e nem troianos

Ulisses* continuava a fazer seus portões. Era assim há muito tempo e diziam que continuaria por bem mais que isso. Se aqueles amontoados de ferros e pingos de solda fossem mais que o que eram e tivessem a oportunidade ímpar de acompanhar seu genitor, entenderiam o porquê.

– Falei tinta cinza, cinza, moleque!!

Rude, Ulisses* juntava os dedos da mão repetindo a mesma frase várias vezes. Queria todos seus portões com fundo cinza. Ninguém sabia qual a razão, mas o seu ajudante anterior conformara-se que tinha que ser dessa forma e pronto.

– É cinza!!! Isso aqui é cinza, olhe bem pra isso!!!

Ok, tinha que ser cinza. Na verdade não havia uma explicação razoável, já que outras tintas, mais novas e modernas, serviriam como uma melhor base para dar um acabamento ao trabalho.

O sobrinho de Ulisses*, lá com seus diminutos dez anos de idade, não compreendia nada daquela exigência mas, não ousava questionar. Ajeitou os chinelos nos pés, voltou à loja e tentou devolver a lata de tinta preta que havia comprado. Não conseguiu, é claro.

– Mocinho, não dá pra aceitar um negócio desses… Seu tio já abriu a lata… Agora ele vai ter que usar…

O menino não gostou mas, colocou a lata debaixo do braço, e caminhou até chegar perto do centro da cidade, passando de loja em loja até encontrar onde havia a tal tinta cinza, onde lamentou:

– Nossa, moço, mas eu não tenho esse dinheiro todo…

Certo de que seu tio ficaria muito bravo se não tivesse o raio da tinta cinza da marca X, ele tirou um pouco do que recebera (que era pouco) e inteirou o valor necessário para a compra. Já não tinha muito e recebia quase nada, então ficou ainda mais pobre. O dia já estava terminando e logo poderia ir para casa.

– Nossa, mas demorou, hein? Eu aqui com o portão parado e você estava fazendo o quê? Fosse de ônibus, ora essa. Só enrola… Da hora do almoço até agora pra isso? E essa lata preta? O que vou fazer com isso? Agora fica pra você, ora, cacete!

Negro, o menino não tinha como ficar vermelho. Entretanto, se aquele portão pudesse perceber alguma coisa teria visto o garoto franzir a testa e apertar as mãos antes de lhe mandarem beber água, já que pelo tanto quanto havia suado, devia estar desidratado.

– Não vai mais pintar?

– Não, agora eu não vou pintar. São quatro e meia. Eu não trabalho depois das cinco.

– Por quê?

– Porque eu não trabalho depois das cinco, ué. Depois das cinco é hora de varrer a sujeira e organizar essa tralha toda.

Ulisses* estava sentado e ficou ali meia hora olhando o portão todo, vendo solda por solda, matutando. Seu sobrinho, de mesmo nome, nada compreendia mas, ficou ali aguardando até as cinco sem fazer nada, já que varrer não podia pois não era hora para aquilo. Nada daquilo parecia fazer sentido e quanto mais tentava entender, mais voltas a sua cabeça dava, até começar a doer.

– Quando chegar amanhã, bate no portão cinco pras oito. Antes disso eu estou escovando os dentes, oras.

O pequeno Ulisses* chegou em casa cansado e mais pobre do que já era. Tomou uma bronca por andar pela cidade inteira e não pegar um Uber. Para sua mãe, o irmão dela era assim mesmo e tinham que aceitá-lo como era e ajudar, afinal, o avô era assim também.

– Tá bom…

– E o que está fazendo com essa lata de tinta agora? Amanhã você entrega pro seu tio.

– Mas…

– Mandei entregar pro seu tio! Você não vai ficar com tinta aqui em casa.

Suado e cansado, o menino Ulisses* esqueceu a lição de casa. Emprestou o pouco dinheiro que tinha para o irmão mais velho, também esquecendo que estava querendo comprar alguma coisa que… por sinal… também já não se lembrava a essa hora…

Ao deitar naquela caminha velha, o garoto que tentava crescer se mexia tanto que dormiu bem mal. Aquele mal de alguém para quem não havia sobrado nada, a não ser uma pilha de coisas sem o menor sentido, exceto para aqueles aos quais restavam infinitas justificativas. E no afã de tentar resolver todas as coisas (loucas) dos outros, o pequeno Ulisses* experimentava nessa noite apenas sua primeira insônia.

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Acompanhe também essas sugestões de leitura:



Ulisses tinha várias manias, mas ninguém sabia dos pensamentos que povoavam sua cabeça. Assim que viu na televisão uma forma de eliminá-los, resolveu que iria até a farmácia dar um jeito.

Pensamentos: indesejados e desnecessários? Uma odisséia de Ulisses* (Parte 1 de 2)

Rosinha*, uma senhora, tenta entender por qual razão a sua vida é mais triste em casa:

“Quando volto pra minha casa, eu fico muito triste…” – E então, o que se fala em um consultório? (2/2) – Exemplos clínicos

Naquele dia Rosinha* já não tinha nem tempo de pensar se estava ou não cansada.  Ela não sabia, mas fazia parte de um complexo jogo, no qual acabava sendo apenas mais uma peça.

