Como é o atendimento on-line? 6 lições importantes

Faz parte da prática profissional pensar e repensá-la sempre. Não basta o que se apreende da faculdade, mas é preciso buscar aprender e apreender mais e mais, seja na forma de novos conhecimentos, seja repensando os passos dados.

E essa necessidade veio à tona com o advento do covid-19…

Como tantas outras pessoas, reavaliei minha prática profissional e… o atendimento on-line… novamente. Trabalhando também dentro de um hospital, vendo as informações sobre a doença e desdobramentos, não esperava um cenário de quarentena de curta duração.

Pois bem… Então logo que portas passaram a se fechar, avaliei que meu trabalho no hospital colocaria em risco quem eu atendia presencialmente, então suspendi o trabalho no consultório e montei uma “estação de trabalho”: peguei meu fone de ouvido, o celular, suporte, ajeitei tudo e abri o Whatsapp. Pronto. Agora iria atender on-line por tempo indefinido.

Fiquei com receio no princípio, mas tanto aquela primeira sessão, como as demais que vieram depois, fluíram tão bem quanto às presenciais. Mas isso com certas ressalvas, que são cuidados com os quais aprendi a lidar:


1. Atendimento por mensagens? Pode ser só por escrito? Qual o resultado? Funciona igual ao áudio ou vídeo?

Explorei um pouco esse formato e pude observar que se trata de um modo de atendimento muito problemático:

  • é muito demorado;
  • há pouca exploração do conteúdo;
  • não é nada dinâmico;
  • dá margem para a pessoa escrever e apagar;
  • as frases do emissor e receptor podem se desencontrar;
  • o vazio de uma pessoa se comunicando é preenchido conforme as fantasias do paciente, o que torna extremamente problemático o estabelecimento da transferência.

Então, por conta desses problemas, não atendo por escrito.


2. O primeiro atendimento precisa ser por vídeo?

Tenho a considerado que a chamada de vídeo ou, videochamada, é a forma mais perto de uma sessão presencial. Da mesma forma que num consultório, o começo é de um profissional para seu paciente. Então, há uma importância em manter a coisa face-à-face, até para que os dois tenham consigo uma referência de quem é aquele com quem vos fala. É mais ou menos como dizer que é preciso existir pessoas entre a relação terapêutica (transferencial) que estão ali.

Há a possibilidade sim de um paciente migrar para sessões por áudio, mas isso vai variar de caso para caso, mais ou menos como é feito com a passagem da poltrona para o divã.


3. Como fica a cobrança por esse tipo de sessão?

À exceção do recebimento do pagamento em dinheiro, eu trato cada caso individualmente, conversando nas sessões à esse respeito. Tem quem pague por sessão, tem quem pague mensalmente.

Valor é assunto para ser conversado na sessão. Conversar fora é tratar isso como algo à parte e, convenhamos… uma sessão de psicanálise é para se falar, então, falar de dinheiro também conta.


4. Sai mais barata a sessão on-line?

Não. E nem pode ser algo mais barato, pois é importante que seja firmado um compromisso do paciente com o tratamento de suas questões. Os custos de um atendimento on-line continuam implicados tal qual o de um atendimento presencial, à exceção da locação de sala. Isso não exclui o investimento em equipamentos e até em adequar o ambiente para a prática profissional.


5. Cuidados ético-profissionais

É importante ter uma boa qualidade de conexão de internet, já que é imprescindível uma boa escuta de cada caso. Nesse sentido é que o atendimento on-line é mais complicado, pois os “cortes” numa conversa aqui dificultam tanto compreensão quanto intervenção. Em suma:

  • é importante localizar um ambiente com menos ruídos. Os ruídos podem incomodar tanto ao analista quanto ao analisando e causar quebras na sessão (a resistência vai adorar uma desculpa para deixar aquele assunto importante de lado);
  • encontrar uma localização fixa para manter a qualidade do sinal;
  • o ambiente precisa garantir privacidade, pois uma conversa com um psicanalista está mais perto de uma conversa consigo mesmo que um bate-papo com outra pessoa;
  • os dispositivos usados precisam ter seus dados assegurados através da pratica de hábitos seguros de navegação na internet e, quando for o caso, incluindo uso de anti-vírus.

6. Atendimento on-line não é cômodo e nem está lá para ser.

Uma análise está lá para trazer à tona o que incomoda e que lhe alfineta. Analista algum está no consultório para passar a mão na cabeça ou para passar pano em neurose. O compromisso de tratamento numa análise é para ser encarado com seriedade, não importa se for numa sessão presencial ou numa sessão mediada por meios eletrônicos.

Isolamento: ele mexe com a cabeça das pessoas?

Como muitas coisas, o isolamento pode ser um estopim para mexer com a cabeça das pessoas.

Em se tratando de isolamentos hospitalares é possível observar aumento de ansiedade e dúvidas diversas, como preocupação com a saúde, prognóstico, sensação de vazio, de exclusão, uma dolorosa solidão, dolorosa saudade dos outros diante da falta de perspectivas claras quanto ao futuro (seja para ver os outros, seja para retornar à vida e à liberdade habitual).