A marionete

Dá pra escolher um psicoterapeuta?

Dá sim e para algumas pessoas isso acaba sendo necessário.

Como já mencionei em outros artigos, há certa frequência em ouvir dos pacientes e de outras pessoas, casos, pérolas e até aberrações acerca da atuação de alguns profissionais de saúde mental. Não vou criar um dez passos pra selecionar seu psicoterapeuta, psicanalista ou psiquiatra ou seja lá o que for, pois isso seria absurdo também, então vou me limitar a tentar ajudar a pensar em alguns pontos acerca dessa escolha. Há, de fato, algumas coisas bastante simples que podem facilitar.

O primeiro passo, é se dispor a encontrar alguém para lhe ouvir. Ouvir é bem diferente de concordar com aquilo que você diz. O profissional poderá lhe pedir para esclarecer uma contradição que você nunca percebeu que existia, por exemplo, o que pode resultar em algum embaraço para algumas pessoas.

Você não está procurando um juiz, então, considere que não está lá para ser julgado. Mas, considere, avalie também se você está mesmo sendo julgado ou se não está tentando se defender de algo sem saber a razão.

O tempo da conversa precisa ser minimamente suficiente. Não consigo imaginar uma consulta de cinco minutos servindo para diagnosticar aquilo que é sintoma de uma vida inteira. É mais ou menos como querer falar de um rio inteiro só pela amostra colhida onde ele desemboca. E convenhamos… uns minutos de conversa sempre serão pouco diante do tempo que você já viveu sua vida.

O diagnóstico pode facilitar algumas direções e alguns passos para alguns tipos de tratamento mas nunca irá dizer tudo sobre você e às vezes pode dizer nada. Tratamento em saúde mental não tem como seguir um padrão de procedimentos como o de consertar um carro, fazer uma reforma ou uma cirurgia, pois se trata de lidar com a história de um sujeito.

Em suma, o tempo precisa ser suficiente pra você e a conversa lhe dar alguma sensação de conforto e acolhimento, são alguns pontos breves para saber se encontrou um profissional adequado para você. Na dúvida, leve primeiramente o incômodo ao profissional que lhe atende. Você pode tentar encontrar outro profissional para conversar, se informar melhor, talvez até tirar alguma dúvida. Às vezes é preciso procurar mais de uma vez para encontrar onde dar certo.

 

Todavia, um outro alerta. Nem todo desencontro é por culpa dos profissionais. Há casos com os quais um bom psicoterapeuta ou psiquiatra não poderão compactuar, parecendo para seus pacientes, pessoas ruins, quando na verdade estão fazendo “males” necessários. Sempre há singularidades em cada um dos casos, inclusive a possibilidade de um paciente querer encontrar alguém que lá no fundo, se disponha a um acordo silencioso de não tocar na ferida para fazer um tratamento (falso) em banho maria.

 

Bem, por enquanto é isso. Caso queira ler mais sobre o assunto, há alguns links linhas abaixo. E se gostou da leitura, não se esqueça de curtir e compartilhar. Poste também sua mensagem, pois curtir, compartilhar e comentar ajudam a delimitar os assuntos para serem trabalhados aqui.

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Sugestões para leitura:

Reeditado em 19 de novembro de 2017 às 15h45

“Estou no terceiro casamento… eles sempre me traem…”

Rosinha é relativamente jovem. Tem 4 filhos, dois do primeiro casamento e os outros dois dos posteriores, sendo que a menina mais nova tem pouco mais de um ano. Se em sua vida tudo ocorresse como gostaria, eis que teríamos uma mulher feliz apesar das preocupações em como cuidar da prole… mas não… entre um olhar e outro para o vazio ou para o chão, os olhos se enchem de lágrimas sem que ela saiba porquê, os sentimentos lhe saltam à razão e brotam e rolam pelo rosto na forma de lágrimas. “Eu acho que o que motiva são meus filhos, que se eles não tiverem eu, a quem vão recorrer? Não posso ficar ruim assim, não…”

Nos relacionamentos anteriores, Rosinha foi traída por seus maridos, resultando em brigas e separações. Se fosse dada a esquecer por conta da “idade”, como dizia e nem tinha, talvez não tivesse ido tão longe em sua história e nem a fundo a ponto de se recordar de coisas parecidas que já haviam acontecido antes, incluindo traições de seus então namorados. “Eu devo ter algum problema sério, porquê sempre escolho errado… Ou minha mãe que tá certa, ela diz que homem nenhum presta”.

Como se não bastasse, a mãe de Rosinha também foi traída, casou duas vezes e não mais. Não bastasse ser a pessoa mais próxima, não causa surpresa ser com quem mais essa jovem mulher se identifica. “Nossa, somos muito parecidas, sabe? Até quando a gente faz comida as pessoas não sabem se foi eu ou ela quem fez.”

Rosinha, crente de que tinha que aguentar todos desafios nessa vida, tentou suportar tudo. Ou, quase tudo… afinal, devia ter alguma coisa que lhe permitisse mudar de direção, afinal, tinha mudado de namorado, de marido e de casa. “Vai, eu não fui santa, eu acho… porquê antes de terminar eu já estava querendo ficar com outro… acho que não foi certo, né? Mas é que assim, nossa, é muito ruim pra mim… assim, ficar sozinha…”

No decorrer do plantão, Rosinha, que estava certa de que um pouco de conversa, em meio solidão que sentia, resolveria, percebeu que pétala à pétala, vinha se acabando aos poucos. Se fosse uma planta, não haveriam dúvidas de sua força, mas aquilo tinha um limite e o desafio maior não talvez não fosse aquele que estava certa enfrentar

Se a questão fosse pura e simplesmente despachar um marido, um namorado ou companheiro que fosse, Rosinha já sabia como fazê-lo, inclusive teria despachado suas questões e não mais se haveria com elas, tampouco teria se desgastado tanto. Aquilo que parecia uma gota de água, era uma torneira aberta, transbordando na pia…

Rosinha ficou triste. Mas, se fosse dada a se abater pela tristeza, não teria ficado contente por se conhecer melhor, tampouco por começar a compreender seu papel em sua história e que isso lhe dava a chance de tentar mudar. “Só não sei por onde que eu começo.”

Caso pudesse ter seu caso solucionado pelo plantão psicológico, Rosinha teria tido sua alta. Mas, como a solução não dependia do simples querer, e como o problema estava entrelaçado à várias questões e, não obstante, emaranhadas em sua vida, a sua indicação foi para uma psicanálise.

Mas Rosinha não quis. Suave e delicada como uma rosa, não queria se despedaçar novamente. Suave e delicada, pediu um trabalho mais suave, que a ajudasse a resolver sua questão mais pontual e iminente. “Eu entendi o que é melhor, mas estou com receio de ir muito fundo mais uma vez agora…”

Rosinha foi atendida. Sua opção naquele momento foi uma psicoterapia breve de um ano.

Assédio, culpa, perdão e desculpas – Limites do corpo e da alma

Causa-me perplexidade, mas não surpresa, que em pleno século XXI algumas pessoas tentem virar o jogo e culpar a mulher ou justificar o homem diante de crimes sexuais.  Diante da denúncia pública de uma artista contra um artista famoso, colega de trabalho, li coisas que de forma recorrente aparecem e reaparecem. Elas vão desde falas que questionam inapropriadamente como “ah, mas outras não denunciaram porquê? Estavam gostando?”, “ah, mas como ela estava vestida?”, até outras ainda mais aberrantes como… “ah, mas o problema foi a minha criação machista”.

Menos!

Tanto corpo e alma (mente, inconsciente, diga como quiser dentro do seu devido contexto) têm os seus limites de acordo com cada sujeito. É aquilo que ele estabelece de formas diferentes de acordo com determinados contextos e com sua história de vida.  Ou seja, tocar na intimidade de uma pessoa demanda a construção de uma relação e uma disposição para tal, não apenas acerca do que diz respeito ao concreto, mas também, ao subjetivo.

Por exemplo, uma mulher pode desejar e pedir que a pessoa que é sua parceira sexual, lhe chamar de nomes chulos que a maioria dos senhores e senhoras sabem bem quais costumam ser. Pode inclusive se insinuar sexualmente, seja através de sua roupa ou gestos. Só que isso é algo íntimo, entre parceiros ou parceiras, fora dali a conversa é noutro tom. Ou seja, a liberdade foi cedida numa determinada situação e não tomada, permitindo a ambos gozar dela.

Num segundo exemplo mostro que mesmo num consultório é possível ser invasivo com um paciente, é só não respeitar o tempo dele de falar.

Neste caso, em atendimento domiciliar (lá no começo de minha atuação em tal contexto) eu tinha o costume de fazer vários questionamentos, investigar, perguntar acerca do que estava incomodando, tentando agregar o máximo de informações. Assim, não bastando estar entrando na casa das pessoas conforme a equipe multidisciplinar pedia, na medida que as portas de pacientes e seus cuidadores fechavam-se, dei-me conta de que estava indo além do que aquelas pessoas poderiam suportar, ou seja, estava sendo invasivo.

Tocar na intimidade não é apenas tocar ou entrar nas partes íntimas, é muito mais que isso. É também invadir o espaço subjetivo ao qual o físico sempre estará conectado e ao qual sempre estará fundido.  Trata-se de lidar com a história do sujeito e com as construções que ele possui quanto aos limites de corpo e alma. E vale ainda dizer: há barreiras no inconsciente que servem para proteger o sujeito do que lhes pode fazer mal, assim como estão ali mãos, pernas e roupas para proteger o corpo concreto. Por isso, violar esses limites pode ser absolutamente devastador.

Justificar não basta e aprendizado não se faz do dia para a noite. Já dizia Piaget que as coisas precisam ser assimiladas e acomodadas após certo tempo. Em psicanálise, considera-se a existência de um processo de elaboração, uma construção de algo para operar uma mudança.

É isso.

Obrigado pela leitura e até a próxima.