Enquanto uma maioria consegue encarar um isolamento como uma forma alternativa de tratamento, boa parte se tranquiliza quando percebe que a problemática maior implica em não permitir que o que ela (a pessoa doente ou suspeita) tem passe para outras pessoas. Inclusive, como gesto de consideração aos outros, passam a aceitar essa condição e a encarar os desafios envolvidos como uma fase.

Também há aqueles que encaram como uma espécie de sentença de morte, mas geralmente isso se dissipa na medida em que recebem informações adequadas e vão conseguindo absorvê-la. Como costumo dizer, nem sempre as pessoas estão prontas para receber informação, então pode ser necessário repetir, reorientar, explicar a mesma coisa várias vezes, até mesmo, de maneiras diferentes.

Mas…

…também têm aqueles que ficam bravos e até furiosos.

Esses dificultam o tratamento, mas costumam reagir melhor na medida em que recebem os devidos esclarecimentos. Em um hospital é mais fácil a pessoa compreender e cooperar com um isolamento, já que estar lá pressupõe uma avaliação de uma equipe para validá-lo. Fora dali é mais complicado.

No cenário atual é esperado que uma série de questões afetivas venham a eclodir. Há quem pense que é culpa do isolamento, mas isso requer um olhar mais cuidadoso para fazer um diagnóstico correto. O isolamento implica em privação de liberdade, cujo significado muda de uma pessoa para outra. Também envolve a questão do “sentir-se bem” confrontada ao que envolvem as patologias fisiológicas, afinal, para espalhar uma doença não é preciso ter sintomas, basta ter sido contaminado.

Dentro desse cenário de sentir-se bem, de estar privado de liberdade, que ainda envolve questões de sobrevivência (ter um trabalho e receber uma renda), fica mais difícil de manter a mente no lugar sim. E, neste caso, sempre se aplica, buscar formas de ocupar a mente e o corpo, sendo importante em certos casos até um desabafo.

O que não se pode é, diante do risco biológico, pura e simplesmente abrir mão do isolamento social ou da quarentena, seja como queira chamar. Afinal, é algo novo e que está sendo investigado em todos os sentidos (sinais, sintomas, transmissão, prognóstico e tratamento) e isso requer tempo de pesquisa.

Assim como acontece com pacientes isolados no hospital à espera de resultados de novas culturas, essa é hora de esperar no isolamento, ainda que isso paralise vidas de várias formas.

Está bravo? Com medo? Ansioso? Perdido? Procure alguém para conversar.

Se está sentindo o coração bater mais que o normal, dificuldade para respirar, sensação de que o coração vai sair pela boca, pense um pouco e considere a possibilidade de buscar ajuda profissional.

Busque quebrar o isolamento dentro de suas possibilidades. Há recursos para ligações ou videochamadas, videoconferências. Use o que estiver ao seu alcance.

Até!!!

Fúria e folia (um conto de Carnaval ou de lua cheia, quem sabe…)

“Eu não acredito que você fez uma coisa dessas, amiga!!!!” Foi com essa frase colada à mente que Ângela* ficou muda. Diante dela, mas dando as costas enquanto passava a esponja cheia de espuma num prato, Rosinha*, horrorizada.

Pensativa àquela altura da conversa, Ângela* começava a acreditar que tinha mesmo feito besteira. Ou talvez não?… Por fim, e na dúvida, resolveu manter o silêncio, concordar (não que concordasse com tudo) e foi embora, meio sem graça.

Gota à gota, a pia, se pudesse ver alguma coisa ou mesmo se alguma parte do aglomerado de compostos sedimentares que era, pudesse falar ou lembrar de algo com base na experiência que talvez tivesse se pudesse acumular memórias… saberia que Ângela* só tinha aproveitado a noite para ir um pouco além do que normalmente fazia: era moça, queria pura e simplesmente curtir a noite para ficar com vários outros jovens, coisa que já acontecia desde o começo da adolescência mas…

– Nossa, que galinha! – protestou, esbravejando solitariamente a dona da pia.

Com as palavras da amiga e a cena relatada muito viva flechando a consciência repetidamente, Rosinha* não podia admitir que a amiga tinha passado a noite com um desconhecido num motel. Achava isso um verdadeiro absurdo. Não obstante, se a pia pudesse observar as duas um pouco melhor, já que se tivesse olhos eles certamente estariam limpos de tanto sua dona passar-lhe pano… bem… o mármore falso teria visto uma moça muito satisfeita pelo feito (Ângela* sabia o nome do moço, claro) e outra horrorizada num mesmo instante.

– Loucura… fui fazer uma loucura, a-mi-ga-a!! Que loucura o quê?!?

Repetindo a fala da outra desdenhosamente, não havia bastado para Rosinha*, ficar brava e falar um montão de coisas. Ao terminar de arrumar a cozinha, ela ainda reclamou sozinha, xingou novamente e falou mais uma vez com espanto. Ângela* não era inocente mas, parecia que tinha exagerado, não é?

– É claro sim, claro que foi um exagero!!!

No meio daquela conversa coube a Ângela* se justificar e explicar, surpreendida por tamanha reação negativa da amiga. E convenhamos, ela tinha tomado todos os cuidados (e talvez até mais que muita gente): não foi no motel no mesmo carro e ela própria já levava preservativos na bolsa. Aliás, o moço também levava, o que deixava ainda mais óbvia a razão do encontro dos dois. E se a baladeira (que por sinal ainda trabalhava e estudava muito) não sabia se ele era mesmo solteiro ou não, ué… ele não era alguém com quem queria ficar além dessa noite de ontem. E que tinha sido maravilhosa…

– Nossa, que puta!!!… Que tinha que me mandar mensagem dizendo onde estava? Vai te catar!

A lâmpada se apaga e a pia fica entregue à luz da lua assim que Rosinha* sai. Pela porta, caindo na paredes, apenas a sombra da moça passando de um lado pro outro, se arrumando. Mas, ao contrário de outras vezes, ela não voltou nem um pouco cedo… aliás, estava tão irritada que “precisou” tomar um pouco de vinho antes de sair para ver se estaria melhor quando fosse sair com Ângela*.

E, com as horas… aquela noite se passou em silêncio. Aquele silêncio onde nada se escuta e nem se vê nada, de uma casa cujas vidas saíram por aí para retornar somente no dia seguinte…

– Nossa… – foi o que Rosinha* resmungou pondo as mãos na pia para se apoiar; estava um verdadeiro caco quando reapareceu.

Se pudesse, já que não tinha olhos, o mármore de mentira os teria apertado desconfiado, daquele jeito como quem pergunta: “e aí, o que aconteceu?”… Mas era só um granito e não poderia nunca acolher sua dona assustada.

Maquiagem toda borrada, a roupa torta, uma bolsa atravessada no meio do corpo e uma dor de cabeça horrível… Não, Rosinha* não estava conseguindo pensar direito e por fim largou os sapatinhos que carregava na mão, ali no chão da cozinha mesmo. Não era o que costumava fazer mas o fez e se sentou na cadeira ali mesmo, toda largada, alisando os lábios pensativamente.

Àquela altura, mal conseguia se lembrar da noite. Se a pia lhe perguntasse sobre o que havia bebido, ela não saberia nem dizer do copo de vinho antes de sair de casa. Descabelada, ela tenta ajeitar um pouco os fios, acenando negativamente com a cabeça, sem acreditar que há pouco acordara com um moço estranho bem do seu lado, num motel e atirado nele tudo o que tinha visto pela frente, antes de sair dali num Uber bufando raivosa.

E agora, olhando para o celular, que as delicadas mãos de esmaltes vermelhos afastam, Rosinha* se pergunta sobre o que dizer para a amiga. Mensagens perguntando sobre seu paradeiro e um monte de ligações. Havia uma vaga lembrança de silenciar o aparelho e jogá-lo no fundo da bolsa antes de ir para… onde mesmo?…

Era verdade que Rosinha* se lembrava muito pouco da noite. Sim, isso era verdade. Mas sua maior verdade é que não podia aceitar a chama acesa dentro de seu próprio corpo e aquilo que invejava tanto em Ângela*: o poder de soltar e dominar a própria chama para fazer praticamente tudo o que queria.

Como há de acontecer aos incautos que reprimem sem domar seus ferventes e borbulhantes desejos, o de Rosinha*, escapuliu total, completa e incontrolavelmente das mãos com as quais tanto buscava evitá-lo e mantê-lo quieto.

Se a pia fosse dada a fazer julgamentos como a própria dona, certamente a reprovaria veementemente agora.  Mas, ainda bem que não podia, afinal, Rosinha* já fazia isso tanto por querer quanto sem querer.

Rosinha* tinha aprendido que as coisas não poderiam ser daquela forma súbita e repentina: que seria preciso haver uma conquista, um relacionamento e, para talvez um dia haver algo mais íntimo.

Contudo, tamanha repressão dava as caras nas horas dedicadas a ouvir o quanto Ângela* “aprontava”: sempre queria saber com quem ela havia ficado, quando havia saído, o que tinha acontecido e etc. E ainda estava ali para aconselhar o contrário, assim como fizera ontem.

Era hipocrisia?

A pia, feita de seu indiferente mármore falso, poderia sim fazer uma boa observação, caso fosse dado a esses compostos sedimentares, alguma capacidade de se abster de julgar os humanos, diferentemente de como eles próprios estão tão habituados a fazer. E, livre de julgamento de valores, poderia logo perceber que dentro de uma mesma Rosinha* haviam duas: uma brigando para tentar satisfazer seus desejos mas, reprimida por outra, há anos poderosa e cruel ceifadora.

Mas, diante da primeira vitória da primeira Rosinha*, a segunda faz com que ela se ajoelhe no canto da cozinha e chore envergonhada, já que toda a força repressiva continua ali, tentando satisfazer não a si própria, mas ao que tanto esperavam e esperam dela até hoje.

E é assim, perdida, que Rosinha* se levanta enxugando as lágrimas que não são de uma ou de outra, mas todas dela mesma, mulher composta que sofre sem conseguir ser quem é, seja na repressão, seja na realização do desejo. Ela vira um remédio na boca e bebe a água da torneira mesmo. Estava feito e não tinha muito o que fazer agora a não ser engolir uma tal pílula, tomar um banho gelado e, bem… tentar entender ou esquecer a noite de lua cheia sob a qual havia se transformado.

Gostou da leitura? Então aperte os botões aqui embaixo para curtir e compartilhar! Isso ajuda na escolha do conteúdo para publicação e também, a expandir esse trabalho!! Não esqueça de se inscrever também para acompanhar as publicações!!

Obrigado e até a próxima!!!

Revisado em 21 de fevereiro de 2020.

Ansiedade – Isso é traço de personalidade?

Ansiedade não é um traço de personalidade. O que costuma acontecer é a existência de mecanismos que acabam validando esse sintoma como tal. Muitas vezes a pessoa convive há tanto tempo com ela que de certa forma “se acostuma”, sendo mais grave ainda quando há uma série de outras pessoas dentro da mesma família com o mesmo problema.

Basicamente, a ansiedade está ligada a expectativa da realização de algo, incluindo a não realização. Por mais estranho e bizarro que possa parecer, sim, às vezes é importante a “não-realização” de alguma coisa, como por exemplo, na síndrome do pânico. Esta síndrome, por sua vez, tão logo o paciente comece a falar dela, mostra-se como um quadro complexo de questões afetivas colocadas umas sobre as outras repetidamente e por um tempo muito além do suportável.

Nos casos onde há um comprometimento de atividades, como dificuldade de concentração acentuada, insônia, irritabilidade, angústia, ejaculação precoce, bulimia, cabe sim consideração a avaliação psiquiátrica. Entretanto, ainda que por via medicamentosa possa haver uma melhora dos sintomas, a problemática que a origina continuará lá até que a pessoa mude coisas na vida, algo que muitas vezes irá requerer assistência psicológica.

Ansiedade tem uma coisa em comum com a febre: você não escolhe ter mas, pode tratar. Há meios para isso, consulte um profissional de saúde mental.

A mãe má (considerações sobre o artigo anterior)

A associação entre doenças físicas (incluindo as relacionadas ao sistema imunológico) e questões psicológicas é estudada há anos. Pode-se até mesmo dizer que questões acumuladas ao longo do tempo podem se transformar em sintomas físicos, como uma forma da “mente” tentar avisar que alguma coisa está errada. Na medida em que a pessoa não dá “bola” para isso ou, não consegue se resolver com aquilo de problemático que aflige sua vida ou, foca apenas no tratamento de sintomas, há um risco desse sintoma “mudar de cara”.

Quanto ao sintoma, uma doença física, ainda que possa ser enquadrada como sintoma da problemática psíquica, não pode ser simplesmente tratada como mero sintoma. A dor pode estar instalada, uma vulnerabilidade ou hipersensibilidade fora do normal, tudo está lá de forma perturbadora.

A intervenção psicológica serve para tratar a raiz do problema, porém, se a questão é cortar uma árvore grande, convenhamos… não é nada sensato tentar arrancá-la pela raiz sem fazer uma poda.

Assim, é importante considerar que um tratamento psicológico não se propõe a excluir outros e imprudentes são aqueles que acreditam que isso possa ser feito sem uma avaliação adequada. Há doenças que precisam ser tratadas diretamente e nem é preciso mencionar nomes de algumas delas.

 

Gostou da leitura? Então aperte os botões aqui embaixo para curtir e compartilhar! Isso ajuda me ajuda na escolha do conteúdo para publicação e também, a expandir esse trabalho!! Não esqueça de se inscrever também para acompanhar as publicações!!

Obrigado e até a próxima!!!

 

(Minha opção por desmembrar essas considerações do artigo é para facilitar a leitura)


Sugestão de leitura

Caso tenha se interessado pelo assunto, aqui vão mais alguns artigos:

Sintoma

O conceito de sintoma (Scielo)

BBC Brasil – Raiva e Irritação: os sintomas da depressão que muitas vezes ignoramos.

 

A mãe má

– De novo?… O que ela quer? Agora pouco ela não queria tomar remédio nem nada e agora chama de novo?!?

A enfermeira já havia perdido a paciência com aquela paciente, uma velha chata e insuportável, sobre a qual quais os filhos falavam que aquela “brabeza” e “rudeza” estavam além da conta, perguntando-se sobre velhice e doença, se elas poderiam deixar mesmo as pessoas assim…

– Nossa, ela tá bem pior do que era…

Tremendo de dor, Ângela* acabava cedendo momentaneamente vez ou outra. Era estranho… Sua filha mais nova saía do seu lado, cansada de ouvir tanta reclamação e ia lá fora, no balcão, tentar conversar com outras pessoas, desabafar um pouco.

– O que me deixa preocupada… além desse negócio dos remédios, é que ela não tá nem comendo, sabe?…

A equipe já sabia daquilo tudo e estava evitando o contato para evitar mais atritos. Ângela* não queria saber de nada, era um poço de revolta, absolutamente insatisfeita com qualquer coisa. Havia começado o tratamento, mas agora estava muito relutante.

– Ok, eu posso dar uma olhada nela sim, pelo que está me contando, é importante.

Depois de ouvir sobre a paciente, Misael* ajeitou seu avental e foi até lá atender uma interconsulta. Foi um dia. Depois, outro.  Por fim, foi várias vezes. Conversou com a equipe. Não foi um trabalho fácil.

– É, agora ela aceita alguns remédios, mas não quer comer muito não, só vomita… E fica lá fazendo cara feia pra tudo que eu falo… depois fala que vai parar de tomar remédios de novo… já não sei mais o que fazer… Dá vontade de ir embora para casa e nem voltar mais… deixar ela aí, fazer o que ela quiser.

Rosinha*, ali do outro lado do balcão, um pouco menos enfurecida, se perguntava o que Ângela* tinha afinal?… A equipe e a família sabiam bem do que se tratava, porém, aquela mulher que tinha boca para falar o que fosse a quem quer que fosse, não conseguia nem dizer o nome da doença que tinha e…

– Eu não quero nem saber, não fique me falando disso que eu não gosto e pronto! Ao invés de porem o meu nome aqui em cima da minha cabeça, coloquem para não me falar disso, que droga!!

Diante dos sinais físicos que Ângela* apresentava, estava óbvio que o problema requeria uma intervenção cirúrgica, já discutida à exaustão desde os primeiros exames, mas…

– Eu já sei o que foi que causou isso! Não preciso ficar falando, preciso ir lá e resolver, ora essa. Se eu fosse mais nova queria ver quem é que ia conseguir me segurar aqui dentro.

Àquela altura, a cada bufada e cruzada de braços, já não se sabia muito claramente quando Ângela* estava furiosa ou com dor. O fato é que a cada espasmo, ela olhava lá para fora e após algum tempo mudava sua feição.

– …

Não, ela não conseguia falar do que se tratava e levou algum tempo a conseguir isso. Perto da dor que sentia no corpo, essa outra nem tinha ao que se comparar. Não adiantava virar o rosto, fechar os olhos, virar na cama e nem tomar um “remédinho”, muito menos dormir. A dor era no fundo da alma.

Ângela* estava certa de que sua dor era fruto dos percalços de sua vida. E com isso, estava certa de que sua obrigação agora era reparar seus erros para se sentir melhor e só assim é que obteria a cura.

– Eu sei que sou ruim, mas é como aprendi a ser. Eles não acreditam, mas eu melhorei, eu quero melhorar. Só quero ser uma boa mãe…

Nesse ponto, Ângela* chorou compulsivamente, como talvez nunca tivesse feito na vida toda. Na verdade, nunca tinha olhado para si e àquela altura, revelava-se mais dura do que era.

No fundo, ela era assim consigo mesma e de certa forma, até pior do que com outras pessoas. Permanecer com dor era uma mistura cruel de auto-flagelo com penitência.

– Ela tem esse nome daquela enfermeira ali que fala que eu chamo ela toda hora… Rosa*.

Tratava-se da filha mais velha de Ângela*. Brigadas há muitos anos, não conseguia se achar digna da maternidade dela diante da mulher que a outra havia se tornado. Há anos mal falava com ela.

– Eu só queria pedir desculpas, sabe? Mas não consigo fazer essas coisas, não consigo!

Ângela*. Não se sentia digna da maternidade nem de Rosa* e nem dos outros dois filhos, mesmo diante do sucesso deles.

Algum tempo após ficar às portas de alta à pedido e alta sem cirurgia, o teor de raiva e revolta de Ângela* diminuíram e ela passou a cooperar um pouco. Não fazia sentido ser tão cruel consigo como estava sendo. Sua doença já estava instalada e consumindo seu corpo e, mesmo que se resolvesse com Rosa*, não ficaria fisicamente curada. Já havia um prejuízo de funções orgânicas e ela precisou melhorá-las até ficar em condições de ser operada.

– Não, não precisa chamar. Eu já até infartei nessa vida e saí. Vou lá do meu jeito. Não acredita?!? Só conseguir andar de novo…

Ângela*, que recusou que chamassem Rosa para vê-la, fez o seu tipo para o casal de filhos na manhã da cirurgia. Tomou banho sozinha, calçou e se descalçou sozinha. Tapou a boca sem dentes e, meio curvada, lenta, subindo amparada (um pouco à contragosto…) pelos outros e deitando na maca.

– Não precisam ficar chorando, eu volto logo… Se o médico não ficar enrolando.

Em meio às lágrimas, os filhos e Rosa* sorriram. Ângela* tinha lá um senso de humor no meio daquela cara de vózinha brava. Cobrava de si uma dureza monumental que se desfez assim que as portas da sala pré-anestésica se fecharam, pois tinha um medo: o de não ter mais tempo para consertar aquilo que achava ter feito de errado.

Gostou da leitura? Então aperte os botões aqui embaixo para curtir e compartilhar! Isso ajuda me ajuda na escolha do conteúdo para publicação e também, a expandir esse trabalho!! Não esqueça de se inscrever também para acompanhar as publicações!!

Ah, leia também o próximo artigo, diretamente relacionado ao assunto abordado aqui!!!

A mãe má (considerações)

Obrigado e até a próxima!!


Sugestões de leitura

Caso tenha se interessado pelo assunto, aqui vão mais alguns artigos:

Sintoma

O conceito de sintoma (Scielo)

BBC Brasil – Raiva e Irritação: os sintomas da depressão que muitas vezes ignoramos.

Nem gregos e nem troianos

Ulisses* continuava a fazer seus portões. Era assim há muito tempo e diziam que continuaria por bem mais que isso. Se aqueles amontoados de ferros e pingos de solda fossem mais que o que eram e tivessem a oportunidade ímpar de acompanhar seu genitor, entenderiam o porquê.

– Falei tinta cinza, cinza, moleque!!

Rude, Ulisses* juntava os dedos da mão repetindo a mesma frase várias vezes. Queria todos seus portões com fundo cinza. Ninguém sabia qual a razão, mas o seu ajudante anterior conformara-se que tinha que ser dessa forma e pronto.

– É cinza!!! Isso aqui é cinza, olhe bem pra isso!!!

Ok, tinha que ser cinza. Na verdade não havia uma explicação razoável, já que outras tintas, mais novas e modernas, serviriam como uma melhor base para dar um acabamento ao trabalho.

O sobrinho de Ulisses*, lá com seus diminutos dez anos de idade, não compreendia nada daquela exigência mas, não ousava questionar. Ajeitou os chinelos nos pés, voltou à loja e tentou devolver a lata de tinta preta que havia comprado. Não conseguiu, é claro.

– Mocinho, não dá pra aceitar um negócio desses… Seu tio já abriu a lata… Agora ele vai ter que usar…

O menino não gostou mas, colocou a lata debaixo do braço, e caminhou até chegar perto do centro da cidade, passando de loja em loja até encontrar onde havia a tal tinta cinza, onde lamentou:

– Nossa, moço, mas eu não tenho esse dinheiro todo…

Certo de que seu tio ficaria muito bravo se não tivesse o raio da tinta cinza da marca X, ele tirou um pouco do que recebera (que era pouco) e inteirou o valor necessário para a compra. Já não tinha muito e recebia quase nada, então ficou ainda mais pobre. O dia já estava terminando e logo poderia ir para casa.

– Nossa, mas demorou, hein? Eu aqui com o portão parado e você estava fazendo o quê? Fosse de ônibus, ora essa. Só enrola… Da hora do almoço até agora pra isso? E essa lata preta? O que vou fazer com isso? Agora fica pra você, ora, cacete!

Negro, o menino não tinha como ficar vermelho. Entretanto, se aquele portão pudesse perceber alguma coisa teria visto o garoto franzir a testa e apertar as mãos antes de lhe mandarem beber água, já que pelo tanto quanto havia suado, devia estar desidratado.

– Não vai mais pintar?

– Não, agora eu não vou pintar. São quatro e meia. Eu não trabalho depois das cinco.

– Por quê?

– Porque eu não trabalho depois das cinco, ué. Depois das cinco é hora de varrer a sujeira e organizar essa tralha toda.

Ulisses* estava sentado e ficou ali meia hora olhando o portão todo, vendo solda por solda, matutando. Seu sobrinho, de mesmo nome, nada compreendia mas, ficou ali aguardando até as cinco sem fazer nada, já que varrer não podia pois não era hora para aquilo. Nada daquilo parecia fazer sentido e quanto mais tentava entender, mais voltas a sua cabeça dava, até começar a doer.

– Quando chegar amanhã, bate no portão cinco pras oito. Antes disso eu estou escovando os dentes, oras.

O pequeno Ulisses* chegou em casa cansado e mais pobre do que já era. Tomou uma bronca por andar pela cidade inteira e não pegar um Uber. Para sua mãe, o irmão dela era assim mesmo e tinham que aceitá-lo como era e ajudar, afinal, o avô era assim também.

– Tá bom…

– E o que está fazendo com essa lata de tinta agora? Amanhã você entrega pro seu tio.

– Mas…

– Mandei entregar pro seu tio! Você não vai ficar com tinta aqui em casa.

Suado e cansado, o menino Ulisses* esqueceu a lição de casa. Emprestou o pouco dinheiro que tinha para o irmão mais velho, também esquecendo que estava querendo comprar alguma coisa que… por sinal… também já não se lembrava a essa hora…

Ao deitar naquela caminha velha, o garoto que tentava crescer se mexia tanto que dormiu bem mal. Aquele mal de alguém para quem não havia sobrado nada, a não ser uma pilha de coisas sem o menor sentido, exceto para aqueles aos quais restavam infinitas justificativas. E no afã de tentar resolver todas as coisas (loucas) dos outros, o pequeno Ulisses* experimentava nessa noite apenas sua primeira insônia.

Gostou da leitura? Deixe seu comentário aqui em baixo na página e aperte os botões para curtir e compartilhar!
Acompanhe também essas sugestões de leitura:



Ulisses tinha várias manias, mas ninguém sabia dos pensamentos que povoavam sua cabeça. Assim que viu na televisão uma forma de eliminá-los, resolveu que iria até a farmácia dar um jeito.

Pensamentos: indesejados e desnecessários? Uma odisséia de Ulisses* (Parte 1 de 2)

Rosinha*, uma senhora, tenta entender por qual razão a sua vida é mais triste em casa:

“Quando volto pra minha casa, eu fico muito triste…” – E então, o que se fala em um consultório? (2/2) – Exemplos clínicos

Naquele dia Rosinha* já não tinha nem tempo de pensar se estava ou não cansada.  Ela não sabia, mas fazia parte de um complexo jogo, no qual acabava sendo apenas mais uma peça.

A marionete

Dá pra escolher um psicoterapeuta?

Dá sim e para algumas pessoas isso acaba sendo necessário.

Como já mencionei em outros artigos, há certa frequência em ouvir dos pacientes e de outras pessoas, casos, pérolas e até aberrações acerca da atuação de alguns profissionais de saúde mental. Não vou criar um dez passos pra selecionar seu psicoterapeuta, psicanalista ou psiquiatra ou seja lá o que for, pois isso seria absurdo também, então vou me limitar a tentar ajudar a pensar em alguns pontos acerca dessa escolha. Há, de fato, algumas coisas bastante simples que podem facilitar.

O primeiro passo, é se dispor a encontrar alguém para lhe ouvir. Ouvir é bem diferente de concordar com aquilo que você diz. O profissional poderá lhe pedir para esclarecer uma contradição que você nunca percebeu que existia, por exemplo, o que pode resultar em algum embaraço para algumas pessoas.

Você não está procurando um juiz, então, considere que não está lá para ser julgado. Mas, considere, avalie também se você está mesmo sendo julgado ou se não está tentando se defender de algo sem saber a razão.

O tempo da conversa precisa ser minimamente suficiente. Não consigo imaginar uma consulta de cinco minutos servindo para diagnosticar aquilo que é sintoma de uma vida inteira. É mais ou menos como querer falar de um rio inteiro só pela amostra colhida onde ele desemboca. E convenhamos… uns minutos de conversa sempre serão pouco diante do tempo que você já viveu sua vida.

O diagnóstico pode facilitar algumas direções e alguns passos para alguns tipos de tratamento mas nunca irá dizer tudo sobre você e às vezes pode dizer nada. Tratamento em saúde mental não tem como seguir um padrão de procedimentos como o de consertar um carro, fazer uma reforma ou uma cirurgia, pois se trata de lidar com a história de um sujeito.

Em suma, o tempo precisa ser suficiente pra você e a conversa lhe dar alguma sensação de conforto e acolhimento, são alguns pontos breves para saber se encontrou um profissional adequado para você. Na dúvida, leve primeiramente o incômodo ao profissional que lhe atende. Você pode tentar encontrar outro profissional para conversar, se informar melhor, talvez até tirar alguma dúvida. Às vezes é preciso procurar mais de uma vez para encontrar onde dar certo.

 

Todavia, um outro alerta. Nem todo desencontro é por culpa dos profissionais. Há casos com os quais um bom psicoterapeuta ou psiquiatra não poderão compactuar, parecendo para seus pacientes, pessoas ruins, quando na verdade estão fazendo “males” necessários. Sempre há singularidades em cada um dos casos, inclusive a possibilidade de um paciente querer encontrar alguém que lá no fundo, se disponha a um acordo silencioso de não tocar na ferida para fazer um tratamento (falso) em banho maria.

 

Bem, por enquanto é isso. Caso queira ler mais sobre o assunto, há alguns links linhas abaixo. E se gostou da leitura, não se esqueça de curtir e compartilhar. Poste também sua mensagem, pois curtir, compartilhar e comentar ajudam a delimitar os assuntos para serem trabalhados aqui.

Obrigado pela leitura e até a próxima!!


Sugestões para leitura:

Reeditado em 19 de novembro de 2017 às 15h45

Pensamentos: indesejados e desnecessários? Uma odisséia de Ulisses. (Reflexões sobre o conto)

Esse post é uma reflexão sobre o conto com mesmo título.

Recapitulando, Ulisses estava envolvido em suas questões afetivas de uma forma bastante complicada e que, dado o tempo de permanência, já havia se tornado aquilo que muitas vezes as pessoas denominam como “hábito”, “costume” e até “jeito” ou mesmo, “manias”.

No caso de nosso pseudoherói, a pequena ilustração de sua pacata vida, nos mostra coisas que você só conseguirá observar basicamente das seguintes formas:

  • num conto, numa história ou num relato de caso clínico;
  • através de uma terapia ou de uma análise, dentro da qual o paciente poderá lhe revelar o que sente, o que pensa e o que faz;
  • vivendo a própria história e, com mais profundidade, a conhecendo através de um trabalho terapêutico.

Como acredito que tenha ficado claro, Ulisses é um homem tomado por vários comportamentos bizarros aos quais ele e as pessoas à sua volta já se acostumaram. Inclusive, pessoas como ele não raras vezes chegam ao consultório sem perceber o que acontece (indicadas por alguém) e, quando percebem, não têm a menor ideia do porquê ou o quê fazerem com isso e aquilo. Inclusive, há quem relate uma série de pensamentos indesejados associados com tais comportamentos.

Vamos imaginar que os pensamentos indesejados de Ulisses que o levavam a fazer uma série de coisas absurdas, passassem a ganhar uma dimensão mais estranha ainda. Que ele passasse do fazer portões e acompanhá-los por uma semana para ver se estão funcionando direito, para uma vontade irresistível de ir até lá e cuidar pessoalmente de abrí-los e fechá-los para ter absoluta certeza de que não ficou nenhum problema mesmo.

Absurdo? Sim, claro. Talvez até Ulisses percebesse isso e não se deixasse levar por tal coisa. Entretanto, isso não quer dizer que seus pensamentos lhe deixariam de importunar. O fato é que esses pensamentos estão ali por alguma razão que vai além do efeito mais prático, que é atolá-lo em sua vida e fazê-lo perder tempo. Como é óbvio, isso também serve para dizer que há alguma coisa errada, mas não com o portão e sim, com o próprio sujeito.

Para ilustrar metaforicamente, podemos pensar na doença física combatida com remédios, considerando o fato que nem toda pode ser tratada dessa forma. Inclusive, algumas podem ser mascaradas por analgésicos, anti-térmicos e anti-inflamatórios. O resultado dessa postergação, procrastinação ou enrolação pode servir apenas para agravar a doença de base, o que pode inclusive, levar ao comprometimento fatal da vida do sujeito.

Em saúde mental, não pense que a coisa que a coisa é diferente.

Uma possibilidade bastante similar ao exemplo anterior, é a postergação do tratamento psicológico levar ao agravamento do problema de base (aquele de onde sai uma árvore de sintomas). E isso é bastante perigoso, só observar o desenvolver dos casos de síndrome do pânico, onde tantas coisas já se remontaram que o sujeito nem sabe mais o que lhe incomoda, sendo imprescindível estar acompanhado por um psicoterapeuta para se aprofundar no que costuma ser um verdadeiro iceberg.

Do ponto de vista físico, o corpo humano “deixa” sair pus por alguma estrutura ou fica febril pra dizer que há alguma coisa muito errada (mesmo sem uma dor condizente). Em se tratando de mente humana ou de saúde mental, pode-se dizer que um sintoma “atropelado” por negligência aos próprios afetos ou, morto pelo cessar de sintomas por conta de excesso de remédios, poderá dar lugar a outro e até a outra via para se mostrar. Num exemplo bastante simples, é como uma pessoa deixar o medo de entrar no elevador e passar a ter um bizarro medo de entrar numa piscina ou mesmo, ter uma inexplicável (do ponto de vista fisiológico) paralisia das pernas.

No caso específico de deslocamento de sintomas psíquicos para sintomas físicos, a problemática tende a ser ampliada, sendo necessário um acompanhamento médico para tratar aquilo que está se manifestando no corpo, sendo imprescindível a psicoterapia para tratar o problema de base. Noutras palavras: se há uma manifestação física de um problema psíquico, tratar somente o psíquico pode não garantir a cura.

Em suma, é importante considerar que a eliminação de pensamentos pode ser uma aposta perigosa para ver onde é que novos sintomas vão aparecer e, deixá-los como estão pode ser padecer em mais do mesmo, o que é a mesma coisa que estar deixando de viver uma parte da própria vida (como um zumbi) a troco de coisa nenhuma, alheio inclusive, a que coisa é essa. Por outro lado, cabe levar em consideração a singularidade de psicoses graves e outros estados que requerem medicações pesadas, muitas vezes associadas a questões nas quais é preciso proteger o sujeito dele mesmo ou dos outros e que requer uma série de observações à parte.

Eliminar totalmente um sintoma pode ser uma forma de eliminar justamente aquilo que está dizendo que há algo errado aqui, nesse exato momento.

Obrigado pela leitura e até a próxima.